O grito de Maria ao telefone, chamando o médico, m*l se ouviu. Débora estava submersa, presa no âmbar do choque.
As palavras morto, freios, Tiago giravam em sua mente, misturando-se com a culpa nojenta da noite anterior. Eu o matei. Eu o matei. Eu estava me masturbando no corredor e Deus o matou.
A sala de estar, tão silenciosa minutos antes, era agora um centro de comando febril. E Leo era o general.
O Dr. Arnaldo, o médico da família há décadas, um homem de cabelos grisalhos e rosto cansado, chegou em tempo recorde.
Ele correu para Letícia, que ainda estava caída no sofá, os soluços histéricos agora transformados em gritos agudos e sem sentido, as mãos arranhando os próprios braços.
— Letícia, sou eu, Arnaldo, preciso que você se acalme...
— Ele se foi! Ele se foi! Meu filho! — Ela gritava, tentando se levantar, mas sem forças.
— Ela está em choque profundo — disse Leo. Sua voz era o único som calmo e racional no cômodo. Ele estava ajoelhado ao lado do sofá, segurando a mão de Letícia, impedindo-a de se machucar. — Ela teve um colapso assim que ouviu a notícia.
Dr. Arnaldo preparou uma seringa.
— Vou ter que sedá-la. Não tem outro jeito. Leo, segure o braço dela firme.
No momento em que Letícia viu a agulha, ela lutou.
— Não! Não me toque! Eu quero o meu filho! TIAGO!
Ela se debateu com uma força selvagem, mas Leo não vacilou. Ele a envolveu em seus braços, prendendo-a contra o peito. Não foi um ato de violência; foi um ato de contenção absoluta.
— Shh, meu bem. Meu amor, olhe para mim — ele murmurou, a voz baixa e firme, direto no ouvido dela. — É só para a dor passar. Estou bem aqui. Eu não vou a lugar nenhum. Eu cuido de você.
E, por um segundo, Letícia parou de lutar. Ela pareceu focar no rosto dele, e sua histeria se dissolveu em um choro profundo e quebrado.
Foi o suficiente. O médico encontrou a veia, e o líquido entrou.
Débora assistiu a tudo da poltrona, catatônica.
Ela viu os olhos da sua mãe se revirarem, o corpo amolecer. Os soluços pararam, substituídos por uma respiração trêmula. Ela finalmente apagou.
Sem uma palavra, Leo se ajeitou. Ele passou um braço sob os joelhos dela e outro sob suas costas, levantando-a do sofá como se ela fosse feita de plumas. O movimento foi fluido, seguro e incrivelmente forte.
Ele olhou para o Dr. Arnaldo.
— Vou levá-la para o quarto.
— Fique com ela. Voltarei esta noite para checar seus sinais vitais. E a garota... — o médico olhou para Débora, encolhida na poltrona. — Ela precisa de algo?
Leo olhou para Débora, seus olhos verdes varrendo-a.
— Ela só está em choque. Eu cuido dela também.
Então, ele se virou e carregou Letícia para fora da sala, subindo as escadas.
Débora ficou sozinha com o médico, que suspirou e começou a guardar suas coisas. O silêncio na sala era pesado, cheirando a álcool e tragédia.
Ela não ouvia o médico. Sua mente estava presa na cena que acabara de testemunhar.
Leo. O monstro. O manipulador. O homem cujo gosto ela ainda sentia na boca.
Ele não parecia um predador agora. Ele não parecia um golpista. Ele parecia... competente. Preocupado. A forma como ele acalmou sua mãe, a autoridade em sua voz com a polícia, a gentileza firme com que ele a segurou enquanto ela se quebrava.
Uma lembrança dolorosa piscou em sua mente: ela, com doze anos, caindo da bicicleta e quebrando o braço. A dor, o pânico, o sangue. E seu pai, Rodrigo, chegando.
Ele não entrou em pânico. Ele a pegou no colo exatamente daquele jeito, murmurou "Eu cuido de você, minha filha" e a levou para o hospital, falando com médicos e enfermeiras com a mesma autoridade calma.
A semelhança era tão perturbadora que a fez sentir náuseas.
Leo estava agindo como seu pai. Ele estava sendo o homem da casa, o pilar, a única estrutura sólida em um mundo que havia acabado de desmoronar.
Ela o odiava. Ele a aterrorizava.
Mas, enquanto ouvia seus passos calmos no andar de cima, colocando sua mãe na cama, uma parte doente e aterrorizada de Débora se agarrou à única coisa que restava.
Ele era o único que estava no comando. Ele era o único que estava cuidando delas.