Capítulo 40: O porão dos que calam

1142 Words
A cozinha ficou em silêncio, exceto pelo som da chuva que agora caía com força contra as janelas. Lara olhou para Gabriel e viu seu próprio horror refletido no rosto dele. — Por que nos contar isso agora? — Gabriel perguntou, a voz quebrada. — Porque ela está acordando — uma voz fraca disse da porta. Os três se viraram. Mara estava parada ali, apoiada na moldura da porta, o rosto pálido, mas os olhos claros e focados. — Mãe! — Gabriel levantou-se rapidamente. — Você deveria estar descansando. Mara o ignorou, os olhos fixos em Samuel. — Ela está acordando, Samuel. E desta vez, não podemos detê-la. Samuel pareceu encolher sob o olhar dela. — Mara, eu... — Chega de mentiras! — ela interrompeu, a voz ganhando força. — Chega de segredos. Nós nos calamos enquanto a verdade das Tecelãs e a Bíblia Sagrada eram desprezadas, quando deveria ter sido tratada com reverência, temor e amor. Esse nosso silêncio causou a morte da minha melhor amiga. Ela caminhou até a mesa e colocou uma pequena chave diante de Samuel. — É hora de mostrar a eles, Samuel. Tudo. Samuel olhou para a chave como se fosse uma cobra prestes a atacar. — Eu não posso. Mara olhou para Lara, e nos olhos da sogra, Lara não viu o medo que esperava, mas uma determinação feroz. Samuel pegou a chave, os dedos tremendo. — O porão — ele sussurrou. — Há... há uma sala. Nos fundos. Seu avô a construiu. Lara sentiu um calafrio. O diário em sua bolsa parecia pesar uma tonelada. — O que há nessa sala? Samuel levantou-se, movimentos lentos e pesados, como os de um homem caminhando para a própria execução. — A verdade — ele disse. — Toda a verdade. Enquanto seguiam Samuel pelo corredor escuro que levava ao porão, Lara pegou a mão de Gabriel. Seus dedos se entrelaçaram, unidos não apenas pelo amor, mas agora por um propósito sombrio e perigoso. O porão era o que se esperaria — escuro, empoeirado, cheirando a mofo e tempo. Mas Samuel não parou nas prateleiras de conservas ou nas caixas de decorações de Natal. Ele continuou até o fundo, onde uma estante pesada encostava na parede de concreto. Com um esforço que parecia exigir toda sua força, ele empurrou a estante para o lado. Revelou-se uma porta de metal, quase invisível na parede escura. A fechadura era antiga, enferrujada. Samuel inseriu a chave. O som do mecanismo girando ecoou no porão silencioso como um tiro. — O que vamos encontrar lá, pai? — Gabriel perguntou, a voz tensa. Samuel olhou para ele, e nos olhos do pai Gabriel viu não o pastor, não o marido, não o pai — apenas um homem aterrorizado finalmente enfrentando seus demônios. — O pesadelo que escolhi esquecer — Samuel sussurrou. — E o preço que paguei para mantê-lo enterrado. A porta rangeu ao abrir, revelando uma escuridão tão profunda que parecia engolir a luz fraca do porão. O ar que saía da sala era frio e carregado com o cheiro de papel velho e algo mais — algo metálico e medicinal que fez Lara estremecer. Samuel acendeu uma lanterna, a mão tremendo tanto que o feixe de luz dançou nas paredes de concreto. — Eu vim aqui uma vez, depois que seu avô morreu — ele disse, a voz ecoando no espaço pequeno. — Jurei nunca mais voltar. O feixe de luz percorreu a sala, revelando fileiras de arquivos e prateleiras que pareciam saídas de um filme de terror. Mas foi o que estava na parede do fundo que fez Lara prender a respiração. Fotografias. Dezenas delas, dispostas como em um mural de investigação policial. Mulheres — as Tecelãs — com linhas conectando seus rostos a documentos, a locais e a textos que provavam que a liderança daquela época cometia diversas heresias. Tinham abandonado a Deus há muito tempo; era como um pântano escuro, sombrio e perigoso, com predadores prontos para destruir. E, no centro, uma fotografia de sua avó, com uma grande cruz vermelha pintada sobre o rosto. — Meu Deus — Gabriel sussurrou, apertando a mão de Lara quase dolorosamente. Samuel iluminou uma mesa onde pastas estavam empilhadas. — Ele mantinha registros de tudo. Todos os “sujeitos”. Todos os... procedimentos. Lara aproximou-se da mesa, o coração batendo tão forte que temia que os outros ouvissem. Abriu a pasta no topo da pilha. E então viu — no canto de uma fotografia — seu avô. Sorrindo. Como se estivesse em um piquenique, e não em um... fosse lá o que aquilo fosse. — Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que ele faria isso? Samuel iluminou outra parte da sala — uma pequena escrivaninha com diários alinhados ordenadamente. — Ele acreditava que estava fazendo o trabalho de Deus. “Purificando” as imperfeições humanas. Criando... bem, criando uma raça mais pura de crentes. Gabriel balançou a cabeça, o rosto marcado por nojo. — Isso é... monstruoso. — É — Samuel concordou, a voz oca. — E eu sabia. E fiquei em silêncio. Mara, que permanecera na porta, finalmente falou. — Não foi apenas seu avô, Lara. Havia outros. Homens importantes. Homens de poder. E eles ainda estão por aí. Lara lembrou-se do bilhete no carro. Da fotografia. Samuel assentiu lentamente. — Eles nunca foram embora. Apenas... se modernizaram. Se esconderam à vista de todos. Foi então que o som de passos no andar de cima os fez congelar. Vozes. Várias delas. Samuel apagou a lanterna, mergulhando-os em escuridão total. No escuro, Lara sentiu Gabriel puxá-la para mais fundo na sala, atrás de um grande arquivo metálico. Podia sentir o coração dele batendo rápido contra suas costas, a respiração quente em seu pescoço. Os passos desceram as escadas do porão. Luzes fortes varreram o espaço. — Samuel? — uma voz familiar chamou. Era o irmão Celso. — Está aqui? Sabemos que você está aqui. Samuel não respondeu. Lara podia ouvir a respiração ofegante dele em algum lugar à direita. A luz varreu a estante movida, focando na porta aberta. — Ah, Samuel — o irmão Celso disse, a voz carregada de decepção falsa. — Você realmente não devia ter feito isso. Outra voz se juntou — uma voz que fez o sangue de Lara gelar. Era o Dr. Almeida, o médico que tratara Mara. — Onde estão o Gabriel e a Lara, Samuel? — perguntou, a voz suave e perigosamente calma. — Eles não deveriam estar envolvidos nisso. Lara sentiu o mundo encolher em torno deles, como se a própria sala respirasse junto com aquele perigo. E, escondida na escuridão, com o diário da avó contra o peito, ela percebeu que a verdade que tinham acabado de despertar não estava apenas registrada em papéis antigos — ela vinha descendo as escadas, de carne, osso e poder.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD