Capítulo 38: Os monstros sob o púlpito

1133 Words
Ela tirou mais documentos da bolsa — fotocópias de registros antigos, recortes de jornal, documentos que pareciam extratos financeiros. — Durante o período de atividade das “Tecelãs”, surgiram diversas situações suspeitas. Houve mensagens puramente alegóricas, falsas revelações e profecias que jamais se concretizaram. Além disso, eram pregadas mensagens contrárias à Bíblia Sagrada, sob a alegação de que seriam revelações diretas do Espírito Santo vindas do púlpito — explicou Júlia, a voz em tom controlado demais para a gravidade do que dizia. Lara sentiu o sangue esfriar nas veias. — O que você está sugerindo? — Estou sugerindo que talvez Samuel não estivesse apenas protegendo a doutrina — Júlia disse, quase num sussurro. — Talvez ele estivesse protegendo algo muito mais sombrio. E talvez sua avó tenha descoberto o que era. As palavras pairaram no ar entre elas, pesadas e perigosas. Lara olhou para o diário, que agora parecia pulsar com segredos mortais. — Por que me contar isso? — ela perguntou, a voz trêmula. — Porque você é a neta de Elisa. Porque está casada com o filho de Samuel. E porque... — Júlia hesitou, escolhendo as palavras. — Porque eu acho que a história está se repetindo. E desta vez, precisamos acertar. Enquanto Lara tentava processar tudo, o telefone vibrou sobre a mesa. A tela exibiu o nome de Gabriel. Preciso que você venha ao hospital. Algo aconteceu. Algo... estranho. Ela mostrou a mensagem para Júlia, que imediatamente ficou séria. — Vá — Júlia disse. — Mas leve o diário. E, Lara? Tenha cuidado. Alguns segredos são guardados com mais ferocidade que outros. Lara saiu do café com o diário escondido na bolsa, sentindo seu peso como se fosse feito de chumbo. As palavras de Júlia ecoavam em sua mente enquanto ela caminhava rapidamente em direção ao hospital. “Algumas fazem você chorar.” Ela ainda não sabia se choraria pelo passado, pelo presente — ou pelos dois. No hospital, a atmosfera era tensa. Gabriel a esperava no corredor, o rosto pálido. — O que aconteceu? — ela perguntou. — Minha mãe... ela teve um episódio. Acordou agitada, dizendo coisas... coisas estranhas. — Que tipo de coisas? Ele a levou para uma área mais isolada. — Ela estava falando sobre sua avó. Sobre “as mulheres que teciam”. Disse que elas “sabiam demais”. E então... então ela disse o nome do seu avô. Lara sentiu um calafrio subir pela coluna. — Meu avô? O que ela disse sobre ele? Gabriel olhou em volta para garantir que estavam sozinhos. — Ela disse: “Ele não era o que parecia. Elisa descobriu. E por isso ela teve que ser silenciada.” As palavras ecoaram o que Júlia acabara de revelar, como se duas vozes de tempos diferentes sussurrassem a mesma acusação. Lara sentiu as peças começarem a se encaixar de uma maneira que não trazia alívio, apenas medo. — Onde está Samuel? — ela perguntou. — Foi para casa buscar algumas coisas para a mãe. Mas, Lara... há mais. — Ele baixou a voz. — Enquanto a mãe estava falando, ela me pediu para proteger você. Disse que “eles” ainda estão por aí. E que você está em perigo porque é como sua avó. Lara apertou a alça da bolsa. — Júlia me deu isto. — Ela abriu um pouco a bolsa, deixando Gabriel ver o couro gasto. — É o diário da minha avó. Ela estava envolvida em algo maior do que pensávamos. Antes que Gabriel pudesse responder, passos apressados ecoaram no corredor. Samuel apareceu, o rosto marcado pela preocupação. — Gabriel, Lara... a mãe está melhor. Os médicos dizem que foi uma reação à medicação. Ela está dormindo agora. — Ele os observou, percebendo a tensão. — O que há? O que aconteceu? Gabriel e Lara trocaram olhares, um diálogo silencioso passando entre eles. Quanto contar? Quanto confiar? Foi então que o telefone de Samuel tocou. Ele atendeu, e Lara viu o rosto dele se transformar enquanto ouvia. Quando desligou, estava pálido. — Foi o irmão Marcos — ele disse, a voz oca. — Alguém invadiu os arquivos da igreja. Levaram documentos antigos. Especificamente... documentos da época do meu pai. Lara sentiu o diário na bolsa como se estivesse queimando. Alguém mais estava procurando as mesmas respostas? Ou alguém estava tentando apagar, de vez, qualquer rastro delas? — Pai — Gabriel disse cuidadosamente. — O que realmente aconteceu naquela época? Com a avó de Lara? Com as... Tecelãs? Samuel os encarou, e Lara viu medo em seus olhos — um medo profundo, quase primitivo. — Essa não é uma conversa para ter aqui — ele sussurrou. — Mas vocês precisam entender... algumas coisas são enterradas por um motivo. E desenterrá-las pode acordar monstros que deveriam permanecer dormindo. Ele se virou e voltou para o quarto de Mara, deixando-os sozinhos no corredor silencioso, como se tivesse acabado de fechar uma porta que eles já tinham decidido arrombar. Gabriel olhou para Lara. — O que temos entre mãos? Ela abriu a bolsa o suficiente para ele ver o diário. — Acho que temos uma história muito maior do que imaginávamos. E acho que sua mãe sabe mais do que está dizendo. Enquanto caminhavam de volta para o quarto de Mara, Lara sentiu o peso das gerações em seus ombros. Sua avó, Mara, Samuel, Eduardo — todos peças em um quebra-cabeça que se estendia por décadas. E agora ela e Gabriel estavam no centro dele. No quarto, Mara dormia tranquilamente, o rosto sereno traindo a turbulência que suas palavras haviam causado. Samuel estava sentado ao lado dela, segurando sua mão, o rosto uma máscara de dor e preocupação. Lara observou os dois e se perguntou quantos segredos aquele casamento carregava. Quantas verdades não ditas haviam se sentado à mesa de jantar com eles todas as noites. Quantos fantasmas dançavam nos cantos escuros daquela casa. Ela tocou a bolsa onde o diário estava guardado, sentindo sua presença quase viva. Sua avó falara com ela através das cartas. Agora, talvez, falasse através daquelas páginas. Mais tarde, quando ela e Gabriel deixaram o hospital, algo os aguardava no carro — um envelope sem remetente, enfiado sob o limpador de para-brisa. Dentro, uma única mensagem, escrita à mão em letras de imprensa: “Pare de cavar. Para seu próprio bem. E para o bem daqueles que você ama.” Anexada ao bilhete, havia uma fotografia — uma imagem desfocada de Lara saindo do café com Júlia, horas antes. Não era mais apenas o passado que parecia observá-los de longe. Alguém, ali e agora, estava perto o suficiente para registrar cada passo que eles davam em direção à verdade. E, enquanto o vento balançava o papel nas mãos de Lara, ela percebeu que talvez o próximo movimento não fosse dela.
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