Débora sentiu todos os olhares nela. O do irmão, exigindo lealdade. O da mãe, implorando por apoio. E o de Leo... Ah, o olhar dele era o pior. Estava relaxado, quase divertido, observando-a se debater na armadilha.
Ele sabia. Sabia que ela não podia entregar a mãe sem se entregar junto. O segredo do colar, agora guardado em seu quarto, pesava como uma âncora.
Ela odiava Tiago por colocá-la contra a parede. E odiava Leo por saber que ela estava contra a parede.
— Eu... — A voz dela saiu fraca, trêmula. Ela pigarreou, tentando encontrar firmeza. — Eu acabei de descobrir. Digo, é recente.
Foi a pior resposta possível. Uma meia-mentira que não satisfez ninguém. Tiago estreitou os olhos. Ele a conhecia. Sabia que ela estava escondendo algo.
— Acabou de descobrir? — Ele repetiu, cético. — E não fez nada?
— Tiago, pare de interrogar sua irmã! — Letícia interveio, a voz estridente. — Vocês dois estão agindo como crianças. Esta é a minha casa, e Leo é meu convidado.
— Convidado? — Tiago riu, incrédulo. — Ele está bebendo o uísque do pai como se fosse o dono. Mãe, você não vê o que está acontecendo? Você está sendo enganada por um... um aproveitador qualquer.
— Já chega! — Gritou Letícia, o rosto vermelho de raiva e humilhação. — Saia da minha casa se for para falar assim!
— Eu não vou a lugar nenhum — a voz de Tiago baixou, tornando-se perigosamente calma. Ele ajeitou o paletó. — Pelo visto, alguém precisa ficar de olho nos interesses da família, já que você está... distraída. Vou ficar no meu antigo quarto.
Ele se virou para Leo, que não havia perdido o sorriso de canto.
— E você... aproveite o uísque. Vamos ver quanto tempo sua estadia dura.
Tiago subiu as escadas sem dizer mais uma palavra, deixando um silêncio pesado e mortal para trás. Letícia soltou um soluço contido e saiu da sala na direção oposta, indo para o escritório e batendo a porta.
Débora ficou sozinha no hall com Leo. Ele tomou um gole lento do seu copo, os olhos verdes brilhando sobre a borda de cristal.
— Seu irmão é intenso — ele comentou, casualmente.
Débora o fuzilou com o olhar.
— Fique longe de mim — e saiu, subindo para o seu próprio quarto.
***
A casa se transformou. A tensão s****l e secreta que pulsava entre os quartos agora estava soterrada sob uma camada de gelo. A presença de Tiago era uma vigilância constante. Os jantares se tornaram exercícios de tortura silenciosa, com Tiago e Leo trocando farpas veladas, enquanto Letícia bebia vinho demais e Débora m*l conseguia engolir.
Em uma certa noite, ela não conseguiu ficar trancada. A atmosfera estava sufocante. Ela desceu, precisando de ar, e foi para a área da piscina. A água azul brilhava sob a luz da lua, um oásis de calma no meio da guerra fria.
Ela sentou-se na borda, os pés na água fria, quando a voz dele a fez pular.
— Ele vai magoá-la.
Leo estava parado nas sombras do terraço, observando-a. Ele se aproximou, mas manteve uma distância respeitosa.
— O quê? — Ela perguntou, ríspida.
— Seu irmão — Leo gesticulou em direção à casa. — Ele acha que está protegendo o legado do pai, mas só está destruindo o presente da sua mãe.
Débora não respondeu. Uma parte dela, a parte que viu a mãe radiante no café da manhã, sabia que havia uma fagulha de verdade naquilo.
— Ela estava infeliz, Débora — ele continuou, a voz suave, quase gentil. — Eu sei que você via isso. Ela estava morrendo por dentro. Eu só a fiz lembrar como é viver. Você quer vê-la infeliz de novo, cinzenta e morta como o seu irmão quer?
— Você não sabe nada sobre a minha família — ela cuspiu.
— Eu sei o que eu vejo — ele deu um passo mais perto, saindo das sombras. A luz da piscina iluminava metade do seu rosto. — E eu vejo você.
A mudança no tom dela foi imediata.
— O que você quer, Leo?
Ele sorriu. Aquele sorriso lento que a deixava enjoada e fascinada. Ele se aproximou até parar bem na sua frente, forçando-a a olhar para cima. Sua voz baixou para um sussurro que m*l se ouvia no ar da noite.
— Seu irmão fez uma boa pergunta quando chegou — ele se inclinou, o cheiro dele, uísque e perfume amadeirado, invadindo o espaço dela. — Ele perguntou se você estava compactuando.
Débora congelou.
— O que você acha que ele faria — continuou Leo, a voz agora uma carícia perigosa — se ele soubesse o que você anda vendo escondida, brechando por trás das portas?
Ela parou de respirar. Aquilo nunca mais aconteceria de novo. Ela se levantou e saiu, deixando-o sozinho sob o cobertor da noite.