O dia seguinte amanheceu pesado, como se a mansão estivesse submersa em águas turvas. A breve demonstração de força de Débora na noite anterior - virar as costas para Leo e simplesmente ir embora - havia lhe custado uma noite inteira de sono.
Ela estava com raiva, mas também apavorada. A ameaça dele, mesmo que ela a tivesse rejeitado, ainda pairava no ar. O café da manhã foi a arena escolhida por Tiago.
Ele já estava sentado à cabeceira da mesa quando Débora desceu, parecendo ser o único que havia dormido bem. Estava impecável em sua camisa social, um laptop aberto ao lado do prato.
Letícia entrou logo depois, o rosto inchado de quem havia chorado ou bebido demais. Leo foi o último, entrando na sala com sua calma habitual, o que pareceu enfurecer Tiago ainda mais.
— Bom dia — disse Tiago, o tom cortante. — Fico feliz que estejam todos aqui. Passei a noite fazendo o que você deveria ter feito, mãe. Uma verificação de antecedentes.
Letícia, que estava prestes a pegar uma xícara, congelou.
— Tiago, pelo amor de Deus, não comece.
— Ah, eu já comecei. E terminei — ele girou a tela do laptop. — É fascinante. "Leo Monteverde" não existe. Pelo menos, não como um empresário idôneo do ramo imobiliário, como ele alega ser.
Leo recostou-se na cadeira, os olhos verdes fixos em Tiago, sem demonstrar surpresa.
— Mas — continuou Tiago, saboreando o momento — eu achei algo interessante. Um nome. Leonardo Silveira. E este sim tem um registro. Passagem por estelionato.
Débora prendeu a respiração. O garfo caiu da mão de Letícia, batendo no prato com um barulho agudo.
— Isso é mentira! — A voz de Letícia falhou. — Você... você forjou isso! Você está fazendo isso por ciúmes, para me controlar!
— Eu estou protegendo o patrimônio do nosso pai! — Tiago rebateu, o rosto vermelho. — Acorde, mãe! Ele é um golpista!
— Saia! — Gritou Letícia, as lágrimas agora escorrendo de raiva. — Saia da minha casa!
A briga foi feia, terminando com Letícia correndo para o escritório, aos prantos. Tiago olhou para Débora, o olhar duro.
— Você vai continuar cega também?
Débora não respondeu. Estava pálida, enjoada. Um manipulador era uma coisa. Um criminoso condenado era outra.
Ela esperou. Precisava saber. Encontrou Leo mais tarde, na biblioteca, onde ele folheava um dos livros de arte do seu pai como se tivesse todo o direito de estar ali.
A sala estava silenciosa. Ela fechou as portas atrás de si.
— É verdade? — Ela perguntou, a voz baixa, mas firme.
Leo levantou os olhos do livro, lentamente. O sorriso de escárnio havia desaparecido.
— O que exatamente?
— Não brinque comigo. Meu irmão estava falando a verdade? Você é um criminoso?
Ele fechou o livro e o colocou de volta na prateleira. Pela primeira vez, desde que chegara, ele a olhou sem um pingo de ironia. Havia algo mais sombrio, mais real em seu olhar.
— Monteverde é o nome da minha mãe. É o que eu uso — ele admitiu, a voz grave. — E sim, há muito tempo, eu tive problemas. Fiz coisas que precisava para sobreviver.
Débora deu um passo para trás, o estômago gelando.
— Então... ele estava certo. Você é um golpista.
— Estava? — Leo se moveu, não rápido, mas com uma fluidez que a impediu de recuar mais. Ele parou a menos de um metro dela. — Ou ele só achou um passado que eu não faço questão de esconder de quem importa?
A confissão a desarmou. Ela esperava negação, mentiras. A honestidade crua era uma tática que ela não previa.
— Eu sei o que é ter um passado, Débora — ele continuou, a voz baixando para aquele tom íntimo que a fazia se arrepiar. — Eu sei o que é fazer coisas das quais não se orgulha.
Ele se aproximou mais, invadindo seu espaço, encurralando-a suavemente contra a estante de mogno.
— Eu vejo como você me olha. Eu sei os segredos que você guarda.
Sua mão subiu, e ele tocou o rosto dela, o polegar roçando levemente sua bochecha. O toque era leve, quase reverente, mas queimava como fogo.
— A diferença — ele sussurrou, os lábios perigosamente perto dos dela — é que os meus segredos são antigos. Os seus... estão acontecendo agora.
Então ele a beijou.