O envelope ameaçador parecia queimar na palma da mão de Lara. As letras de imprensa cortantes, a fotografia desfocada que capturava seu encontro secreto com Júlia — tudo falava de uma vigilância sinistra que se infiltrava nos espaços mais íntimos de sua vida. Gabriel pegou o bilhete, seus dedos tremendo de razão contida.
— Alguém nos está observando — ele sussurrou, os olhos escaneando o estacionamento vazio do hospital. A chuva começava a cair novamente, pingos finos e persistentes que embaraçavam o para-brisa e distorciam as luzes da cidade.
Lara ainda sentia o peso do diário em sua bolsa, como se ele pulsasse com os segredos que continha.
— Eles sabem sobre Julia. Sabem que estamos investigando.
Gabriel ligou o carro, o motor ganhando vida com um ronco suave.
— Precisamos falar com a minha mãe. Ela sabe de algo. Aquelas coisas que ela disse não foram apenas delírios.
Enquanto dirigiam de volta para a casa dos pais de Gabriel, a tensão dentro do carro era tão espessa que Lara podia quase saboreá-la — um gosto metálico de medo e antecipação. As ruas estavam estranhamente vazias para uma noite de sábado, como se a própria cidade estivesse se encolhendo diante da tempestade que se aproximava, tanto literal quanto figurativa.
Ao chegarem, encontraram Samuel na cozinha, preparando chá com movimentos mecânicos. Suas mãos, geralmente tão firmes, tremiam levemente enquanto ele colocava as xícaras na bandeja.
— Como está Mara? — Lara perguntou, a voz suave na cozinha silenciosa.
— Dormindo — Samuel respondeu sem virar-se. — Os médicos aumentaram a sedação. Ela... ela estava muito agitada.
Gabriel colocou o bilhete ameaçador na mesa da cozinha.
— Alguém deixou isso em nosso carro. No hospital.
Samuel virou-se lentamente, os olhos fixando-se no bilhete. Lara viu o reconhecimento instantâneo em seu rosto, seguido por uma onda de puro terror que ele tentou — e falhou — em esconder.
— Onde... onde você conseguiu isso? — sua voz era um sussurro áspero.
— Alguém o colocou em nosso carro — Gabriel repetiu, a voz mais firme agora. — Pai, o que está acontecendo? O que a mãe quis dizer sobre a avó de Lara ter “descoberto” algo? E sobre “eles” ainda estarem por aí?
Samuel caiu pesadamente em uma cadeira, as mãos cobrindo o rosto. Por um longo momento, o único som na cozinha era o tique-taque do relógio de parede e a chuva contra a janela.
— Eu pensei que estava protegendo todos — ele finalmente disse, a voz abafada pelas mãos. — Achei que se enterrasse a verdade profundamente o suficiente, ela nunca viria à tona.
Lara sentou-se à mesa, o coração batendo forte.
— Samuel, precisamos saber a verdade. Se há perigo...
— Perigo? — Samuel riu, um som amargo e sem humor. — Isso vai muito além de perigo, Lara. Isso é... é uma escuridão que consome almas.
Ele ergueu os olhos, e Lara viu que ele chorava silenciosamente — lágrimas escorrendo pelo rosto marcado sem que ele tentasse detê-las.
— As Tecelãs — ele sussurrou. — Elas não eram apenas um g***o de estudo. Eram... reformadoras, semelhantes a Argula von Grumbach, Marie Dentière, Martinho Lutero e João Calvino.
Gabriel sentou-se ao lado de Lara, o rosto pálido.
— Contra o quê?
Samuel respirou fundo, como se se preparasse para carregar um peso enorme.
— Contra a corrupção que estava envenenando a igreja. Corrupção que ia muito além de má conduta financeira ou doutrinária.
Ele abriu uma gaveta e tirou um velho álbum de fotos. As páginas soltaram um cheiro de mofo e tempo quando as abriu. Havia fotografias de mulheres sorridentes — a avó de Lara entre elas — com os olhos cheios de vida e determinação.
