A luz da manhã entrou no quarto como um intruso gentil, acariciando o rosto de Lara até que ela abriu os olhos. Por um momento, tudo era paz — o calor de Gabriel ao seu lado, o cheiro familiar do café que ele deixara programado, o som distante dos pássaros na rua de trás. Então, a memória do dia anterior caiu sobre ela como um manto úmido e pesado.
Ela se sentou na cama, seu corpo ainda pesado do sono agitado. Gabriel dormia profundamente ao seu lado, seu rosto relaxado na inocência do sono, as linhas de preocupação suavizadas temporariamente. Lara resistiu ao impulso de acordá-lo. Ele precisava do descanso.
Enquanto se preparava silenciosamente, seus olhos pousaram no telefone na mesa de cabeceira. A mensagem de Júlia. Ela a releu, cada palavra carregada de um novo mistério. “O que realmente aconteceu naquela igreja.” A frase ecoava em sua mente, sugerindo camadas de verdade que nem mesmo Eduardo conhecia.
No banheiro, enquanto a água quente do chuveiro a despertava completamente, Lara examinou seu rosto no espelho. Algo mudara nela ontem. Não era apenas a reconciliação com Samuel, ou o susto com a saúde de Mara. Era algo mais fundamental — uma aceitação de que sua vida seria sempre entrelaçada com segredos e histórias não contadas. E, em vez de temer isso, ela sentia uma curiosidade quase feroz.
Quando saiu do banho, Gabriel estava acordado, sentado na cama com o telefone na mão. Ele olhava para a mensagem de Júlia, sua expressão indecifrável.
— Bom dia — ela disse suavemente.
Ele ergueu os olhos, e neles ela viu a mesma complexidade de emoções que sentia.
— Júlia. A filha de Eduardo.
— Parece que a história da sua avó ainda tem páginas não lidas.
Ele assentiu lentamente.
— O que você quer fazer?
— Precisamos encontrá-la. Mas primeiro... como está sua mãe?
Gabriel verificou as mensagens.
— O pai mandou uma atualização há uma hora. Ela passou bem a noite, está descansando. Os médicos dizem que foi realmente o estresse. Vão mantê-la mais um dia para observação.
Lara se sentou ao lado dele.
— E você? Como está?
Ele riu, um som cansado.
— Sinto-me como se tivesse sido atropelado por um caminhão. E então o caminhão deu ré e passou por cima de mim de novo. — Ele pegou a mão dela. — Mas estou bem. Melhor do que esperava, na verdade. É estranho... saber a verdade, não importa o quão dolorosa, é melhor do que viver na mentira.
Ela concordou com a cabeça, sentindo a verdade de suas palavras em seus próprios ossos.
Enquanto tomavam café da manhã, discutiram o que fazer sobre Júlia. Decidiram que Gabriel iria ao hospital ficar com os pais, enquanto Lara encontraria Júlia. Haveria tempo para apresentações formais depois — primeiro, precisavam saber com o que estavam lidando.
Júlia respondeu rapidamente à mensagem de Lara, sugerindo um café perto do hospital. Parecia apropriado.
O café era pequeno e aconchegante, com paredes de tijolos à vista e o aroma rico de grãos torrados recentemente. Lara chegou primeiro e escolheu uma mesa no fundo, de costas para a parede — um hábito de quem cresceu observando, não querendo ser pega de surpresa.
Júlia entrou exatamente no horário combinado. Lara a reconheceu instantaneamente — tinha os mesmos olhos sábios e tristes de Eduardo, mas neles havia uma intensidade que faltava ao pai. Era mais baixa que Lara, com cabelos curtos e prateados que pareciam ter embranquecido prematuramente, e se movia com uma determinação silenciosa que era ao mesmo tempo graciosa e implacável.
— Lara — ela disse, estendendo a mão. Seu aperto era firme, seus olhos examinando Lara com uma curiosidade que espelhava a dela. — Obrigada por vir.
— Obrigada por entrar em contato — Lara respondeu. — Seu pai... ele foi muito corajoso ontem.
Júlia fez uma careta leve.
— Meu pai é um romântico. Um homem bom, mas um romântico. Ele sempre acreditou que a verdade, uma vez revelada, traria cura. — Ela pausou enquanto o garçom trazia seus cafés. — Infelizmente, a vida me ensinou que a verdade é como uma cebola: quanto mais você descasca, mais camadas encontra. E algumas fazem você chorar.
Lara sentiu um frio percorrer a espinha.
— O que você quer dizer?
Júlia abriu a bolsa e tirou um caderno velho, encadernado em couro desgastado.
— Isto era de sua avó. Ela o deu ao meu pai pouco antes de ser f*****a a se casar. Ele o guardou todos esses anos, mas... ele nunca leu.
— Por quê?
— Porque ela fez ele prometer que só o daria a alguém quando chegasse a hora certa. Alguém que estivesse na mesma encruzilhada que ela. — Júlia empurrou o caderno pela mesa. — Acho que essa pessoa é você.
Lara olhou para o diário como se pudesse explodir.
— O que tem nele?
— Histórias. Segredos. E... outras coisas que eu mesma só comecei a entender recentemente. — Júlia tomou um gole de café. — Você sabe que sua avó continuou frequentando a igreja depois que se casou, não é?
Lara assentiu.
— Minha mãe sempre disse que ela era uma crente fiel.
— Ela era. Mas não da maneira que todos pensavam. — Julia baixou a voz. — Ela fazia parte de um g***o secreto dentro da igreja. Mulheres que... bem, que não se conformavam completamente com o que lhes era ensinado.
Lara sentiu o coração acelerar.
— Que tipo de g***o?
— Elas se autodenominavam “As Tecelãs”. Teciam histórias, ideias e interpretações, mergulhando no contexto do tempo em que os textos foram escritos. Dominavam as línguas originais (o grego koine e o hebraico) para alcançar a máxima precisão das Escrituras, elas liam muito os reformadores.
Sua avó era uma das líderes. — Júlia abriu o diário em uma página específica. — Leia isto.
A caligrafia era a de sua avó, mas mais urgente, menos polida do que nas cartas:
“Hoje discutimos o papel das mulheres. Por que elas foram as primeiras a ver Jesus ressuscitado? Por que seus relatos foram tantas vezes diminuídos? Marta sugeriu que talvez tenhamos ouvido apenas metade da história todos esses anos. A ideia é ao mesmo tempo aterrorizante e eletrizante.”
Lara levantou os olhos, surpresa.
— Elas estavam questionando a Bíblia Sagrada?
— Elas questionavam os pregadores que não tratavam dos textos por completo — Júlia corrigiu. — Como muitos fizeram durante toda a história da igreja. — Ela virou mais páginas. — Continue.
— Samuel nos descobriu. Estávamos nos reunindo na sala dos fundos da igreja, estudando os evangelhos em grego koiné que a Elena conseguiu por meio de um contato na universidade. Ele irrompeu na sala, com o rosto transformado em uma máscara de fúria. Disse que estávamos questionando a autoridade das pregações, que vinham de Deus, e que estávamos colocando nossas almas em perigo. Tentei explicar, mas ele não ouviu. Disse que, se não parássemos, ele teria que levar o assunto ao conselho.
Lara sentiu um nó se formar no estômago, como se pudesse ouvir o eco distante dos passos de Samuel se aproximando daquela sala, décadas antes.
E, pela primeira vez, ela se perguntou se, ao abrir aquelas páginas, não estava prestes a despertar exatamente o mesmo tipo de tempestade.