CAPÍTULO 9: A LINHA DE FRENTE

886 Words
Após o momento na igreja, eles vieram até minha casa. O pastor e sua esposa. Não era mais uma guerra secreta na igreja. Era uma aproximação ao meu território. E meu pai, o ateu, estava pronto para a batalha. A paz do domingo na nossa casa era um ritual secular. Meu pai lia no sofá, pilhas de livros filosóficos ao seu redor como fortalezas. Minha mãe moldava uma pequena escultura de argila na mesa da sala, suas mãos cobertas de manchas marrons. O cheiro de café e incenso preenchia o ar. Eu tentava ler, mas minha mente estava a milhas de distância, revirando cada palavra trocada com Gabriel na igreja. A confissão que saíra de mim como um suspiro involuntário. "Ninguém nunca me ouviu." A campainha tocou. "Espera por alguém, querida?", minha mãe perguntou, limpando as mãos em um pano. "Não", eu disse, meu coração dando um salto irracional. Gabriel. Meu pai foi atender. Sua voz cortou o ar tranquilo da sala, carregada de uma surpresa gelada. "Samuel. Mara. Que... inesperado." Coração na garganta, eu me virei no sofá. Lá estavam eles. Pastor Samuel e sua esposa, Mara. Vestidos impecavelmente, como se tivessem saído diretamente do culto. Eles pareciam deslocados em nossa sala cheia de livros "profanos" e arte abstrata. "Pedro. Lúcia", o pastor cumprimentou, sua voz um modelo de polidez. "Podemos conversar?" Minha mãe, sempre a anfitriã, se levantou. "Claro, entrem. Ofereço um café?" "Não se incomode", Mara respondeu com um sorriso pequeno e tenso. Seus olhos percorreram a sala, pousando por um segundo na escultura seminua que minha mãe fazia. O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para afundar um navio. Meu pai fechou seu livro, colocando-o ao lado com uma deliberação que indicava preparo para o combate. "Então", meu pai começou cruzando os braços. "O que traz o pastor e a irmã à toca dos ateus liberais?" Pastor Samuel não perdeu o equilíbrio. "Estamos aqui por causa do nosso filho, Gabriel." Todas as células do meu corpo congelaram. "Gabriel tem sido uma bênção em nossa congregação. Um jovem de futuro, com um chamado para o ministério”. Samuel continuou, suas mãos firmes no colo. "Nos últimos tempos, notamos uma... agitação nele. Uma inquietação. E percebemos que isso coincide com o interesse que ele tem demonstrado pela Lara." Minha mãe falou, sua voz mais suave que a do meu pai, mas não menos firme. "E qual é a natureza da sua preocupação, pastor?" Foi Mara quem respondeu, sua voz era suave, mas seus olhos não cediam. "Acreditamos que influências contrárias aos valores que cultivamos em nosso filho podem causar uma confusão perigosa. A fé é um alicerce. Quando esse alicerce é abalado, a estrutura inteira pode ruir." Meu pai soltou uma risada curta e seca. "Deixe-me ver se entendi. Vocês vieram aqui para a nossa casa, para dizer que nossa filha é uma 'má influência' para o jovem Gabriel?" "Não usamos essa expressão", o pastor corrigiu, mas sua postura confirmava tudo. "Estamos aqui por prevenção. Como pais, creio que podemos concordar que queremos o melhor para nossos filhos." "O melhor para a nossa filha", meu pai enfatizou, "é que ela seja livre para pensar, questionar e se relacionar com quem ela quiser, baseada no respeito e na verdade, não em dogmas convenientes." O ar faiscava. Eu estava paralisada, assistindo a uma guerra de mundos se desenrolar na nossa sala de estar. "Respeito é justamente o que nos traz aqui", o pastor insistiu, seu olhar finalmente pousou sobre mim. Era um olhar pesado, analítico. "Lara, você parece uma jovem inteligente. Você consegue entender que algumas amizades podem trazer... consequências não intencionais? Para ambos os lados?" Antes que eu pudesse responder, uma voz surgiu da porta da sala, carregada de uma fúria contida. "Pai. Mãe. O que vocês estão fazendo aqui?" Gabriel estava na entrada, pálido e respirando com dificuldade, como se tivesse corrido. Seus olhos, cheios de horror, foram do rosto dos pais para o meu. "Gabriel", sua mãe disse, surpresa. "Como você...?" "Ana me ligou. Ela os viu entrando aqui." Ele deu um passo para dentro da sala, posicionando-se quase que fisicamente entre os pais e eu. "Isto é inacreditável." "Estamos resolvendo isso como uma família, filho", o pastor disse, sua voz endurecendo. "Não, vocês não estão. Vocês estão invadindo a privacidade da Lara e intimidando a família dela." A voz de Gabriel tremia, mas não de medo. De raiva. "Os meus questionamentos são meus. A Lara não me corrompeu. Ela me fez pensar. E sinceramente quando pensar é um crime na nossa fé?" A sala ficou em silêncio. A pergunta dele pairou no ar, desafiando todos. Foi quando meu pai, calmamente, se levantou. Ele olhou para o Pastor Samuel, e depois para Gabriel, com um novo respeito em seus olhos. "Parece que seu filho, pastor, tem mais sabedoria do que você imagina." Ele se virou para mim. "Lara, a decisão de quem você vê ou deixa de ver é só sua. Sempre foi." Todos os olhos estavam em mim. O peso do mundo sobre os meus ombros. Eu olhei para Gabriel, seu rosto uma mistura de vergonha alheia e determinação. E eu soube. A batalha não era mais entre a fé e a razão. Era entre o medo e a coragem. E eu já sabia de que lado eu estava
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