CAPÍTULO 19: A TRAMA DAS ALIANÇAS

1118 Words
Pastor Miguel não nos ofereceu uma espada para a batalha, mas um espelho. "Para vencer uma guerra santa", ele disse, "é preciso mostrar que a verdadeira santidade está na compaixão, não no controle." E seu plano era tão perigoso quanto brilhante. Gabriel fazia algumas expressões diferentes ao ouvir o que Miguel dizia. Eu estava atenta, embora não soubesse ao certo o que era compaixão. O café do centro comunitário tinha se tornado nosso quartel-general. O aroma de grãos torrados se misturava ao cheiro de livros de teologia liberal e à eletricidade de uma conspiração benevolente, assim eu acreditava. Miguel nos levou para sua sala, um espaço com estantes abarrotadas e uma Bíblia aberta no livro de Isaías. Ele não parecia um revolucionário, mas um sábio. Lia bastante literatura liberal, teólogos e pastores que acreditavam que o amor de Deus é para todos e que todos podem viver como querem, e que Deus abençoa mesmo assim. Gabriel não acreditava nisso, mas estava ali, atento e ao meu lado, sua mão não soltava a minha. Apesar do desafio, meu coração estava alegre, e me sentia tranquila ao seu lado. "Samuel é um homem que acredita piamente que está certo, a má religião o pegou de jeito ", Miguel começou, seus dedos percorrendo uma passagem sobre "soltar as amarras da injustiça". Peguei uma Bíblia que estava em sua mesa e achei o texto em Isaías 58.16: “Não! Não é esse o jejum que eu quero. Eu quero que soltem aqueles que foram presos injustamente, que tirem de cima deles o peso que os faz sofrer, que ponham em liberdade os que estão sendo oprimidos, que acabem com todo tipo de escravidão.” Realmente, na passagem bíblica, Deus estava querendo que seu povo agisse com justiça e não só seus rituais externos. Comecei a entender a Bíblia. Comecei a gostar. "Argumentos lógicos não o atingem. Ele os vê como armas do inimigo. Mas há uma coisa que ele n******e ignorar: a verdade exposta perante sua própria congregação”, disse Miguel. De que verdade ele estava falando? Será que ele sabe algo? Será que é a Bíblia? ou será que é a sua verdade? Fiquei confusa, cocei a cabeça, mas preferi aguardar. Gabriel estava sentado ao meu lado, sua presença era um farol de determinação renovada. "O senhor está sugerindo que eu o enfrente durante um culto?" "Deus me livre, não!", Miguel riu, um som surpreendentemente jovial. "Isso seria um espetáculo, e daria a ele o que mais quer: o papel de mártir perseguido dentro de sua própria casa. Não." Seu olhar ficou sério. "Precisamos ser mais espertos. A a**a dele é a narrativa. Precisamos mudar a narrativa." Ele explicou seu plano. Era simples e arriscado. O centro comunitário organizava um evento mensal chamado "Diálogos de Fé", onde pessoas de diferentes crenças (e descrenças) conversavam abertamente. O próximo tema seria "Amor e Obediência: Os Limites da Fé Familiar". "Quero que você seja um dos painelistas, Gabriel", Miguel disse. "Ao lado de um rabino, de uma estudante de espiritismo... e de Lara." O ar saiu dos meus pulmões. "Eu? Mas eu sou... a 'influência perigosa'." "Exatamente. E você será a 'influência perigosa' que fala com respeito, lucidez e um amor tão evidente que será impossível chamá-lo de pecado. Vocês dois contarão sua história. Sem ataques, sem acusações. Apenas a verdade de dois jovens tentando amar um ao outro em meio a um conflito de mundos." Gabriel me olhou, uma pergunta silenciosa em seus olhos. Era um risco enorme. Expor-nos publicamente. Mas era uma chance de recuperar nossa narrativa das mãos do Pastor Samuel. "Eu topo", Gabriel disse, sua voz firme. "Eu também", eu confirmei, meu coração batendo forte não de medo, mas de antecipação. Enquanto nos preparávamos para o evento, uma revolução silenciosa acontecia em minha própria casa. Minha mãe, animada pela descoberta da Bíblia de sua própria mãe, decidiu revisitar o passado. Ela vasculhou velhas caixas no sótão e encontrou algo que fez seu rosto perder toda a cor. Era uma foto desbotada. Nela, minha avó, jovem e sorridente, estava ao lado de um homem que não era meu bisavô. Eles estavam na escadaria de uma igreja – a mesma igreja do Pastor Samuel. No verso, uma caligrafia que eu reconheci da Bíblia: "Com Eduardo, o grande amor da minha vida, antes da vida me levar por outros caminhos. 1965." "Quem é Eduardo?", eu perguntei, confusa. Minha mãe sentou-se na cama, a foto tremendo em suas mãos. "Eu... eu não sei. Minha mãe nunca falou dele. Mas ela frequentou essa mesma igreja quando jovem. Ela saiu de lá... meu Deus, ela saiu de lá pouco antes de conhecer meu pai." Um fio de conexão começou a se formar na minha mente. A avó de Gabriel, Dona Silvia, mencionou uma musicista do passado do pastor. E minha avó, com sua Bíblia secreta, tinha um grande amor não correspondido ligado àquela igreja. E se as histórias estivessem conectadas? E se o passado estivesse se repetindo? Na véspera do "Diálogos de Fé", a tensão estava palpável. Gabriel e eu ensaiávamos nossos pontos no centro comunitário quando Ana apareceu, correndo e com o rosto pálido. "Pai sabe", ela ofegou, segurando o peito. "Alguém da congregação viu o panfleto do evento na internet. Ele sabe que você vai participar, Gabriel. E sabe que Lara estará com você." "O que ele disse?", Gabriel perguntou, sua voz calma, mas seus punhos estavam cerrados. "Ele não disse nada. É isso que é assustador. Ele apenas... sorriu. Aquele sorriso de 'eu avisei'. E então, ele foi para o escritório dele e fechou a porta." Ela olhou para nós, seus olhos cheios de medo. "Ele está planejando algo. Algo grande." Irmão Miguel colocou uma mão calmante no ombro de Gabriel. "Não mudemos nossos planos. A verdade é nossa aliada. Sigamos em frente." Mas naquela noite, enquanto eu arrumava minha bolsa para o evento no dia seguinte, uma carta de envelope marrom foi enfiada por baixo da minha porta. Não tinha remetente. Com dedos trêmulos, eu a abri. Dentro, havia apenas uma foto. Uma foto de Gabriel e eu no parque, durante a chuva, no momento em que nossas mãos se tocavam**. A imagem era granulada, tirada de longe, mas a i********e era violada, exposta. E na parte de baixo, escrita em letras de imprensa cortantes, uma única frase: "TODO ATO DE REBELDIA TEM SEU PREÇO. DESISTA OU ELE PAGARÁ POR ISSO." A ameaça não era para mim. Era para ele. Ela não vinha de um inimigo anônimo. A frieza da mensagem, a precisão do timing... ela tinha a assinatura invisível do Pastor Samuel. Ele não iria debater conosco. Ele iria destruir-nos. E o "Diálogos de Fé" seria seu palco perfeito.
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