Capítulo 16

712 Words
Débora não correu da biblioteca. Ela se afastou como se ele estivesse em chamas, e andou. Passos rápidos, duros, ecoando no mármore do corredor. Cada passo era uma batida de martelo em sua cabeça, tentando apagar o que acabara de acontecer. Ela não olhou para trás. Não se atreveu. Tinha medo de que ele ainda estivesse lá, sorrindo, saboreando a vitória. Assim que dobrou a esquina do corredor principal, ela disparou. Subiu as escadas de dois em dois degraus, o coração estrangulando-a. A porta do quarto. A chave. O clique do trinco. Ela desabou contra a madeira, finalmente segura. O silêncio do seu refúgio era ensurdecedor. Levou a mão trêmula aos lábios. O gosto dele ainda estava ali. Um traço de uísque caro e algo mais, algo que era só dele. Ela podia sentir o fantasma da pressão dos lábios dele, a forma como sua mão segurou sua nuca, reivindicando-a. — Desgraçado... — ela sussurrou, a voz rouca. Um arrepio a percorreu, mas não era de frio. Era uma mistura nojenta de repulsa e... e outra coisa. Uma coisa escura e quente que se instalou em seu estômago e a fez se sentir suja. “Esse é o nosso primeiro segredo. Só nosso.” A palavra "nosso" a fez estremecer. Ele a tinha enlaçado, a tinha tornado cúmplice de uma forma que a espionagem nunca fez. Olhar era uma coisa. Ser tocada era outra. Ser beijada... aquilo era uma declaração de guerra. Ou de posse. Ela estava furiosa. Com ele, por ser um predador manipulador, por ousar colocar as mãos nela. E estava furiosa consigo mesma. Por que ela não gritou? Por que não o estapeou? Por que, por um segundo infernal, seu corpo congelou e... e não lutou? Débora começou a andar de um lado para o outro no quarto, o tapete felpudo abafando seus passos frenéticos. A presença de Tiago na casa, a guerra fria na mesa de jantar, o passado criminoso de Leo... tudo isso desapareceu, engolido pela urgência daquele beijo. Ela não podia guardar aquilo. Era tóxico demais, pesado demais. O segredo a estava sufocando. Precisava de alguém. Precisava de uma voz externa que a lembrasse de que aquilo era um absurdo, que ela não estava enlouquecendo. Pegou o celular na cama, os dedos discando o número quase por instinto. A chamada durou três toques. — Fala, v***a! — A voz de Angélica era alegre, despreocupada. — Qual o babado? O gostosão do seu padrasto finalmente cozinhou pelado? Porque se foi, eu exijo fotos. — Angélica... — A voz de Débora saiu quebrada, um sussurro de pânico. A mudança no tom de Angélica foi instantânea. A brincadeira sumiu. — Débora? O que foi? Você tá chorando? Aconteceu alguma coisa? É o seu irmão? — Não... — Débora se sentou na beira da cama, a mão livre agarrando o edredom com força. — É ele. É o Leo. — O que aquele desgraçado fez? — A voz de Angélica ficou séria, o "modo madura" ativado. Débora respirou fundo, mas o ar não veio. As palavras estavam presas na sua garganta, pesadas com vergonha. — Amiga, pelo amor de Deus, eu tenho ansiedade, fala! — Insistiu Angélica. — Ele... ele me beijou. Um silêncio absoluto caiu na linha. Débora podia quase ouvir as engrenagens na cabeça da amiga girando. O silêncio se esticou por um, dois, três segundos. — Puta... que... pariu. — Angélica, não tem graça... — Graça? Amiga, eu não tô rindo! — A voz de Angélica era um misto de choque e uma excitação que ela m*l conseguia disfarçar. — c*****o! Eu falei! Eu não falei? Naquele dia, no telefone, eu avisei que ele queria te comer! O desgraçado é rápido! — Angélica, para! É sério! — Gritou Débora, as lágrimas de raiva e frustração finalmente brotando. — Ele me encurralou. Ele sabe dos segredos, ele... — Calma, calma. Respira. Modo sério de verdade agora, prometo — disse Angélica, embora sua voz ainda vibrasse. — Certo. Ele te beijou. Na biblioteca. E o que mais? — Como assim "o que mais"? — E aí? — A voz de Angélica baixou, como se compartilhasse um segredo. — Você... você gostou? A pergunta pairou no ar, ecoando a própria dúvida aterrorizante que queimava no fundo da mente de Débora.
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