CAPÍTULO 6: PONTES E ABISMOS

1014 Words
Sai de casa com um objetivo: questionar a fé dele. Mas agora percebo que a situação é diferente. A tal “lavagem cerebral” não aconteceu comigo — foi apenas uma boa conversa. “Mas, Gabriel, eu vejo esses pastores na internet falando diferente, gritando e, muitas vezes, dizendo coisas absurdas até mesmo para a fé… gastando dinheiro… o que é isso?” Ele olhou nos meus olhos — um olhar firme, tão direto que me deixou sem chão. Para ele, aquilo também era um absurdo, algo que fugia totalmente do que o cristianismo é e de como eles viviam. Gabriel respirou fundo antes de responder. "Isso não é o evangelho, Lara. Não é o Cristo da Bíblia. Esses homens usam o nome de Deus para se promover, para enriquecer, para manipular. E, infelizmente, muita gente pensa que isso é fé... mas não é." “Então por que tanta gente segue?” querendo, sentindo um peso no peito. “Por que você acredita neles?” “Porque estão mortos,” ele disse, com a voz baixa. "E quando alguém ferido encontra um discurso fácil, mágico, cheio de promessas rápidas... é tentador. Parece solução. Parece milagre." “Mas não é,” completei, quase num sussurro. “Não,” ele confirmou. "Não é. Deus não é um produto. Nem um espetáculo." Ele inclinou um pouco a cabeça, como se escolhesse cuidadosamente as próximas palavras. "Eu sei que você tem medo de ser enganada, Lara. Sei que muita coisa que te viu levou esse mundo. E... eu entendo. Sério. Eu também já questionei tudo." O coração bateu mais forte no meu peito. Gabriel questionando? Aquilo eu não esperava. “Você?” queria. “Duvidou de quê?” Ele desviou o olhar por um instante, como se abrisse uma porta antiga por dentro. Quando voltou a me encarar, seus olhos tinham aquela mistura rara de sinceridade e vulnerabilidade. “De tudo,” ele disse. “Até de Deus.” E o silêncio depois disso não foi desconfortável… foi profundo, quase sagrado. Como se algo, sem que eu percebesse, estivesse mudando entre nós. “De tudo,” ele disse. “Até de Deus.” Sinto a respiração presa no peito. Aquilo não era uma confissão pequena. Não para alguém como Gabriel. “O que você fez para continuar?” querendo, tentando que minha voz não traísse a curiosidade — ou o medo — que me atravessava. Ele passou a mão pelos cabelos, como se revivesse algo que ainda queimava por dentro. “Eu percebi que a dúvida não era o fim da fé”, respondeu devagar. "Era o começo de uma fé mais verdadeira. Mais honesta. Sem muletas." “Mas… como você sabe que não está enganado agora?” quis sem filtrar, deixando escapar a pergunta que por muito tempo ficou presa em mim. Gabriel transmitiu com uma delicadeza que desmontou minhas defesas. "Porque Deus não pediu que eu acreditasse sem pensar, Lara. Ele pediu que eu O buscasse. A verdade não teme perguntas." Essas palavras ficaram ecoando dentro de mim, pesadas e leves ao mesmo tempo. “E você?” ele disse, inclinando o corpo apenas alguns centímetros na minha direção. “Você está procurando o quê?” A pergunta caiu entre nós como uma pedra num lago silencioso. Eu abri a boca, mas nada saiu. O que eu estava procurando? Respostas? Segurança? Ou... ele? Gabriel viu minha hesitação — claro que viu — e seus olhos suavizaram de um jeito que fez meu estômago virar. “Lara,” ele disse meu nome como se fosse uma oração. “Você não precisa ter todas as respostas agora.” “Mas eu preciso ter algumas,” respondi, finalmente encontrando minha voz. “Preciso entender por que… porque isso tudo está confundindo tanto comigo.” “Isso?” ele repetiu. “Ou eu?” Meu coração errou o compasso. Por um segundo, só um segundo, eu poderia jurar que o mundo ao redor é distante. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa — qualquer coisa mesmo — o som de passos no corredor que levava à sala ecoou forte, cortando o momento ao meio. E, no mesmo instante, Gabriel ficou tenso. Como se disse exatamente quem estava se aproximando. Ele conheceu o tom dos passos Os braços se aproximaram, firmes, decididos — e Gabriel, que até então pareciam completamente abertos, se fecharam num instante. Seus ombros resistiram, a expressão mudou, como se um alarme silencioso tivesse disparado dentro dele. “Quem é?” perguntou, num sussurro. Ele não respondeu. Apenas se pediu, rápido demais, como se precisasse se colocar entre mim e o que estava vindo. A porta do salão da igreja rangeu antes mesmo que alguém a tocasse — estava entreaberta. Eu nem tinha percebido isso antes. “Gabriel?” Minha voz saiu trêmula. Ele fez um gesto com a mão para que eu ficasse onde estava, e por algum motivo que eu não entendia, obedeci. Os passos pararam do outro lado. Silêncio. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio deixado, como se algo estivesse prestes a acontecer — ou prestes a ser revelado. A respiração de Gabriel ficou pesada. Ele se moveu da porta como quem caminha em direção a um perigo conhecido. “O que ela está fazendo aqui?” ele disse, sem abrir totalmente a porta. Era uma voz masculina, baixa, firme, quase fria: “Ela é minha amiga.” Meu coração gelou. “Quem é, Gabriel?” queria, sem conseguir ficar sentado. A porta se abriu só mais um pouco — o suficiente para eu ver uma sombra alta atrás dela. Gabriel deu um passo para trás, como se estivesse dividindo o mesmo medo que eu acabasse de sentir. "Lara," ele disse, sem olhar para mim, "não diga nada. E por favor... confie em mim agora." Eu vou perguntar por quê eIa exigia respostas. Mas então a sombra avançou um passo para dentro da sala. E eu vi o suficiente para entender que tudo aquilo — a fé dele, as dúvidas, o perigo — era muito maior do que eu imaginava.
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