Capítulo 30

1062 Words
A mansão Viana não cheirava mais a lar. Cheirava a lírios. Eles estavam em toda parte. Coroas brancas e vasos altos que se erguiam como sentinelas fantasmagóricas no hall de entrada, no topo das mesas, flanqueando as portas. O perfume era grosso, adocicado e sufocante. Era o cheiro da morte, e estava impregnado em cada canto da casa. A sala de estar principal havia sido esvaziada dos seus móveis confortáveis, substituída por fileiras de cadeiras estofadas, todas voltadas para o centro. Para a única coisa que importava. O caixão. Era de um mogno escuro, polido a ponto de refletir as lágrimas dos lustres de cristal. E estava fechado. Lacrado. A polícia rodoviária não deu muitos detalhes à família, apenas o necessário. "Trauma contuso massivo." "O fogo começou após o impacto." "A identificação visual não foi possível." Débora não precisava dos eufemismos. Ela entendeu. O acidente na serra não apenas tirou a vida do seu irmão; destruiu seu corpo. Não havia rosto para se despedir. Não havia uma última olhada. Havia apenas uma caixa de madeira e o cheiro avassalador dos lírios. Letícia estava sentada na primeira fila, uma concha frágil de si mesma. O Dr. Arnaldo havia feito seu trabalho bem demais. Ela era uma boneca de porcelana, vestida de preto, os olhos abertos, mas completamente vazios. Pesadamente sedada, ela encarava o caixão sem piscar, as mãos perfeitamente cruzadas no colo. As pessoas vinham, tocavam seu ombro, murmuravam condolências. Ela não respondia. Não estava ali. E do outro lado da sala, recebendo as pessoas na porta, estava Leo. Impecável em um terno preto de corte caro, o rosto uma máscara de luto solene e competência. Ele era o pilar. Ele apertava mãos, aceitava abraços, murmurava agradecimentos, seus olhos verdes varrendo a sala, gerenciando a dor de todos. Ele era o anfitrião da morte, e a visão dele, tão calmo e no controle... Débora não sabia mais o que sentia. Ela estava sentada na segunda fila, sozinha. Uma ilha de rigidez em um mar de preto. Ela não chorava. Não conseguia. As lágrimas pareciam ter secado em sua fonte, deixando apenas uma poeira árida e quente atrás dos seus olhos. Ela se sentia como um sino de vidro, observando o mundo se mover ao seu redor. As pessoas vinham até ela também. Mãos em seu ombro. "Meus pêsames, querida." "Tão jovem." "Uma tragédia horrível." "Se precisar de qualquer coisa..." As vozes eram distantes, sons pastosos que pareciam vir debaixo d'água. As palavras batiam nela e se dissolviam. Ela apenas balançava a cabeça, incapaz de formar uma sílaba. Se abrisse a boca, tinha certeza de que não seriam palavras que sairiam, mas um grito que rasgaria o silêncio. Um grito de culpa. Ela se sentia uma assassina. A imagem da noite anterior não a deixava. A porta entreaberta. O gosto dele misturado ao da sua mãe. O som da sua própria respiração ofegante no corredor escuro enquanto seu irmão, em algum lugar em uma estrada molhada, acelerava para a morte. Uma troca. Uma vida por um pecado. Ela era a culpada. Uma lembrança, mais nítida e dolorosa do que qualquer outra, cortou sua névoa. A última vez que ela falou com ele. Na manhã em que ele morreu. Ele a pegou no corredor, parecia exausto, mas seus olhos queimavam com uma urgência febril. — Débora — ele segurou seu braço, forçando-a a parar. — Eu estou indo agora. Encontrar aquele antigo sócio. O cara que o acusou de incêndio criminoso. Ela se encolheu, o toque dele parecendo uma acusação. Ela estava com medo de que Leo a visse falando com ele. — Tiago, me deixa em paz... — Eu sei que você está com medo! — Ele sibilou, a voz baixa e desesperada. — Eu sei que ele te ameaçou. Eu vejo como você olha para ele. Eu estou fazendo isso por nós. Pela mamãe. Pelo papai. — Não tem "nós"! — Ela cuspiu, arrancando o braço. — Deixa a gente em paz! A dor nos olhos dele foi um golpe. O cansaço pareceu dobrá-lo. Ele balançou a cabeça, derrotado. — Você vai continuar cega até quando, Débora? — Ele perguntou, a voz rouca de exaustão. — Até ele queimar tudo o que restou? Ele não esperou uma resposta. Ele se virou e saiu. E ela... ela sentiu alívio por ele ter ido. Agora, sentada de frente para sua caixa fechada, o alívio daquele momento a estava sufocando. Ele saiu para salvá-la, e ela o mandou para a morte. Uma mão real, quente, de repente agarrou a sua. O toque foi tão súbito que a fez pular. — Amiga... Era Angélica. Seus olhos, ao contrário dos de Débora, estavam vermelhos, inchados de lágrimas reais e limpas. Ela não usava maquiagem, e seu cabelo estava preso de qualquer jeito. Ela estava genuinamente de luto. — Oh, meu Deus, amiga. Eu... eu sinto tanto — Angélica a abraçou com força, o corpo dela tremendo com os soluços. — Eu nem sei o que dizer. É horrível. Como você está? Você tá bem? Débora ficou rígida dentro do abraço. Era como ser abraçada por uma pessoa viva quando você já estava morta. O luto de Angélica era puro. O dela era sujo, manchado, nojento. Como ela poderia explicar? Eu estava me masturbando no corredor enquanto ele morria. Eu gozei na boca do homem que ele estava tentando expor. Ela não abraçou de volta. Ela permaneceu uma estátua de madeira. Angélica se afastou, o rosto confuso com a falta de reação. — Meu bem? Fala comigo. Você tá me assustando. Você precisa de água? Um calmante? Débora apenas balançou a cabeça, um movimento minúsculo. Ela olhou para o caixão. — Eu... eu não posso — ela sussurrou, a primeira coisa que disse em horas. — Não pode o quê? Chorar? Débora, é claro que pode... — Não — ela se levantou, a voz monótona, puxando a mão da de Angélica. Ela se afastou da sua melhor amiga, deixando-a no meio do salão. Ela caminhou, não para o caixão, não para a mãe, mas para a janela, onde ficou de costas para todos, olhando para a chuva que caía sobre os lírios no jardim. Angélica não a seguiu. A ponte havia sido quebrada. Débora estava completamente, irrevogavelmente sozinha. Presa na mansão com o cheiro da morte, uma mãe dopada, um caixão fechado e o seu segredo sujo e pulsante.
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