Débora ficou no chão, as lágrimas secando em seu rosto, deixando a pele repuxada. O som da porta batendo ainda ecoava em seus ouvidos. Tiago se fora. E com ele, qualquer esperança de uma linha de defesa.
Ela o protegeu.
A constatação era doentia. Ela havia mentido, gritado e atacado seu próprio irmão, a única pessoa que via Leo pelo que ele era.
E para quê? Para esconder um toque. Para esconder um beijo. Para esconder o fato de que ela era uma participante fraca e aterrorizada no jogo dele.
O silêncio da casa voltou, mas agora era diferente. Era um silêncio cúmplice. Ela estava sozinha, e a casa inteira parecia saber.
Ela se arrastou para o chuveiro, a necessidade de lavar o dia de si era avassaladora. Deixou a água quente cair sobre seus ombros, tentando lavar o toque fantasma em sua coxa, o gosto dele em seus lábios, a sujeira da mentira em sua língua.
Não adiantou.
Quando saiu, enrolada na toalha, seu celular vibrou na cama. Uma luz solitária no quarto escuro.
O estômago dela despencou. Ela sabia quem era. Era o mesmo número desconhecido que havia mandado a foto da sua mãe.
Uma única mensagem.
"Você mente muito bem. Quase acreditei."
O ar saiu dos pulmões de Débora como se ela tivesse levado um soco. Ele... ele ouviu? Ele estava do lado de fora da porta?
A ideia de que ele estava ali, parado, escutando-a defender a mentira, a fez sentir-se nua de uma forma que nem a espionagem ou o toque conseguiram.
Os dedos dela tremeram, digitando uma resposta. "Me deixa em paz."
A resposta dele foi instantânea. "Biblioteca. Agora."
Uma ordem. Fria e direta. Débora sentiu uma onda de raiva misturada ao pânico. "Não. Nunca mais fale comigo."
Ela jogou o celular na cama, o coração batendo descontrolado. Ele não podia obrigá-la. Ela estava em seu quarto, trancada.
O celular vibrou de novo.
"Tudo bem. Se você não vier até mim, eu vou até você. Tenho certeza que o Tiago ainda está acordado. Seria uma pena estragar a sua atuação."
Xeque-mate.
Débora encarou a tela, o sangue gelando. Era uma armadilha perfeita. Se ela ficasse, ele viria. Ele bateria na porta. E Tiago, que já estava com a pulga atrás da orelha, ouviria. A mentira que ela lutou tanto para contar seria exposta no mesmo instante. Ele a faria parecer uma idiota... ou uma cúmplice voluntária.
Ela estava completamente e totalmente encurralada. Ir até ele era sua única opção.
Com as mãos dormentes, ela se vestiu no escuro. Calça de moletom, uma camiseta. Roupas que não faziam barulho. Descalça.
Ela girou a chave, o clique parecendo um trovão. Abriu a porta centímetro por centímetro, o coração na garganta.
O corredor estava escuro, silencioso. A porta do quarto de Tiago, a poucos metros, estava fechada. A de sua mãe, no fim do corredor, também.
Cada passo no mármore frio era uma tortura. Ela se sentia uma ladra em sua própria casa. Cada sombra parecia abrigar seu irmão, pronto para saltar e perguntar o que ela estava fazendo.
Ela desceu as escadas como um fantasma. A casa estava quieta, adormecida.
A porta da biblioteca estava entreaberta, um retângulo de escuridão mais profunda. Ela empurrou, e a porta girou sem um som. O cômodo estava escuro, o cheiro de livros antigos e couro a envolveu.
Ele não estava lá.
Débora parou, confusa. Seu coração batia tão forte que ela podia ouvi-lo.
Então ela viu. As grandes portas de vidro que davam para a varanda dos fundos estavam abertas, a cortina de linho balançando suavemente com a brisa noturna.
Ele estava lá fora. De costas para ela, uma silhueta escura contra o brilho da lua no jardim. Apoiava-se na balaustrada de pedra, casualmente, como se estivesse apenas apreciando a noite.
Ela deu um passo para a varanda. A pedra estava fria sob seus pés.
Ele não se virou. Mas falou, a voz baixa e calma, cortando o silêncio da noite.
— Demorou.