— Sua avó era a líder delas — Samuel disse, o dedo tocando a imagem de Elisa. — Ela era... magnífica. Corajosa de uma maneira que eu nunca entendi completamente. Até que foi tarde demais.
— O que aconteceu com elas? — Lara perguntou, quase num sussurro.
Samuel virou a página. Havia mais fotografias, mas estas eram diferentes — recortes de jornal, obituários, imagens de lápides.
— Elas começaram a descobrir coisas — ele disse. — Coisas sobre... experimentos.
Gabriel franziu a testa.
— Experimentos? Que tipo de experimentos?
Samuel cerrou os olhos, como se tentasse bloquear as lembranças.
— Na década de 70, a igreja envolveu-se em... chamavam de “terapias de conversão”. Mas ia muito além disso. Eram experimentos que envolviam hipnose, regressão espiritual, práticas de mercado, sincretismo e misticismo. Naquela época, éramos rotulados como hereges, hoje seríamos chamados de neopentecostais.
Lara sentiu um frio percorrer a espinha.
— Minha avó descobriu isso?
Samuel assentiu, ainda de olhos fechados.
— Ela e as outras Tecelãs. Encontraram documentos, gravações, provas. E planejavam expor tudo.
— E você? — Gabriel perguntou, a voz tensa. — O que você fez?
Samuel abriu os olhos, e neles Lara viu uma dor tão profunda que quase recuou.
— Eu... eu tentei detê-las. Achei que estava protegendo a igreja, protegendo-as de si mesmas. Mas eu era apenas um peão, Gabriel. Um peão útil.
Ele pegou uma fotografia desbotada — um g***o de homens em ternos escuros, posando na frente da igreja. Lara reconheceu Samuel, mais jovem, com expressão séria. Ao seu lado estava um homem que ela reconheceu — seu próprio avô.
— Seu avô não era o homem que todos pensavam — Samuel sussurrou. — Ele era... o líder dos experimentos.
As palavras caíram na cozinha silenciosa como pedras em um lago quieto. Lara sentiu o mundo girar ao seu redor. Seu avô — o homem de quem sua mãe sempre falara com tanto carinho, o marido que sua avó foi f*****a a aceitar — era o vilão da história?
— Ele usava a posição dele na universidade — Samuel continuou, a voz agora monótona, como se recitasse um roteiro antigo.
Gabriel balançou a cabeça, incrédulo.
— E ninguém sabia? Ninguém questionou? Faziam vista grossa ou faziam as mesmas coisas?
— Algumas pessoas questionaram — Samuel disse. — E essas pessoas... bem, elas tiveram que ir embora por causa dos ataques vindos do púlpito, das indiretas, das fofocas.
Lara lembrou das palavras de Júlia.
— As Tecelãs... elas foram silenciadas?
Samuel não respondeu de imediato. Em vez disso, abriu o álbum em uma página final. Havia uma única fotografia — sua avó, olhando diretamente para a câmera, os olhos cheios de uma determinação feroz. Atrás dela, quase escondido na sombra, estava Eduardo.
— Elisa descobriu a verdade completa — Samuel sussurrou. — E ela confrontou seu marido. Na noite antes de ela... bem, antes do “acidente”.
Lara sentiu as lágrimas queimarem nos olhos.
— Ela não cometeu suicídio, não é?
Samuel balançou a cabeça, as próprias lágrimas caindo livremente agora.
— Não. E eu... eu ajudei a encobrir. Disseram que era para proteger a igreja, para evitar um escândalo. Mas eu sabia. Eu sempre soube.
A chuva intensificou-se, tamborilando nos vidros como dedos impacientes. Lara olhou para a fotografia da avó e sentiu, pela primeira vez, que a voz de Elisa não estava apenas nas cartas ou no diário — ela parecia gritar a partir de cada silêncio imposto.
E, naquela cozinha, com um bilhete ameaçador sobre a mesa e décadas de culpa entre eles, Lara percebeu que aquela confissão era só o começo.