CAPÍTULO 5: TERRITÓRIO SAGRADO

827 Words
A sexta-feira chegou com o peso de uma sentença. O papel com o endereço da igreja estava enfiado na minha mochila, mas eu conseguia sentir a presença dele como se fosse uma brasa. "Luz e vida comunidade cristã". O nome era... esperançoso. Meu celular vibrou. Era minha mãe. "Vai sair hoje, querida? Algo especial?" Se ela soubesse. A filha dela, uma atéia de carteirinha, indo para um café *dentro de uma igreja* por causa de um garoto. "Só com uma amiga da faculdade, mãe. Nada demais." Menti. Era tudo demais. Durante todo o dia, minha mente racional armou todos os argumentos. "É um ambiente controlado para doutrinação, Lara." "Ele vai tentar te salvar, é a obrigação dele." "Você está se traindo por uma atração hormonal." Mas outra parte de mim, uma parte que tinha crescido nos últimos dias, sussurrava mais baixo: "E se ele for genuíno?" "E se você for preconceituosa?" Às 17h, eu estava parada do lado de fora do prédio da igreja. Era moderno, com vidros, não aquela construção gótica e ameaçadora que eu imaginava. Mesmo assim, minhas mãos estavam suadas. Respirei fundo. E entrei. O ar cheirava a café fresco e... livros. Era um hall amplo, com mesas baixas, sofás e prateleiras cheias de livros que não eram só Bíblias. Havia jovens conversando, rindo. Nada daquela solenidade opressiva que eu temia. E então, eu o vi. Gabriel estava atrás de um balcão, servindo café. Ele usava uma camiseta simples e um sorriso descontraído enquanto conversava com um casal. Parecia à v*****e. Em casa. Ele me viu. Seus olhos iluminaram-se, e aquele sorriso que eu conhecia da rua se dirigiu a mim. Ele acenou discretamente, indicando para eu esperar. Meu coração batia num ritmo tribal. Eu era uma intrusa. Uma leoa num aprisco. "Você deve ser a Lara." A voz veio do meu lado. Era uma garota com tranças e um sorriso ainda mais aberto que o de Gabriel. Ela estendeu a mão. "Eu sou a Ana. Irmã mais nova e fiscal oficial desse aí", ela disse, apontando para Gabriel com o queixo. "Ah... sim. Prazer", respondi, sacudindo a mão dela, me sentindo deslocada. "Ele não para de falar de você. A garota da livraria, da janela, dos livros 'perigosos'", ela disse, fazendo sinal de aspas com os dedos. Seus olhos brilhavam de curiosidade. "Finalmente conheci a lenda." Ele tinha falado de mim. Para a irmã dele. Antes que eu pudesse processar isso, Gabriel apareceu ao nosso lado. Ele cheirava a café e a algo limpo, como sabão de coco. "Você veio", ele disse, e sua voz carregava um alívio que me fez sentir um pouco menos fora de lugar. "Eu vim", confirmei, cruzando os braços. "Ainda estou decidindo se foi uma coragem ou uma loucura." Ana deu uma risada. "Aqui, geralmente é as duas coisas ao mesmo tempo. Vou deixar vocês. Tenho que ensaiar com a banda pro culto de amanhã." Ela fez uma dança ridícula e saiu, deixando um vácuo de silêncio constrangedor. Gabriel me serviu um café. "Ela é assim mesmo. Um furacão." "Ela sabe... o que eu sou?", perguntei, baixinho. "Que você é a Lara? Sim." "Gabriel. Você sabe o que quero dizer." Ele suspirou, olhando para a xícara entre suas mãos. "Ela sabe que você tem perguntas. E que eu também. Aqui, isso não é um crime." Ele me guiou até um sofá num canto mais reservado. Sentamos. A distância entre nós era segura, mas a tensão era palpável. "Então", ele começou, seus olhos sérios fixos nos meus. "Pergunte-me qualquer coisa. É o combinado, não é? Uma conversa." Eu olhei em volta. Pessoas normais. Rindo, vivendo. Não era o que eu esperava. "Por que você não é... diferente?", soltei, sem conseguir conter. "Como assim?" "Rígido. Julgador. Assustador. Seu pai me acha uma 'influência perigosa'." Ele ficou em silêncio por um momento. "Meu pai... ele vive em uma guerra espiritual que eu nem sempre consigo enxergar. Ele vê o mundo em 'salvo' e 'perdido'. É a lente dele." Ele tomou um gole de café. "Minha lente está embaçada. Eu vejo pessoas. E eu vi você. E quis saber o que você pensa. De verdade." Aquela honestidade me desarmou completamente. Minhas defesas, tão cuidadosamente construídas, começaram a rachar. "Eu pensei que você ia tentar me converter." "Lara", ele disse, e seu olhar era tão intenso que eu m*l conseguia respirar. "Como eu poderia tentar te converter para uma coisa que eu mesmo estou tentando entender?" Naquele momento, uma música suave começou a tocar no fundo. Era o ensaio da banda da Ana. Uma melodia simples, com uma letra sobre esperança. E, para meu próprio horror, eu gostei. Não da letra. Mas da melodia. Da atmosfera. Da paz que, contra toda a minha v*****e, começou a se instalar em mim. Eu olhei para Gabriel, e ele me olhou de volta. E, sem uma palavra, eu soube. Eu estava em apuros. Porque isso não era uma doutrinação. Era muito, muito pior. Era uma conexão.
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