Capítulo 24

866 Words
A luz da manhã foi uma agressão. Quando Débora acordou, por um segundo glorioso, ela não se lembrou. Havia apenas o sol invadindo o quarto e o cheiro de café subindo da cozinha. Então, a memória a atingiu, um golpe físico que a fez encolher na cama. A varanda. A pedra fria em seus joelhos. O gosto dele. O toque dele. O orgasmo silencioso e humilhante. Ela correu para o banheiro e vomitou. Foi um espasmo violento, seco, que deixou sua garganta ardendo e seus olhos lacrimejando. Ela se apoiou na pia de mármore, o corpo tremendo, e se olhou no espelho. A mesma garota pálida de ontem. Mas hoje, algo estava irrevogavelmente quebrado. Ela se sentia suja, por dentro e por fora. Ela esfregou os dentes até a gengiva sangrar, mas o gosto fantasma dele parecia ter se infiltrado em seu sangue. O pior de tudo era a pequena, traiçoeira e vibrante brasa de calor que ainda pulsava baixo em seu ventre. Ela não podia se esconder. Se não descesse, Leo saberia que a havia quebrado. E Tiago, sempre o observador, notaria sua ausência e suas suspeitas aumentariam. Ela estava presa, forçada a usar uma máscara de normalidade sobre a podridão que sentia. O banho foi escaldante. Ela esfregou a pele com a bucha até ficar vermelha, tentando apagar o rastro das mãos dele, o toque dos lábios dele em sua pele. Não adiantou. Ela se vestiu como um soldado se armando para a guerra: jeans, uma blusa de gola alta. Nada que mostrasse pele. Nada que convidasse. Quando desceu as escadas, cada passo era uma contagem regressiva. O som de vozes na sala de jantar fez seu estômago se contrair. A cena era de uma normalidade quase insana. Tiago estava na cabeceira, o laptop aberto, o rosto uma máscara de concentração fria. Letícia estava na ponta oposta, folheando uma revista de decoração, uma falsa calma em seus gestos. O lugar de Leo, ao lado de Letícia, estava vazio. Débora sentiu um alívio tão forte que suas pernas quase cederam. Ela se sentou em seu lugar de sempre - de frente para onde ele se sentaria - e pegou a xícara de café. Suas mãos tremiam visivelmente. — Noite difícil, Débora? — A voz de Tiago era cortante. Ele não ergueu os olhos do laptop. — Só... não dormi bem — ela murmurou, focando toda a sua energia em levar a xícara aos lábios sem derramar. — Nenhum de nós — disse Letícia, virando uma página com força. — Esta casa está insuportável. Foi então que ele entrou. Leo parecia ter tido a melhor noite de sono da sua vida. Estava relaxado, os cabelos úmidos do banho, vestindo uma camisa de linho clara. Ele entrou na sala cheirando a sabonete caro e café. Ele sorriu para Letícia, inclinou-se e deu-lhe um beijo na testa, um gesto de carinho que fez o vômito subir pela garganta de Débora novamente. — Bom dia, meu bem. Bom dia, Tiago. Tiago apenas grunhiu em resposta. Então, Leo se sentou. E seus olhos encontraram os dela. O mundo de Débora parou. Ela esperava escárnio, triunfo, talvez até uma ameaça. Não havia nada disso. O olhar dele era calmo. Quente. E devastadoramente íntimo. Foi um olhar que disse eu sei o gosto que você tem. Um olhar que a despiu na frente da sua família, que a lembrou do frio da pedra em seus joelhos, do calor da boca dele em sua b****a. Um olhar que a reivindicou, silenciosamente, como sua. Débora engasgou com o café, desviando o olhar primeiro. A xícara bateu no pires com um som agudo. Seu rosto inteiro queimou. Ela podia sentir o rubor subindo por seu pescoço, odiando sua própria pele por traí-la. — Você está bem, querida? — Perguntou Letícia, distraída. — Sim. Só... engasguei. Leo começou a falar com Letícia sobre o tempo, algo sobre a piscina. A voz dele, tão calma e normal, era uma tortura. Cada sílaba parecia direcionada a ela, um lembrete de como aquela mesma voz havia sussurrado comandos para ela no escuro. Ela não aguentou. — Perdi a fome — ela empurrou a cadeira para trás, o som arrastado no piso. Ela se levantou para sair, desesperada por ar. — Ah, Débora, antes que eu me esqueça — a voz de Leo a parou no meio do caminho. Ela congelou, mas não se virou. — O que foi? — Ela perguntou, a voz tensa. — Você deixou cair isso na varanda ontem à noite — sua voz era casual, leve. — Quase pisei quando fui olhar a lua. Ela se virou lentamente. Ele estava estendendo a mão. Em sua palma, estava o pequeno elástico de cabelo preto que ela usava no pulso. Ela não se lembrava de tê-lo perdido. Tiago ergueu os olhos do laptop, a testa franzida. — Na varanda? O que você estava fazendo na varanda ontem à noite, Débora? Débora encarou o pequeno objeto na mão de Leo, seu coração batendo não de pânico, mas de uma nova e terrível compreensão. Ele não a estava expondo. Ele estava marcando território. Ele estava mostrando a ela, e só a ela, que ele podia destruí-la quando quisesse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD