Débora fechou a porta do quarto com firmeza, rodando a chave duas vezes, como se estivesse selando um pacto. A primeira coisa que fez foi puxar a cortina pesada até cobrir toda a janela, deixando o ambiente mergulhado em penumbra. Não queria saber da rua, não queria ouvir a risada da mãe ecoando pela sala, nem o som abafado de copos tilintando. O quarto se tornaria seu abrigo.
Colocou o celular no criado-mudo e ligou uma música baixa, apenas um sopro de melodia que pudesse mascarar os sons da casa. Depois, ajeitou a cama: cobertor puxado até formar uma espécie de casulo, travesseiros posicionados de modo a criar um canto seguro. Olhando de fora, pareceria exagero; para ela, era sobrevivência.
— Pronto... — murmurou para si mesma, deitando-se como quem se enterra em silêncio.
Para ocupar a mente, abriu seu caderno de anotações. Folhas rabiscadas com desenhos inacabados, frases soltas que pareciam confidências arrancadas da alma. Tentou desenhar uma flor, mas a linha tremeu, escapando do controle. Suspendeu o lápis, respirou fundo e desistiu.
Pegou o celular. Abriu o feed de uma rede social qualquer, rolando sem atenção. Rostos sorridentes, frases motivacionais, memes idiotas. Mas nada grudava. A cada pausa, o que voltava era a sensação física da casa: o cheiro misturado de perfume masculino barato com o da mãe, impregnando as paredes. E os sons, ainda que abafados, ecoando como marteladas. Uma risada dela. Um tom grave dele.
Débora fechou os olhos com força. Queria desligar os sentidos, mas o corpo parecia conspirar contra. De repente, o celular vibrou ao seu lado. Um toque único, seco. Ela pegou sem pensar. Um número desconhecido. Franziu a testa. Quem mandaria mensagem àquela hora? Abriu.
Não havia texto, apenas uma imagem. Seu coração disparou. A tela mostrava Letícia. Sua mãe. Sentada na beira da cama, vestindo lingerie preta. Os olhos cobertos por uma venda vermelha. O corpo curvado, como se posasse para alguém.
Débora soltou o celular, que caiu sobre a coberta.
— Meu Deus... — sussurrou, sentindo o rosto ferver.
O peito dela se apertava em ondas, como se cada batida do coração fosse uma pancada por dentro. O ar parecia rarefeito. Pegou de novo o aparelho, as mãos tremendo. A foto ainda estava lá, iluminando o quarto escuro como um farol indecente.
E, logo abaixo, um texto curto:
“Gostou?”
Débora não precisou pensar muito para reconhecer. Leo. Só podia ser ele. Devia ter conseguido o número com Letícia, provavelmente de forma inocente, mas usava aquilo de outro jeito. Um jogo. Uma provocação.
O estômago dela revirou. Sentiu vontade de vomitar.
Ao mesmo tempo, algo ardia por dentro - raiva, sim, mas também um fio de curiosidade torta, proibida. Era como se tivesse sido puxada para dentro de um lugar do qual nunca quis fazer parte.
— Ele é doente... — disse em voz baixa, tentando se convencer.
Mas a imagem não saía. Não importava o quanto piscasse, ela continuava gravada na retina.
Por alguns segundos, pensou em apagar, bloquear, fingir que nunca tinha visto. Mas os dedos dela, trêmulos, pairavam sobre a tela. O botão de resposta brilhava, convidativo e ameaçador ao mesmo tempo.
Uma batalha silenciosa começou dentro dela.
De um lado, o nojo, a indignação, o ódio por aquele homem que não respeitava limites. Do outro, a curiosidade mórbida que lhe corroía por dentro. Era como encarar um precipício: sabia que cair seria a pior coisa, mas ainda assim não conseguia parar de olhar para baixo.
A música baixa no celular parecia zombar dela, uma melodia suave contrastando com a cena violenta que se formava em sua mente. Débora respirou fundo, tentando acalmar o coração. Mas o dedo continuava ali, suspenso sobre a tela. Responder ou não?
O quarto, que antes parecia abrigo, agora se transformava em prisão.