A cozinha ficou em silêncio, exceto pelo som da chuva que agora caía com força contra as janelas. Lara olhou para Gabriel e viu seu próprio horror refletido no rosto dele.
— Por que nos contar isso agora? — Gabriel perguntou, a voz quebrada.
— Porque ela está acordando — uma voz fraca disse da porta.
Os três se viraram. Mara estava parada ali, apoiada na moldura da porta, o rosto pálido, mas os olhos claros e focados.
— Mãe! — Gabriel levantou-se rapidamente. — Você deveria estar descansando.
Mara o ignorou, os olhos fixos em Samuel.
— Ela está acordando, Samuel. E desta vez, não podemos detê-la.
Samuel pareceu encolher sob o olhar dela.
— Mara, eu...
— Chega de mentiras! — ela interrompeu, a voz ganhando força. — Chega de segredos. Nós nos calamos enquanto a verdade das Tecelãs e a Bíblia Sagrada eram desprezadas, quando deveria ter sido tratada com reverência, temor e amor. Esse nosso silêncio causou a morte da minha melhor amiga.
Ela caminhou até a mesa e colocou uma pequena chave diante de Samuel.
— É hora de mostrar a eles, Samuel. Tudo.
Samuel olhou para a chave como se fosse uma cobra prestes a atacar.
— Eu não posso.
Mara olhou para Lara, e nos olhos da sogra, Lara não viu o medo que esperava, mas uma determinação feroz.
Samuel pegou a chave, os dedos tremendo.
— O porão — ele sussurrou. — Há... há uma sala. Nos fundos. Seu avô a construiu.
Lara sentiu um calafrio. O diário em sua bolsa parecia pesar uma tonelada.
— O que há nessa sala?
Samuel levantou-se, movimentos lentos e pesados, como os de um homem caminhando para a própria execução.
— A verdade — ele disse. — Toda a verdade.
Enquanto seguiam Samuel pelo corredor escuro que levava ao porão, Lara pegou a mão de Gabriel. Seus dedos se entrelaçaram, unidos não apenas pelo amor, mas agora por um propósito sombrio e perigoso.
O porão era o que se esperaria — escuro, empoeirado, cheirando a mofo e tempo. Mas Samuel não parou nas prateleiras de conservas ou nas caixas de decorações de Natal. Ele continuou até o fundo, onde uma estante pesada encostava na parede de concreto.
Com um esforço que parecia exigir toda sua força, ele empurrou a estante para o lado. Revelou-se uma porta de metal, quase invisível na parede escura. A fechadura era antiga, enferrujada.
Samuel inseriu a chave. O som do mecanismo girando ecoou no porão silencioso como um tiro.
— O que vamos encontrar lá, pai? — Gabriel perguntou, a voz tensa.
Samuel olhou para ele, e nos olhos do pai Gabriel viu não o pastor, não o marido, não o pai — apenas um homem aterrorizado finalmente enfrentando seus demônios.
— O pesadelo que escolhi esquecer — Samuel sussurrou. — E o preço que paguei para mantê-lo enterrado.
A porta rangeu ao abrir, revelando uma escuridão tão profunda que parecia engolir a luz fraca do porão. O ar que saía da sala era frio e carregado com o cheiro de papel velho e algo mais — algo metálico e medicinal que fez Lara estremecer.
Samuel acendeu uma lanterna, a mão tremendo tanto que o feixe de luz dançou nas paredes de concreto.
— Eu vim aqui uma vez, depois que seu avô morreu — ele disse, a voz ecoando no espaço pequeno. — Jurei nunca mais voltar.
O feixe de luz percorreu a sala, revelando fileiras de arquivos e prateleiras que pareciam saídas de um filme de terror. Mas foi o que estava na parede do fundo que fez Lara prender a respiração.
Fotografias. Dezenas delas, dispostas como em um mural de investigação policial. Mulheres — as Tecelãs — com linhas conectando seus rostos a documentos, a locais e a textos que provavam que a liderança daquela época cometia diversas heresias. Tinham abandonado a Deus há muito tempo; era como um pântano escuro, sombrio e perigoso, com predadores prontos para destruir.
E, no centro, uma fotografia de sua avó, com uma grande cruz vermelha pintada sobre o rosto.
— Meu Deus — Gabriel sussurrou, apertando a mão de Lara quase dolorosamente.
Samuel iluminou uma mesa onde pastas estavam empilhadas.
— Ele mantinha registros de tudo. Todos os “sujeitos”. Todos os... procedimentos.
Lara aproximou-se da mesa, o coração batendo tão forte que temia que os outros ouvissem. Abriu a pasta no topo da pilha.
E então viu — no canto de uma fotografia — seu avô. Sorrindo. Como se estivesse em um piquenique, e não em um... fosse lá o que aquilo fosse.
— Por quê? — ela perguntou, a voz trêmula. — Por que ele faria isso?
Samuel iluminou outra parte da sala — uma pequena escrivaninha com diários alinhados ordenadamente.
— Ele acreditava que estava fazendo o trabalho de Deus. “Purificando” as imperfeições humanas. Criando... bem, criando uma raça mais pura de crentes.
Gabriel balançou a cabeça, o rosto marcado por nojo.
— Isso é... monstruoso.
— É — Samuel concordou, a voz oca. — E eu sabia. E fiquei em silêncio.
Mara, que permanecera na porta, finalmente falou.
— Não foi apenas seu avô, Lara. Havia outros. Homens importantes. Homens de poder. E eles ainda estão por aí.
Lara lembrou-se do bilhete no carro. Da fotografia.
Samuel assentiu lentamente.
— Eles nunca foram embora. Apenas... se modernizaram. Se esconderam à vista de todos.
Foi então que o som de passos no andar de cima os fez congelar. Vozes. Várias delas.
Samuel apagou a lanterna, mergulhando-os em escuridão total.
No escuro, Lara sentiu Gabriel puxá-la para mais fundo na sala, atrás de um grande arquivo metálico. Podia sentir o coração dele batendo rápido contra suas costas, a respiração quente em seu pescoço.
Os passos desceram as escadas do porão. Luzes fortes varreram o espaço.
— Samuel? — uma voz familiar chamou. Era o irmão Celso. — Está aqui? Sabemos que você está aqui.
Samuel não respondeu. Lara podia ouvir a respiração ofegante dele em algum lugar à direita.
A luz varreu a estante movida, focando na porta aberta.
— Ah, Samuel — o irmão Celso disse, a voz carregada de decepção falsa. — Você realmente não devia ter feito isso.
Outra voz se juntou — uma voz que fez o sangue de Lara gelar. Era o Dr. Almeida, o médico que tratara Mara.
— Onde estão o Gabriel e a Lara, Samuel? — perguntou, a voz suave e perigosamente calma. — Eles não deveriam estar envolvidos nisso.
Lara sentiu o mundo encolher em torno deles, como se a própria sala respirasse junto com aquele perigo.
E, escondida na escuridão, com o diário da avó contra o peito, ela percebeu que a verdade que tinham acabado de despertar não estava apenas registrada em papéis antigos — ela vinha descendo as escadas, de carne, osso e poder.