Quando a noite caiu, o quarto de Débora, antes um santuário, tornou-se uma cela. A conversa com Angélica havia cimentado sua decisão de ficar, mas também havia amplificado cada barulho da casa.
Ela ouvia os passos de Tiago no corredor, a voz da sua mãe vindo da sala, o tilintar de gelo num copo que só podia ser dele.
Uma batida suave na porta a fez pular.
— Filha? O jantar está servido — a voz de Letícia era tensa, forçadamente alegre.
Débora fechou os olhos. Fugir era impossível. Esconder-se era admitir a derrota. Ela teria que descer. Teria que encará-lo.
— Estou indo — respondeu, a voz mais firme do que ela se sentia.
Ela se olhou no espelho. Pálida, os olhos vermelhos, os lábios ainda sensíveis. Parecia uma vítima. Com raiva, ela passou um pouco de rímel e um batom escuro, uma armadura de cor para esconder o pânico.
Quando desceu as escadas, a cena na sala de jantar era uma obra-prima de disfunção. Tiago estava sentado na cabeceira da mesa, o lugar que costumava ser do pai, o laptop fechado ao seu lado como uma arma em espera.
Letícia estava na outra ponta, uma garrafa de vinho já aberta ao seu lado. Leo estava sentado ao lado de Letícia.
O lugar vago para Débora era diretamente oposto a ele.
Ela engoliu em seco e se sentou, o cheiro da comida fazendo seu estômago revirar. O silêncio era tão pesado que o som dos talheres contra os pratos parecia um grito.
— Pensei que você tivesse trabalho em São Paulo, Tiago — disse Letícia, finalmente, servindo-se de uma taça cheia de vinho. — Não precisa se incomodar conosco.
— Meu trabalho é onde meu laptop está — Tiago respondeu, sem tirar os olhos de Leo. — E no momento, meu principal interesse é aqui. Então, "Leo", qual exatamente é o seu ramo? Estelionato não me parece um negócio muito estável.
Leo sorriu, cortando um pedaço de carne. Ele parecia completamente à vontade.
— O passado é um lugar curioso, Tiago. O seu, por exemplo. Deve ser impecável.
— O meu não envolve enganar mulheres vulneráveis.
— Tiago! — Letícia bateu a mão na mesa. — Já chega!
Débora manteve os olhos fixos no prato. A comida tinha gosto de cinzas. Ela podia senti-lo. O olhar de Leo. Não era um olhar de ameaça, era um olhar de posse, de cumplicidade. O olhar de quem compartilhava um segredo. O nosso primeiro segredo.
Ela cravou as unhas na própria coxa, debaixo da mesa, apenas para se manter ancorada, para não gritar. O garfo tremia em sua mão.
— Você está muito quieta, Débora — disse Tiago, de repente, virando sua atenção para ela. — Não tem opinião sobre o... namorado da mamãe?
Débora sentiu o sangue fugir do rosto.
— Eu só quero jantar em paz — ela murmurou.
— E você, querida? — Leo falou, a voz suave, aveludada, e Débora sentiu cada pelo do seu corpo se eriçar. — m*l tocou na comida.
Ela se recusou a olhá-lo. Balançou a cabeça, pegando o copo de água.
— Sem fome.
— Que pena — disse Leo.
Ele continuou falando, respondendo a outra provocação de Tiago sobre suas "qualificações". Débora tentou se concentrar no som da voz do irmão, mas estava consciente demais de cada movimento de Leo.
Foi então que ele se mexeu.
— Ops. Meu guardanapo — ele disse, casualmente.
Ele se inclinou para o lado e desapareceu sob a toalha de mesa. Débora congelou, o copo de água a meio caminho dos lábios. O mundo pareceu parar.
Um segundo depois, ela sentiu.
Um toque.
Não foi acidental. Os dedos dele, quentes, roçaram a pele nua da sua panturrilha. Débora parou de respirar. O toque subiu, lento, deliberado, uma carícia firme que contornou seu joelho e pousou levemente na parte interna de sua coxa.
O copo escapou dos seus dedos.
Um barulho explosivo de vidro batendo no prato e a água gelada se espalhando pela mesa, molhando a toalha e escorrendo para o seu colo.
Tudo parou.
— Débora! — Exclamou Letícia, irritada. — Meu Deus, que desastrada!
Débora estava paralisada, o peito arfando, os olhos arregalados de horror, olhando para a bagunça que havia feito.
— Você está bem? — A voz de Tiago estava afiada, desconfiada. — Você parece que viu um fantasma.
Leo ressurgiu de debaixo da mesa. Ele tinha o guardanapo na mão e um olhar de mais pura e inocente preocupação.
— Está tudo bem, Débora? — Ele perguntou, a voz cheia de uma falsa solicitude.