Capítulo 28

1320 Words
O sol nasceu como um insulto. Débora não dormiu. Ela passou as horas da madrugada no chão do banheiro, alternando entre espasmos de vômito seco e um choro silencioso que parecia rasgar suas costelas A água do chuveiro, que ela deixou cair por mais de uma hora, não limpou nada. O gosto dele estava em sua boca. O cheiro dele estava em sua pele. E a culpa era um manto pesado e encharcado que a sufocava. Ela o havia chupado com os fluidos da sua mãe. Ela havia se masturbado no corredor, ouvindo-os. Ela era um monstro. Um animal. E o pior de tudo, o eco daquele prazer roubado ainda vibrava em seus nervos, uma traição física que a fazia se odiar ainda mais. Quando finalmente saiu do quarto, perto do meio-dia, a casa estava clara e arejada. A empregada havia aberto as janelas, e o cheiro de café fresco e bolo de laranja subia da cozinha. A normalidade da cena era uma agressão. Cada raio de sol parecia um holofote sobre sua sujeira. Ela desceu as escadas como um fantasma, os pés descalços, vestindo um moletom largo que a fazia se sentir um pouco menos exposta. Não havia sinal de Tiago. O carro dele não estava na garagem quando ela olhou pela janela do corredor. Ele ainda não havia voltado da sua "caçada". Ela encontrou sua mãe e Leo na sala de estar principal. A cena era de uma domesticidade doentia. Letícia estava aninhada no sofá, os pés descalços sobre o colo de Leo, enquanto lia uma revista de fofocas. Leo, parecendo perfeitamente relaxado em uma camisa polo clara, lia o jornal no tablet, uma mão distraidamente acariciando o tornozelo de Letícia. Eles pareciam um casal. Um casal feliz. O som dos passos dela fez os dois erguerem os olhos. O sorriso de Letícia vacilou, substituído por uma leve irritação. — Olha só quem acordou. Pensei que você tivesse morrido lá em cima, Débora. Quase meio-dia. — Não dormi bem — murmurou Débora, a voz rouca pelo choro e pelo vômito. Leo a observou por cima do tablet. Seu olhar era diferente do da noite anterior. Não havia luxúria, nem triunfo. Era calmo, quase... afetuoso. Como se ela fosse um animal de estimação que ele havia treinado com sucesso. Ele não disse nada, mas seu olhar a despiu, avaliou-a e a dispensou em um único segundo. Ela sentiu o rosto queimar e se jogou na poltrona mais distante possível, abraçando os próprios joelhos. — Você está horrível, querida — disse Letícia, voltando para sua revista. — E seu irmão é outro. Saiu ontem à noite e nem sequer voltou. Deixou a cama arrumada. Sinceramente, não sei o que deu nesses dois. — Deixe-o, meu bem — a voz de Leo era um bálsamo calmo. — Tiago é adulto. Ele só está fazendo birra porque não conseguiu o que queria. Ele vai voltar quando o dinheiro acabar ou quando perceber que ninguém se importa com o drama dele. Débora encolheu-se na poltrona, o estômago revirando. A forma como ele falava de Tiago, com tanto desdém, como se ele fosse uma mosca... A culpa que ela sentia se misturou com um novo e súbito terror. Tiago estava lá fora, sozinho, caçando um homem que não tinha escrúpulos. O silêncio se instalou na sala, preenchido apenas pelo virar das páginas da revista de Letícia e pelo som da chuva fraca que começou a cair lá fora. Foi quando o telefone tocou. Não era um celular. Era o telefone fixo da mansão, um aparelho antigo de bronze no console do hall de entrada, reservado para assuntos sérios. O som era agudo, estridente, uma navalha cortando a paz doméstica. Maria, a governanta, que limpava os vasos de prata no canto da sala, enxugou as mãos no avental e correu para atender. — Residência Viana... Débora observou. Leo baixou o tablet. Letícia suspirou, irritada com a interrupção. No hall, a