Os dedos de Débora se fecharam sobre o metal. O movimento foi um espasmo, rápido como o bote de uma cobra. Ela puxou a corrente partida para o colo, escondendo-a sob o guardanapo no instante em que sua mãe reapareceu na porta, o celular já guardado.
— Pronto, resolvido — disse Letícia, voltando ao seu lugar, completamente alheia. — Onde eu estava? Ah, sim. O spa...
Débora não ouvia. O pingente parecia queimar através do tecido em sua coxa. Ela sentiu os olhos de Leo sobre ela, um peso físico, e teve que lutar contra o impulso de olhar para ele. Se olhasse, tinha certeza de que sua mãe veria o segredo estampado no seu rosto.
— Filha? Você está me ouvindo? — A voz de Letícia tinha um toque de impaciência.
— Desculpe, mãe. Acordei com dor de cabeça — mentiu Débora, empurrando a cadeira para trás. — Vou subir para tomar um remédio.
Ela se levantou sem esperar resposta, o guardanapo ainda seguro na mão, e subiu as escadas quase correndo. Só quando trancou a porta do quarto, ela abriu a mão. O ouro estava quente do calor do seu corpo. A prova de sua humilhação agora estava de volta em sua posse, mas parecia mil vezes mais suja.
***
A tensão na casa se tornou um veneno silencioso. Débora passou o resto da manhã e o início da tarde trancada no quarto, evitando a todo custo outro encontro. Mas a mansão, antes um refúgio, agora parecia pequena demais.
No meio da tarde, o som de pneus no cascalho da entrada chamou sua atenção. Não era o rugido do Mercedes de Leo. Este era um som mais baixo, controlado.
Da janela do seu quarto, ela viu um Audi A8 preto e lustroso parar atrás do carro de sua mãe. Um homem saiu do banco do motorista.
O coração de Débora deu um salto, desta vez não de medo, mas de um misto de alívio e ansiedade.
Tiago.
Seu irmão mais velho era a personificação do legado do pai. Alto, mas de uma forma diferente de Leo. Onde Leo era músculo atlético e bronzeado, Tiago era estrutura e elegância fria.
Vestia um terno feito sob medida, o cabelo escuro perfeitamente alinhado. Ele carregava uma pasta de couro e uma energia analítica que parecia sugar o calor do ambiente.
Débora desceu as escadas correndo, uma alegria genuína a invadindo. Tiago era seu protetor, a única pessoa que parecia entender o luto que ela ainda sentia.
— Tiago! — Ela o chamou, encontrando-o no hall de entrada.
— Débora — ele lhe deu um abraço rápido e firme, mais um gesto de posse do que de afeto. — Você está pálida. Não está comendo direito?
Antes que ela pudesse responder, a voz de Letícia veio da sala de estar:
— Tiago? Que surpresa! Você não avisou que vinha.
A cena que recebeu Tiago foi um golpe. Letícia estava relaxada no sofá, rindo, uma taça de vinho na mão. Ao lado dela, Leo, vestindo uma camisa casual de linho e jeans caros, segurava um copo do melhor uísque da adega de Rodrigo Viana. Ele estava recostado, perfeitamente à vontade, como se fosse o dono do lugar.
O sorriso de Tiago desapareceu. Seu rosto se tornou uma máscara de desprezo gelado.
— Mãe.
— Tiago, querido, que bom que veio. Quero que conheça uma pessoa — disse Letícia, levantando-se, claramente nervosa com a mudança no ar. — Este é Leo Monteverde. Leo, este é meu filho, Tiago.
Leo se levantou, sem pressa, e estendeu a mão com um sorriso fácil.
Tiago o ignorou completamente. Seus olhos varreram Leo de cima a baixo, e o desdém era palpável.
— Quem diabos é você? — A voz de Tiago era baixa, cortante.
O sorriso de Leo vacilou por um segundo. Letícia engasgou.
— Tiago! Que modos são esses? Ele é meu... meu namorado.
— Namorado? — Tiago soltou uma risada curta, sem humor. — A memória do pai m*l tem um ano e você coloca um... desses dentro da casa dele? Bebendo o uísque dele?
— Já chega! — Letícia tentou soar firme, mas sua voz tremeu. — Você não tem o direito de falar assim comigo!
— Eu tenho todo o direito. Este ainda é o meu nome, o nome do meu pai — retrucou Tiago, a voz subindo. Ele se virou para Leo, que assistia a tudo com um interesse quase divertido. — Saia desta casa.
— Tiago! — Gritou Letícia. — Ele não vai a lugar nenhum!
A briga escalou, as vozes ecoando pelo mármore. Débora ficou parada na porta, congelada. O alívio que sentira ao ver o irmão havia se transformado em pavor. Ela queria que Leo sumisse, mas a briga e a sua mãe se impondo contra o filho por ele a fez recuar.
Foi então que Tiago se virou para ela. Sua raiva estava focada, seus olhos escuros perfurando-a.
— Débora — ele baixou a voz, o que era ainda mais assustador. — Você estava aqui. Você sabia desse... insulto? Você estava compactuando com isso?