CAPÍTULO 17: A LINHA NO CHÃO

576 Words
A chuva caía sobre nós, e as palavras do Pastor Samuel pairando como uma maldição. Ele desenhara uma linha no chão encharcado: de um lado, a mãe dele; do outro, eu. E eu vi, nos olhos de Gabriel, o momento exato em que sua alma se partiu ao meio. A chuva era uma cortina gelada nos separando do Pastor Samuel. Suas palavras – [...] um prego no caixão dela – ecoavam mais alto que os trovões. A mão de Gabriel estava fria, sua pele úmida. Senti os dedos dele se contraírem, não para me segurar, mas como um espasmo de dor. Ele estava se desintegrando ali, diante dos meus olhos. "Pai... isso não é justo", a voz de Gabriel saiu arrasada, um sussurro que m*l vencia o som da tempestade. "Justiça?", o pastor repetiu, sua calma era a coisa mais assustadora de todas. "A justiça divina às vezes exige sacrifício, filho. E você está escolhendo o sacrifício errado." Foi então que eu agi. Não por mim, mas por ele. Por ver que ele não tinha mais forças. "O senhor não fala por justiça, pastor", minha voz saiu clara e cortante, surpreendendo a todos, inclusive a mim. "O senhor fala por controle. E está usando o amor do seu filho pela mãe dele como uma a**a. Que tipo de Deus é esse que o senhor prega, que precisa da doença de uma pessoa para manter os outros na linha?" Os olhos do Pastor Samuel se estreitaram, focando em mim com uma intensidade que poderia incendiar a chuva. Ele deu um passo à frente. "Você, jovem, com sua filosofia vazia e seu coração orgulhoso, não tem lugar para falar de Deus. Você é a serpente no jardim desta família." "E o senhor é Adão, pronto para culpar a serpente pela sua própria escolha de expulsar o próprio filho do Éden?", eu retruquei, meu coração batendo como um tambor de guerra. O silêncio que se seguiu foi eletrizante. Até a chuva pareceu diminuir por um segundo. Gabriel soltou minha mão. O som foi como o de uma corda se partindo. Ele olhou para o pai, depois para mim. Seu rosto era uma paisagem arrasada. "Chega." A voz dele não era um grito. Era uma afirmação oca, final. "Chega, pai. Você não vai mais usar a mãe contra mim. E você...", ele virou-se para mim, e sua expressão era de uma dor tão profunda que eu m*l conseguia respirar. "Lara, você tem que ir embora." "Gabriel, não...", eu supliquei, sentindo o chão desaparecer. "AGORA!", ele rugiu, e o som foi tão brutal, tão carregado de angústia, que eu recuei instintivamente. Ele não estava me expulsando. Ele estava se rendendo. Ele estava escolhendo o campo de batalha para proteger o que restava. O Pastor Samuel teve um sorriso pequeno e vitorioso. Eu olhei para Gabriel pela última vez. Seus olhos me imploravam perdão, mesmo quando seu corpo me rejeitava. Sem uma palavra, eu virei e caminhei para longe, na chuva. Cada passo era como andar sobre vidros. Quando me virei na esquina, ele ainda estava de pé no parque, uma estátua de dor sob a tempestade, com a sombra do pai sobre ele como um pássaro de rapina. Ele tinha traçado sua linha. E eu tinha ficado do lado de fora. Mas enquanto a água gelada me ensopava, uma fagulha de determinação nascia da minha própria dor. Ele poderia ter me expulsado da guerra. Mas a guerra ainda não tinha acabado.
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