A luz da manhã foi uma agressão.
Quando Débora acordou, por um segundo glorioso, ela não se lembrou. Havia apenas o sol invadindo o quarto e o cheiro de café subindo da cozinha.
Então, a memória a atingiu, um golpe físico que a fez encolher na cama.
A varanda. A pedra fria em seus joelhos. O gosto dele. O toque dele. O orgasmo silencioso e humilhante.
Ela correu para o banheiro e vomitou.
Foi um espasmo violento, seco, que deixou sua garganta ardendo e seus olhos lacrimejando. Ela se apoiou na pia de mármore, o corpo tremendo, e se olhou no espelho.
A mesma garota pálida de ontem. Mas hoje, algo estava irrevogavelmente quebrado. Ela se sentia suja, por dentro e por fora. Ela esfregou os dentes até a gengiva sangrar, mas o gosto fantasma dele parecia ter se infiltrado em seu sangue.
O pior de tudo era a pequena, traiçoeira e vibrante brasa de calor que ainda pulsava baixo em seu ventre.
Ela não podia se esconder. Se não descesse, Leo saberia que a havia quebrado. E Tiago, sempre o observador, notaria sua ausência e suas suspeitas aumentariam.
Ela estava presa, forçada a usar uma máscara de normalidade sobre a podridão que sentia.
O banho foi escaldante. Ela esfregou a pele com a bucha até ficar vermelha, tentando apagar o rastro das mãos dele, o toque dos lábios dele em sua pele. Não adiantou.
Ela se vestiu como um soldado se armando para a guerra: jeans, uma blusa de gola alta. Nada que mostrasse pele. Nada que convidasse.
Quando desceu as escadas, cada passo era uma contagem regressiva. O som de vozes na sala de jantar fez seu estômago se contrair.
A cena era de uma normalidade quase insana. Tiago estava na cabeceira, o laptop aberto, o rosto uma máscara de concentração fria. Letícia estava na ponta oposta, folheando uma revista de decoração, uma falsa calma em seus gestos.
O lugar de Leo, ao lado de Letícia, estava vazio.
Débora sentiu um alívio tão forte que suas pernas quase cederam. Ela se sentou em seu lugar de sempre - de frente para onde ele se sentaria - e pegou a xícara de café. Suas mãos tremiam visivelmente.
— Noite difícil, Débora? — A voz de Tiago era cortante. Ele não ergueu os olhos do laptop.
— Só... não dormi bem — ela murmurou, focando toda a sua energia em levar a xícara aos lábios sem derramar.
— Nenhum de nós — disse Letícia, virando uma página com força. — Esta casa está insuportável.
Foi então que ele entrou.
Leo parecia ter tido a melhor noite de sono da sua vida. Estava relaxado, os cabelos úmidos do banho, vestindo uma camisa de linho clara. Ele entrou na sala cheirando a sabonete caro e café.
Ele sorriu para Letícia, inclinou-se e deu-lhe um beijo na testa, um gesto de carinho que fez o vômito subir pela garganta de Débora novamente.
— Bom dia, meu bem. Bom dia, Tiago.
Tiago apenas grunhiu em resposta.
Então, Leo se sentou. E seus olhos encontraram os dela.
O mundo de Débora parou. Ela esperava escárnio, triunfo, talvez até uma ameaça. Não havia nada disso.
O olhar dele era calmo. Quente. E devastadoramente íntimo.
Foi um olhar que disse eu sei o gosto que você tem. Um olhar que a despiu na frente da sua família, que a lembrou do frio da pedra em seus joelhos, do calor da boca dele em sua b****a.
Um olhar que a reivindicou, silenciosamente, como sua.
Débora engasgou com o café, desviando o olhar primeiro. A xícara bateu no pires com um som agudo. Seu rosto inteiro queimou. Ela podia sentir o rubor subindo por seu pescoço, odiando sua própria pele por traí-la.
— Você está bem, querida? — Perguntou Letícia, distraída.
— Sim. Só... engasguei.
Leo começou a falar com Letícia sobre o tempo, algo sobre a piscina. A voz dele, tão calma e normal, era uma tortura.
Cada sílaba parecia direcionada a ela, um lembrete de como aquela mesma voz havia sussurrado comandos para ela no escuro.
Ela não aguentou.
— Perdi a fome — ela empurrou a cadeira para trás, o som arrastado no piso.
Ela se levantou para sair, desesperada por ar.
— Ah, Débora, antes que eu me esqueça — a voz de Leo a parou no meio do caminho.
Ela congelou, mas não se virou.
— O que foi? — Ela perguntou, a voz tensa.
— Você deixou cair isso na varanda ontem à noite — sua voz era casual, leve. — Quase pisei quando fui olhar a lua.
Ela se virou lentamente. Ele estava estendendo a mão. Em sua palma, estava o pequeno elástico de cabelo preto que ela usava no pulso.
Ela não se lembrava de tê-lo perdido.
Tiago ergueu os olhos do laptop, a testa franzida.
— Na varanda? O que você estava fazendo na varanda ontem à noite, Débora?
Débora encarou o pequeno objeto na mão de Leo, seu coração batendo não de pânico, mas de uma nova e terrível compreensão. Ele não a estava expondo.
Ele estava marcando território. Ele estava mostrando a ela, e só a ela, que ele podia destruí-la quando quisesse.