voz de Maria mudou. Ela estava pálida. — Sim... sim, senhora... é ela mesma — a mão livre de Maria subiu até a boca, os olhos arregalados de horror. — Oh, meu Deus. Oh, meu Deus... Sim, um momento, por favor. Maria se virou para a sala. Ela não estava apenas pálida; estava cinza. Seus lábios tremiam. — Senhora Viana... — a voz dela era um sussurro trêmulo. — É... é a polícia. Do estado. O estômago de Débora despencou até o chão. Ela parou de respirar. Letícia revirou os olhos, impaciente. — Ah, pelo amor de Deus, o que Tiago aprontou agora? Bateu o carro? Foi pego em alta velocidade? Ela se levantou, largando a revista no sofá, e caminhou com passos duros até o telefone. — Alô? — A voz dela era impaciente. — Aqui é Letícia Viana. Do que se trata? Débora observou a mãe. Viu as costas dela ficarem rígidas. Viu a mão livre se agarrar ao console de madeira para se apoiar. — ...O quê? — A voz de Letícia era quase inaudível. — Não. Não, não estou entendendo... um acidente? Onde? Leo se levantou do sofá, agora alerta, o rosto sério. — ...Na serra? — Letícia continuou. — O Audi A8... sim, é dele... mas... como assim...? Houve uma longa pausa. Débora podia ouvir o zumbido agudo do outro lado da linha, mesmo de onde estava. Então, o telefone escorregou da mão de Letícia. Bateu no suporte de bronze com um estrondo metálico e caiu no chão, balançando no final do fio. Letícia Viana ficou parada, de costas para eles. Rígida como uma estátua. — Senhora? — Maria deu um passo à frente, as mãos trêmulas. — ...Os freios — sussurrou Letícia para o nada. A voz dela era fina, como vidro quebrando. — Eles disseram... os freios... falharam. Leo começou a andar na direção dela. — Letícia... Ela se virou. Seu rosto era uma máscara de cera branca, os olhos completamente vazios, a boca entreaberta. Ela olhou através de Débora, como se ela não estivesse ali. — Tiago... — ela disse, em um sopro de ar. — Ele está morto. Por um segundo, ninguém se moveu. Então, o som que saiu de Letícia não foi humano. Foi um uivo, um grito primal de dor que rasgou o ar da mansão, ecoando pelo mármore. Suas pernas cederam. Ela desabou no chão do hall. Débora ficou congelada na poltrona. Morto. Tiago. Morto. As palavras não faziam sentido. Freios falharam. A culpa a atingiu. Não como uma onda, mas como um raio. Enquanto eu... ontem à noite... no corredor... O universo estava punindo-a. Ela tinha pecado de uma forma imperdoável, e seu irmão pagou o preço. A culpa era dela. Ela o matou. Enquanto Maria gritava e Débora se afogava em seu choque catatônico, Leo se moveu. Ele era uma ilha de calma no meio do caos. Ele estava ao lado de Letícia em um segundo, levantando-a do chão como se ela não pesasse nada, carregando-a em seus braços. — Maria, chame um médico! Agora! — Sua voz era firme, cheia de autoridade. Ele colocou Letícia, que agora soluçava histericamente, no sofá. Então, ele foi até o telefone, pegou-o do chão e o colocou no ouvido. — Aqui é Leo Monteverde. Falo em nome da Sra. Viana — sua voz era baixa, controlada, o epítome da competência. — Sim, ela está em choque. Preciso que me passe os detalhes. Qual delegacia? O corpo... sim. Entendo. Mande uma viatura para cá. E o médico dela está a caminho. Ele estava no telefone, resolvendo a polícia, gerenciando a morte, cuidando da sua mãe. Ele era o pilar. Ele ergueu os olhos do telefone e olhou por cima do corpo trêmulo de Letícia. Seus olhos verdes encontraram os de Débora, do outro lado da sala. Ela era a única outra pessoa sã no cômodo. E ele sabia. O olhar dele era indecifrável, mas a mensagem era clara. Eu estou no comando agora. De tudo.
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