CAPÍTULO 16: A TEMPESTADE NO PARQUE

903 Words
A chuva começou a cair quando nossos olhos se encontraram. Fina e gelada. Ele estava encostado no nosso banco, o mesmo onde tínhamos nossa primeira conversa real. E eu sabia: atravessar aquele parque molhado era cruzar uma fronteira da qual não haveria retorno. O céu estava carregado, prometendo a tempestade que já fervia dentro de mim. O parque estava quase vazio, as pessoas buscando abrigo dos primeiros pingos que anunciavam a chuva. E lá estava ele. Sentado no mesmo banco de madeira onde, meses atrás, tínhamos nos encontrado "por acaso" depois da livraria. Agora, ele estava curvado para frente, os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas como em oração. Mas sua postura não era de devoção; era de derrota. Cada passo que eu dava na direção dele era mais pesado que o anterior. A grama molhada amortecia o som dos meus pés, mas meu coração batia tão alto que eu temia que ele pudesse ouvir. Parei a alguns metros de distância. "Gabriel." Ele ergueu a cabeça devagar. Seus olhos estavam vermelhos, fundos, com olheiras escuras que falavam de noites sem dormir. A dor nele era tão palpável que doía em mim também. "Lara." Meu nome saiu como um suspiro rouco de seus lábios. "Você não devia ter vindo." "Você mandou a mensagem", eu disse, minha voz mais firme do que eu esperava. "Você pediu por isso. Você pediu para ser encontrado." Ele balançou a cabeça, um gesto de desespero. "Foi um momento de fraqueza. De saudade. Eu... eu não suporto mais viver essa mentira." A chuva começou a cair com mais força, pingos grossos e gelados que encharcavam nossos cabelos e roupas. Nenhum de nós se moveu. Aquele banco era o último território neutro, e nós estávamos plantados ali, como árvores em uma floresta em chamas. "E o que é a verdade, Gabriel?", eu perguntei, a água escorrendo pelo meu rosto, misturando-se às lágrimas que eu me recusava a chorar. "A verdade é o que seu pai prega no púlpito? Ou a verdade é o que você sussurra para nas nossas mensagens no meio da noite?" "A verdade é que eu te amo!" A voz dele explodiu, um grito que se perdeu no barulho da chuva. "E a verdade é que eu não posso te ter! A verdade é que a minha mãe está doente e a única coisa que mantém ela aqui é a promessa de que eu serei o filho perfeito que ela sempre quis! A verdade é um fardo que está me matando!" Ele se levantou, seu corpo tremendo visivelmente. "Então vamos carregar juntos!", eu gritei de volta, me aproximando. A distância entre nós agora era de centímetros. "Você não precisa fazer isso sozinho! Você me afastou para me proteger, eu entendo! Mas eu não preciso de p******o, Gabriel, eu preciso de você! A verdadeira você, não essa casca vazia!" Ele olhou para mim, e pela primeira vez, vi a parede rachar. Sua máscara de resignação se partiu, revelando o turbilhão de medo, amor e fúria por baixo. "E se eu for covarde demais?", sua voz era um sussurro quebrado. "E se eu não for forte o suficiente para escolher você e viver com as consequências?" "Você já é forte", eu disse, erguendo a mão para tocar seu rosto molhado. Ele estremeceu com o contato, mas não se afastou. "Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Você só se esqueceu." Foi quando um raio iluminou o céu, seguido por um trovão que pareceu sacudir o chão. E na luz branca e fantasmagórica, eu vi uma figura alta parada na borda do parque, observando-nos. Pastor Samuel. Ele não estava furioso. Ele parecia... triunfante. Gabriel o viu e seu corpo inteiro ficou rígido. Sua mão agarrou a minha, não mais em um gesto de carícia, mas de puro pânico. "Pai...", a palavra saiu como um gemido. O pastor caminhou lentamente em nossa direção, sua sombra alongando-se na grama encharcada. A chuva ensopava seu terno, mas ele não parecia notar. Seus olhos estavam fixos em nossas mãos entrelaçadas. "Eu sabia", ele disse, sua voz serena e aterrorizante. "Eu sabia que a tentação seria forte demais. Que você escolheria a carne sobre o espírito." Ele parou diante de nós, seu olhar pesando sobre Gabriel. "Sua mãe ligou para mim, preocupada. Ela disse que você saiu perturbado. E eu sabia onde encontrar você. No lugar do seu pecado original." "Pai, por favor...", Gabriel tentou novamente, sua voz falhando. "Não, filho. Chega de súplicas." O pastor estendeu a mão, não para Gabriel, mas para mim. Seu olhar era de desprezo puro. "Deixe a mão do meu filho. Você já fez estrago suficiente. Você o cegou, envenenou sua mente... e agora pode custar a vida da minha esposa." Suas palavras foram um golpe baixo. Eu senti Gabriel encolher ao meu lado. "O que você quer dizer?", eu perguntei, mantendo a mão de Gabriel com mais força. "O estresse de toda essa situação agravou a condição dela. A pressão dela está perigosamente alta. Cada desvio dele é um prego no caixão dela." Seus olhos perfuraram Gabriel. "Você quer ser o responsável pela morte da sua própria mãe, filho? Por causa dessa menina?" Foi uma manipulação c***l. Eu senti a determinação de Gabriel vacilar, sua mão começar a se soltar da minha. Ele estava prestes a cair. Prestes a se render. E eu sabia, com uma clareza absoluta, que se eu o perdesse agora, seria para sempre.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD