Trancada. Segura. E em pânico. Débora permaneceu de costas contra a porta, o som das três voltas da chave ainda ecoando em sua mente. O silêncio do seu quarto era seu único aliado. A mão dela, ainda trêmula, deslizou do pescoço para o peito, tateando em desespero, como se pudesse materializar o que havia perdido.
Nada.
— Não, não, não... — ela sussurrou para o escuro.
O pavor a fez deslizar pela madeira e cair sentada no chão. A fuga desesperada, o som da corrente arrebentando, a visão dele, enorme... tudo rodopiava. Ela tinha que ter certeza.
Engatinhando, acendeu o abajur ao lado da cama. A luz suave e quente era uma zombaria diante do frio em seu estômago. Ela procurou freneticamente, passando as mãos pelo tapete felpudo, rastejando pelo mármore gelado perto da porta, sacudindo o robe que usava.
Não estava lá. A constatação a atingiu como um soco. O colar estava no corredor. Caído em frente à porta de sua mãe. No território dele.
Ela não podia sair para procurar. Não podia arriscar encontrá-lo esperando por ela no escuro. Estava presa, e a prova da sua humilhação estava lá fora, esperando pelo amanhecer.
***
A noite não trouxe sono. Foi um borrão de ansiedade, vergonha e o cheiro fantasma de sexo e suor que ela não conseguia lavar da sua memória.
A luz da manhã foi uma bofetada. Quando Débora se olhou no espelho, a imagem que a encarou era de derrota. Estava pálida, com olheiras escuras e profundas que denunciavam a noite em claro. Ela parecia uma presa exausta. Mas se esconder no quarto seria uma admissão de culpa, uma vitória que ela não daria a Leo.
Respirou fundo, prendeu o cabelo num coque desleixado e vestiu a primeira roupa que viu. Cada passo para fora do quarto foi calculado. O corredor estava vazio, limpo. Não havia sinal do colar. O estômago dela se revirou.
Ela desceu as escadas como quem caminha para a forca. A cena na sala de refeições era de uma normalidade doentia. Letícia, por outro lado, estava radiante.
Usava um vestido leve, o cabelo solto, e flutuava pela sala, a pele brilhando com a satisfação de uma noite bem dormida. Leo estava ao seu lado, de camisa polo e calça de linho, servindo-lhe uma xícara de café. O namorado perfeito.
— Bom dia, meu anjinho — disse Letícia, sorrindo para a filha. — Você parece cansada.
— Noite r**m — Débora murmurou, sentando-se o mais longe possível deles.
Ela pegou uma xícara, mas suas mãos tremiam demais para servir o café. O tilintar da porcelana parecia um alarme de incêndio. Ela m*l conseguia olhar para Leo, mas sentia o olhar dele nela.
Não era um olhar agressivo; era calmo, satisfeito. Um olhar de posse. Ele sabia exatamente o efeito que estava causando. Ela empurrou uma fatia de mamão pelo prato, incapaz de comer.
— Querida, vou resolver umas coisas da empresa hoje, o que acha de irmos ao... — Letícia parou quando seu celular tocou na bancada. — Ah, espera. É do escritório. Preciso atender, meu bem. Já volto.
Letícia deu um selinho em Leo e saiu da sala, sua voz já assumindo um tom profissional no corredor. Ah, não, ela pensou. De novo, não.
O silêncio que se instalou era pesado, oleoso. Débora manteve os olhos fixos no prato, o coração batendo descompassado. Ela ouviu o leve farfalhar de tecido quando Leo se moveu.
Ele não disse uma palavra. Do outro lado da mesa, a mão dele deslizou para o bolso da calça. E então, surgiu sobre o mogno escuro.
Leo empurrou o objeto lentamente sobre a madeira polida, na direção dela. O arrastar do metal foi o único som na sala, um ruído agudo que arranhou os nervos de Débora.
Era o seu colar. A corrente de ouro estava partida, mas o pequeno pingente que seu pai lhe dera brilhava sob a luz da manhã.
Débora encarou o objeto, a prova física da sua vergonha, agora manchada pelo toque dele. Do corredor, ela ouviu a voz da mãe, mais próxima:
— ...resolvido então. Te ligo mais tarde, tchau.
Segundos. Ela tinha segundos.