A pergunta de Tiago pairou no ar, afiada e perigosa: O que você estava fazendo na varanda ontem à noite, Débora?
Débora sentiu o olhar de Leo, um peso quente sobre ela. Ele não a estava ajudando. Estava se divertindo, assistindo-a se contorcer, com o pequeno elástico preto ainda estendido na palma da mão.
Ela respirou fundo, forçando o ar para os pulmões que pareciam ter encolhido. A única saída era a meia-verdade, a mentira que beirava o real.
— Eu não conseguia dormir — sua voz saiu surpreendentemente firme. Ela se levantou e caminhou até Leo. A proximidade forçada fez sua pele formigar. — Esta casa está me sufocando. Precisava de ar.
Ela arrancou o elástico da mão dele, o contato dos seus dedos durando um segundo a mais do que o necessário. O calor da pele dele pareceu marcá-la.
Tiago soltou um suspiro de pura frustração. Ele sabia que era uma desculpa, mas não tinha como provar. Ele não disse mais nada.
Apenas fechou o laptop com um baque surdo, levantou-se e saiu da sala de jantar, deixando um vácuo gelado em seu lugar.
— Francamente — disse Letícia, revirando os olhos. — Ele está insuportável.
Leo apenas sorriu para Débora por cima da xícara de café. Um sorriso que dizia: Eu te peguei.
***
Os dias seguintes se dissolveram em um novo e tenso normal. A mansão Viana virou um campo de gelo, e Tiago se tornou um fantasma movido por uma obsessão que ninguém entendia.
Ele m*l parava em casa. Saía antes mesmo de Letícia ou Leo acordarem, o som do seu carro sendo a primeira coisa que Débora ouvia pela manhã. Voltava tarde, o rosto pálido e cansado, os olhos fundos, mas com um fogo determinado que a assustava.
Ele parou de falar com a mãe por completo, ignorando as tentativas dela de reconciliação. Com Débora, era ainda pior. Ele não a acusava mais; ele apenas a observava.
Quando se cruzavam no corredor, seus olhos pareciam perguntar: De que lado você está? E a culpa do que acontecera na varanda a forçava a desviar o olhar primeiro.
Para Letícia e Leo, Tiago era apenas um problema inconveniente, um homem adulto de luto agindo como uma criança birrenta.
— Ele está de luto, Leo. E com raiva de mim — Letícia dizia, servindo uma taça de vinho para ele no sofá, enquanto ouviam o carro de Tiago mais uma vez sair cantando pneus.
— Ele é um homem adulto, Letícia — respondia Leo, a voz cheia de desdém. Ele pegou a mão dela, beijando os nós dos dedos. — Está agindo assim porque não conseguiu o que queria: me expulsar. Deixe-o. Ele vai se cansar e voltar para São Paulo.
Mas Débora sabia que não era isso. Ela o via de relance em seu escritório, o antigo escritório do pai, com o celular pressionado contra a orelha, falando em voz baixa e furiosa. Via as pilhas de papéis em sua mesa. Ele não estava de luto. Ele estava caçando.
Ela só não sabia o quê. E estava apavorada demais para perguntar.
Ela se tornou uma prisioneira em sua própria casa, dividida entre o medo do que Tiago poderia descobrir e o terror do que Leo já sabia.
Cada noite era uma tortura. Ela trancava a porta, mas o silêncio parecia amplificar o perigo. E no meio da escuridão, ela se lembrava. O gosto dele. O peso da sua mão em sua nuca. A sensação da sua boca tomando seu clitóris...
Naquela noite, uma semana após a varanda, ela estava na janela do seu quarto, observando a chuva fina cair no jardim. A casa estava quieta. Tiago não estava em casa. Letícia e Leo tinham se recolhido ao quarto principal horas atrás.
O silêncio foi quebrado pela vibração do seu celular na cama.
Era ele. O número desconhecido.
O coração dela parou. Ela não queria olhar. Mas, como sempre, ela não conseguiu resistir.