A pergunta inocente de Leo pairou sobre a mesa, encharcada de veneno.
Débora não conseguia formar uma palavra. Ela estava congelada, o peito arfando, a água gelada escorrendo do seu colo para a cadeira, mas tudo o que sua pele sentia era o calor fantasma dos dedos dele em sua coxa. Um toque que a havia marcado a fogo.
— Pelo amor de Deus, Débora, pegue um pano! Que bagunça! — A voz de Letícia estava afiada, irritada pela interrupção do seu drama.
A ordem da sua mãe foi a corda de fuga.
— Eu... eu me molhei — gaguejou Débora, a voz estrangulada. Ela empurrou a cadeira para trás, o som arrastado no chão soando como um grito. — Preciso... preciso me trocar.
Ela não deu a ninguém a chance de responder. Praticamente correu para fora da sala de jantar, sem olhar para trás. Não ousou olhar para Leo, mas podia sentir o sorriso satisfeito dele queimando em suas costas.
E ela podia sentir o olhar de Tiago. Analítico, desconfiado e afiado, seguindo-a até que ela virasse o corredor.
Ela subiu as escadas, tropeçando nos próprios pés. A porta do quarto. A chave. O clique do trinco.
Finalmente, a sós.
Ela se encostou na porta, o corpo inteiro tremendo em espasmos violentos. O vestido estava encharcado, mas parecia sujo, contaminado. Ela o arrancou, puxando o zíper com dedos trêmulos e jogando a peça molhada no chão como se fosse lixo.
O desgraçado. O nojento. Ele a tocou. Ele a tocou na frente de todos. Na frente do seu irmão, na frente da sua mãe, debaixo da mesa, e saiu impune. A audácia daquilo a deixou sem ar.
Uma batida soou na porta. Firme, autoritária.
— Débora. Abra a porta.
Tiago.
Ela se encolheu.
— Me deixa em paz!
— Abra a porta agora. Ou eu vou arrombar — a voz dele não deixava espaço para negociação.
Tremendo, ela puxou o robe de seda do cabide e o vestiu, amarrando o cinto com força. Abriu o trinco, mas deixou a corrente de segurança no lugar.
— O que você quer?
Ela o viu através da fresta. O rosto dele era uma máscara de fúria controlada.
— Tire a corrente, Débora.
Hesitante, ela obedeceu. Tiago entrou e fechou a porta atrás de si. O tamanho dele pareceu encher o quarto, sua energia fria colidindo com o pânico quente dela.
— O que ele fez com você? — A pergunta foi direta, sem rodeios.
Ela recuou um passo. O instinto de proteção, a lealdade familiar, a fizeram querer contar tudo.
— Ninguém fez nada. Eu só... eu derrubei o copo.
— Não minta para mim! — Ele sibilou, a voz baixa e perigosa. — Eu estava te observando. Você não tremeu porque derramou a água. Você tremeu antes. Você ficou pálida como a morte antes do copo cair. O que ele fez debaixo daquela mesa?
Ela estava encurralada. A verdade era impossível. Contar seria admitir uma humilhação que ela não tinha como provar. Seria uma guerra aberta onde ela era a única testemunha, e Leo apenas negaria.
E pior... se ela contasse do toque, Tiago cavaria mais fundo. O que mais ele fez? E a verdade sobre o beijo, sobre a espionagem, viria à tona.
O pânico se transformou em raiva. A única saída era atacar.
— O que vocês fizeram! — Ela cuspiu, a voz quebrando. — Foi isso!
Tiago franziu a testa, pego de surpresa pela acusação.
— O que você quer dizer?
— Vocês! Você chega aqui, age como o dono de tudo, atacando a mamãe, atacando ele... A casa virou um inferno! — Lágrimas de frustração e raiva agora escorriam pelo seu rosto. — Você acha que eu aguento essa pressão? Você acha que eu gosto de sentar naquela mesa com vocês dois se matando? Eu estou no limite!
Ela o empurrou no peito, um gesto fraco.
— Você me assustou com esse seu interrogatório! Você me deixou nervosa! Foi isso! A culpa é sua!
Tiago a encarou, o peito subindo e descendo. Ele procurava por algo no rosto dela, uma rachadura na história. Ele não parecia totalmente convencido, mas a histeria dela era real.
— Se ele tocar em você, Débora... se ele respirar perto de você...
— Ele não tocou em mim! — Ela gritou, a mentira queimando sua língua. — Ninguém tocou em mim! Agora sai do meu quarto! SAIA!
Ele a olhou por mais um longo segundo, a mandíbula cerrada. Ele sabia que havia algo errado, mas a barreira de histeria dela era impenetrável por enquanto.
Tiago se virou e saiu, batendo a porta com força.
Débora girou a chave, trancando-se novamente. E então, suas pernas cederam.
Ela deslizou pela porta até o chão, o robe de seda se abrindo ao seu redor. As lágrimas agora eram silenciosas, frias. Ela acabou de fazer o impensável.
Ela mentiu para seu irmão. Ela gritou com seu único aliado.
Ela o protegeu.
Estava sozinha. E Leo sabia disso.