Capítulo 17

740 Words
A pergunta de Angélica caiu no silêncio do quarto como uma pedra, quebrando a superfície da histeria de Débora. Você... você gostou? — O quê? — A voz de Débora saiu áspera. — Claro que não! Você tá louca? Ele é... ele é um nojento! Ele é o namorado da minha mãe, droga! Débora se levantou, voltando a andar de um lado para o outro, o celular pressionado contra a orelha, como se a raiva pudesse queimar a vergonha. — Eu odeio ele, Angélica! Eu odeio! — Débora... — A voz de Angélica estava estranhamente calma, analítica. — Eu te conheço desde que a gente usava aparelho. Você não tá com voz de quem odeia. — Como assim, eu não tô com voz...? — Se você odiasse de verdade, você teria me ligado para contar que deu um tapa tão forte na cara dele que seus dedos ficaram marcados. Você teria ligado para dizer que fez um escândalo, que chamou o Tiago e expulsou ele da casa — Angélica fez uma pausa. — Você não ligou para dizer que bateu. Você ligou para chorar porque não bateu. O mundo de Débora parou. As palavras da amiga a atingiram com a precisão de um bisturi, cortando direto até a fonte da infecção. Ela parou de andar. O choro que veio agora não era de raiva. Era de algo muito mais profundo e assustador. — Eu não sei... — ela sussurrou, a fachada desmoronando. Ela se sentou na cama, o corpo curvado pela confissão. — Eu não sei o que aconteceu. Eu... eu congelei. — Congelou? — Eu fiquei parada — a vergonha queimava sua garganta. — Ele me encurralou, falou aquelas coisas, e me beijou... e eu só... fiquei lá. Eu não gritei. Eu não empurrei. Eu deixei. A confissão pairou no ar, feia e crua. — Ah, amiga... — A voz de Angélica perdeu todo o traço de excitação. O "modo maduro" agora era 100% real. — Ok. Isso é... isso é muito pesado. Esse cara não é só um gostosão exibicionista. Ele é um predador. Nível hard. — O que eu faço? — A voz de Débora era um pedido de socorro infantil. — Você sai daí. Agora. — Sair? — Arruma uma mala. Fala que vai dormir na minha casa. Pega seu carro e vem. Você não pode ficar debaixo do mesmo teto que esse cara. Ele tá te caçando, Débora. E o pior: ele sabe que você tá na jaula, e sabe que você não vai gritar. A ideia de fugir foi tentadora. Correr para o apartamento de Angélica, se trancar lá e fingir que a mansão Viana não existia. Mas então, a imagem de Tiago, com seu olhar de julgamento, e a de Leo, com seu sorriso vitorioso, surgiram em sua mente. — Não — a voz de Débora recuperou um pingo de teimosia. — "Não"? Como assim "não"? Você tá maluca? — Se eu for embora, ele ganha — ela enxugou as lágrimas com raiva. — Ele vai achar que me assustou, que me expulsou da minha própria casa. E o Tiago vai achar que eu sou uma covarde. Esta casa é minha. Angélica soltou um longo suspiro do outro lado da linha, um som de pura frustração. — Certo. Teimosa. Entendi. Você não vai fugir. Então você vai ter que lutar. Mas escuta bem o que eu tô falando, Débora... — O quê? — Um homem que tem coragem de beijar a enteada no corredor, enquanto ainda tá quente da f**a com a mãe, não vai parar num beijo. Você tá brincando com fogo. Não, pior. Você é o brinquedo, e ele tá segurando o isqueiro. A chamada terminou alguns minutos depois, com promessas de Débora de que se trancaria no quarto e ligaria se algo acontecesse. Mas quando ela desligou o celular, o silêncio do quarto voltou, mais pesado do que antes. Angélica estava errada em uma coisa. O beijo não foi só um teste para ver se ela gritaria. Foi um teste para ver se ela responderia. E o horror que agora se instalava no coração de Débora era a resposta para a pergunta inicial de Angélica. Ela não gostou do beijo. Ela odiou. Mas, por um segundo infernal, seu corpo traidor, entorpecido pelo choque e pelo fascínio proibido, tinha amolecido. Ele não a beijou apenas. Ele a marcou. E ele sabia, sem sombra de dúvida, que ela não tinha lutado contra.
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