A palavra flutuou no silêncio do corredor. Chupa. Não foi uma sugestão, foi uma ordem. Baixa, grave e cheia de uma certeza que fez o sangue de Débora gelar e ferver ao mesmo tempo. Ele era louco.
E estava ali, a poucos centímetros, a silhueta escura bloqueando a luz do quarto, o cheiro de sexo e suor envolvendo-a como uma névoa densa. Ela não conseguia respirar. A visão dele, tão perto, tão crua, era um soco no estômago.
O mundo de Débora encolheu àquele momento: o olhar dele, o comando impossível e o som do próprio coração trovejando nos ouvidos. Ela estava paralisada, presa entre a humilhação absoluta e um terror que a deixava sem ação.
Então, de dentro do quarto, a voz de Letícia quebrou o feitiço.
— Leo? Amor... está tudo bem? Você está falando com quem aí fora?
A voz da mãe. Sonolenta, manhosa e completamente alheia. Foi o choque de realidade, a água gelada que finalmente quebrou o transe hipnótico de Débora. O nojo, não dele, mas de si mesma por estar ali, por ter olhado, por ter querido olhar, subiu como bile. A adrenalina do pânico finalmente inundou suas veias.
Leo não se moveu. O sorriso dele no escuro era quase audível, uma provocação silenciosa que dizia que ela podia fugir, mas ele já tinha vencido.
Ela deu um passo para trás, desajeitado. A mão dele ainda estava na maçaneta, segurando a porta aberta. Débora se esquivou dele, um movimento brusco para longe do calor do corpo dele. Ela não podia tocá-lo. Se tocasse, achava que ia gritar.
No seu giro desesperado para correr, ela se moveu rápido demais. O colar fino em seu pescoço - um presente do pai, um pequeno pingente de ouro que ela nunca tirava - enganchou com força na maçaneta da porta do quarto.
O metal frio puxou sua pele. A corrente fina estalou e arrebentou. Débora sentiu o puxão agudo, mas o pânico era uma força maior. Ela não parou, não olhou para trás. A única coisa que importava era a porta do seu próprio quarto, sua única segurança.
Ela correu pelo corredor escuro, os pés descalços batendo silenciosamente no mármore. O som da sua própria respiração ofegante era a única coisa que ela ouvia.
Ela se jogou para dentro do seu quarto, bateu a porta com uma força que fez o quadro na parede tremer e girou a chave. Uma, duas, três vezes. O clique metálico do trinco era o som mais seguro do mundo.
Só então ela se permitiu respirar. Débora desabou contra a madeira sólida da porta, as costas pressionadas contra ela, as pernas tremendo tanto que m*l a sustentavam. Ela estava hiperventilando, tentando puxar o ar para os pulmões, mas tudo o que sentia era o cheiro dele, como se tivesse se impregnado nela, na sua pele, no seu cabelo.
Ela se sentia suja. Violada. Cúmplice. Levou a mão trêmula ao peito, tentando acalmar a batida selvagem do coração, e seu sangue gelou. Os dedos tocaram a pele nua do seu pescoço.
O colar. Ela tateou o chão do quarto escuro ao seu redor, o pânico subindo novamente, agora mais frio e agudo. Nada. Ele não estava ali.