O despertador de Lara insistia, cortando a quietude do quarto como uma faca. Um braço saiu de debaixo dos cobertores, e a mão bateu no celular com a precisão de quem executa essa mesma ação, dia após dia, há anos. O som cessou. O silêncio retornou, pesado, carregado do resquício de um sonho que já se dissipava.
Ela se arrastou para a beira da cama. A luz da manhã filtrada pela persiana pintava listas claras no chão. A cidade lá fora já era um ruído de fundo constante, um zumbido urbano que ela nem mesmo registrava mais. Sua rotina era uma coreografia bem ensaiada: levantar, escovar os dentes, pegar a xícara de café que sua mãe já deixava na mesa da cozinha. Mas havia um passo nessa dança que não era de obrigação, mas de um hábito peculiar, quase um vício secreto.
Com a xícara quente entre as mãos, Lara voltou para o quarto. Seus pés a levaram, quase por v*****e própria, até a janela que dava para os fundos do prédio e para aquela rua paralela, mais tranquila. Era seu ponto de observação. Seu refúgio antes de mergulhar no caos da faculdade e do trabalho de estagiária.
Ela puxou levemente a persiana com a ponta dos dedos.
E esperou.
Os segundos se arrastaram, marcados apenas pelas batidas do seu coração, que parecia acelerar sem sua permissão. "Ridículo", pensou, tomando um gole de café. "É só um cara andando para a faculdade. Uma coincidência biológica de horários." Sua mente lógica, ateia, sempre buscava uma explicação racional para tudo, até mesmo para o frio na barriga que teimava em aparecer.
Então, às 8h15 com uma pontualidade que desafiava os relógios da cidade, a porta da casa de número 27 se abriu.
E lá estava ele.
Gabriel.
O "menino da rua de trás".
Ele usava um casaco simples e carregava uma mochila que, ela imaginava, devia estar cheia de livros. Seus passos eram calmos, sem a pressa desesperada dos outros transeuntes que ela via da fachada do prédio. Naquele primeiro momento, ele apenas caminhava, de cabeça baixa, parecendo absorto em seus próprios pensamentos.
Lara segurou a respiração. Seus batimentos cardíacos aceleraram mais ainda.
Foi então que ele fez algo que, para ela, era a parte mais intrigante do ritual. Um gato listrado, morador frequente da rua, surgiu de trás de um poste e esfregou-se em suas pernas. Gabriel parou. Sem pressa, ele se abaixou, estendeu a mão e acariciou a cabeça do animal, que imediatamente esfregou o queixo em seus dedos, ronronando. Lara podia quase ouvir o som, mesmo daquela distância. Um sorriso pequeno e tranquilo surgiu no rosto de Gabriel, um sorriso que não era para ninguém, só para o gato e para o momento.
E aquele sorriso, tão simples e genuíno, fez algo estranho no peito de Lara. Não era apenas o tal frio na barriga. Era uma pontada de... curiosidade? Não, não era bem isso. Era uma pontada de curiosidade, daquelas que cutucam a alma e não sossegam. Daquelas que permanecem importunando os pensamentos. Daquelas que mudam o sentido da vida.
Quem era aquele rapaz que tinha tempo para um gato de rua em uma manhã de semana? Que tipo de pessoa sorria sozinha, movida por um ato tão pequeno?
Ele se levantou, deu um último afago no gato e continuou seu caminho, desaparecendo na esquina.
O espetáculo diário havia terminado. Mas os atores ainda estavam no cenário do coração de Lara.
Ela soltou o ar que não sabia que estava prendendo e deixou a persiana cair de volta no lugar. A rua de trás estava vazia novamente, mas o seu interior não. Ficava aquele eco, a imagem daquele sorriso, a quietude daquela cena. Ela virou-se para o quarto, agora estranhamente mais silencioso e vazio.
"O que está acontecendo comigo? Bom…é apenas química, Lara", disse a si mesma, pegando sua própria mochila. "Uma descarga de dopamina. Nada mais."
Mas, pela primeira vez, a explicação soou vazia. Insuficiente. E o mais perturbador era que, no fundo, ela m*l podia esperar pela manhã de amanhã, para ver o que o menino da rua de trás faria a seguir.
"Bom, vou seguir com meu dia, afinal, ele nem me conhece, nem sabe que eu existo".
Lara queria seguir seu dia normalmente, mas seus pensamentos não saiam da cena matinal, ela queria viver por mais tempo o ritual das 8:15. Mas não havia como, agora ela só poderia esperar pelo dia seguinte.
Ela pegou os livros, o estojo e o caderno para iniciar seus estudos, mas a única coisa que ela conseguia fazer era ficar desenhando na última folha a cena das 8:15. O menino da rua de trás estava ali, sendo copiado para seu caderno, o que revelava o que realmente estava no coração dela.
"n******e ser…não consigo me concentrar, ele não sai da minha cabeça, que ódio…que gostoso…que sensação é essa? Como vou seguir com ele no meu peito? Não vou suportar muito, preciso saber mais sobre ele.””