Ele arrumava a cama. Ele lavava a sua xícara. Pequenos hábitos que preenchiam minha casa e meu coração. Mas a paz era uma ilusão. A sombra da família dele pairava sobre nós, e eu sabia que cedo ou tarde ela cairia.
Ter Gabriel em casa era como ganhar um quebra-cabeças de presente, sem saber a imagem final. Cada dia revelava uma nova peça.
Ele era meticuloso. Acordava cedo e arrumava a cama do quarto de hóspedes com cantos perfeitos, um hábito que meu pai observava com um misto de desdém e respeito. Ele lavava sua própria xícara após o café e, num gesto que fez meu coração dar um pulo, começou a lavar a louça do jantar para a minha mãe.
"Um jovem educado", ela comentou comigo, num sussurro aprovador. "Diferente do que eu imaginaria."
Meu pai ainda mantinha a distância, mas o gelo estava a rachar. Ele não conseguia resistir a um bom debate, e Gabriel, mesmo ferido, ainda sustentava suas convicções com uma calma que irritava e impressionava meu pai ao mesmo tempo.
"Você não acha que a moralidade, sem uma base divina, é simplesmente um contrato social mutável?", meu pai perguntou durante o jantar, armando sua armadilha filosófica habitual.
Gabriel mastigou seu alimento calmamente antes de responder. "A moralidade, sem Deus como sua fonte imutável, torna-se instável e relativa; contudo, até os ateus trazem vestígios da Lei Eterna inscrita na consciência - não inventada pelo homem, mas descoberta na Revelação divina, cuja plenitude e restauração só se encontram na graça de Cristo. Até um ateu cuida de seu filho doente, isso é o que entendemos como graça comum, ou seja, mesmo um ateu é abençoado por Deus para fazer coisas boas, porque no fundo todos somos maus perante Deus, Pedro."
Foi a primeira vez que vi meu pai sem uma réplica pronta. Ele apenas grunhiu e mudou de assunto, mas seu olhar em Gabriel era mais pensativo.
Esses eram os momentos dourados. Os momentos em que eu via o futuro. Estudávamos juntos na sala, suas anotações de teologia ao lado dos meus livros de ciências. Nossos mundos, antes opostos, agora coexistiam em uma trégua precária.
Mas a trégua sempre acabava.
À noite, os pesadelos vinham. Eu ouvia gemidos abafados do quarto dele. Às vezes, ele aparecia na cozinha de madrugada, com olheiras profundas, buscando água.
"Sonhei que meu pai estava no púlpito, apontando para mim e chamando-me de filho pródigo que se alimentava com porcos", ele confessou uma manhã, a voz rouca. "E a congregação toda repetia."
Eu segurava sua mão, sem palavras. Nada na minha educação ateia me preparou para curar uma ferida espiritual daquelas.
A tensão chegou ao ápice no quinto dia. O celular de Gabriel, que ele mantinha no silencioso, vibrou incessantemente na mesa da sala. Era a Ana.
Ele atendeu, e eu pude ouvir apenas o lado dele da conversa.
"Ana, eu não posso... Não, ele não vai querer me ouvir."
Um silêncio.
"O QUÊ? Quando?"
Seu rosto perdeu toda a cor. Ele se levantou tão rápido que a cadeira arranhou o chão.
"Ela está bem? Onde ela está?"
Mais silêncio. Sua mão que segurava o telefone tremia.
"Claro. Claro que eu vou. Agora. Me manda o endereço."
Ele desligou e ficou parado, olhando para o nada, com uma expressão de puro terror.
"Gabriel?", eu chamei, me aproximando. "O que aconteceu?"