Capítulo 8

811 Words
A foto na tela do celular queimava. A imagem de sua mãe, Letícia, com os olhos vendados e o corpo oferecido, era uma violação em tantos níveis que Débora sentiu o ar faltar. A pergunta de Leo - “Gostou?” - era um tapa na cara, um chicote de ironia estalando em sua mente. Uma onda de náusea subiu por sua garganta, mas foi seguida por algo mais traiçoeiro: um calor baixo, uma pulsação vergonhosa entre suas pernas. Raiva. Era raiva, ela disse a si mesma. Fúria por ele ousar arrastá-la para a sujeira dele, por transformá-la em espectadora de sua depravação. Com os dedos tremendo, não de medo, mas de ódio, ela segurou o celular com força. Ele não ia controlá-la. Não ia enlaçá-la naquele jogo doentio. Num gesto rápido e definitivo, ela apagou a foto, a conversa inteira e, por fim, bloqueou o número. Um ato de extermínio digital. Uma tentativa de retomar o controle. — Acabou — ela sussurrou para o quarto vazio. Deitou-se na cama e puxou o edredom até o queixo, criando uma fortaleza de tecido e plumas. Fechou os olhos com força, ordenando que sua mente se esvaziasse, que o sono a levasse para longe daquela casa e dos seus novos fantasmas. Mas o silêncio da mansão não era pacífico. Era um silêncio que escutava, que esperava. E no vácuo dele, um som começou a nascer. A princípio, era quase nada. Um ruído baixo, que poderia ser o vento ou um galho de árvore batendo na janela. Mas o ritmo era constante demais, metódico demais. Era o rangido baixo e compassado da cabeceira da cama de sua mãe, batendo contra a parede. Um metrônomo marcando o tempo do pecado no quarto ao lado. Débora virou-se na cama, cobrindo a cabeça com o travesseiro. Inútil. O som parecia se infiltrar por debaixo do tecido, vibrando através do colchão até alcançar seus ossos. Cada batida era uma imagem. E sua mente, sua grande traidora, começou a projetar o filme que ela não queria ver. A cena da sala de cinema voltou, mais nítida e c***l do que antes. A lembrança não era mais um borrão de choque e nojo. Agora, ela se demorava nos detalhes. Os músculos das costas de Leo se contraindo a cada estocada, o suor brilhando em sua pele bronzeada, o poder inegável em cada movimento. Ela lembrou do que tinha vislumbrado de relance: o m****o dele, grosso e pulsante, sendo engolido pelo corpo de sua mãe. A imagem de como ele a preenchia, de como desaparecia dentro dela. E, de repente, um pensamento novo, um desejo cru e chocante, cortou através da sua confusão como um relâmpago: Eu não vi direito. A memória era parcial, um fragmento que apenas insinuava a totalidade. E a constatação que veio em seguida a deixou ofegante, paralisada sob as cobertas. Eu quero ver. Eu quero vê-lo inteiro. Aquele pensamento foi o estopim. Não era mais sobre raiva ou curiosidade mórbida. Era um desejo físico, primitivo e incontrolável. A batalha interna tinha acabado. Sua vontade de desafiá-lo, de resistir, desmoronou diante da necessidade de saciar aquela visão. O nojo ainda estava lá, mas agora era apenas um tempero para uma fome que ela não sabia que existia. Como se fosse um autômato, movido por uma força que não era a sua, Débora afastou o edredom. O ar frio do quarto tocou sua pele, mas ela m*l sentiu. Seus pés descalços tocaram o piso de mármore gelado, e ela não recuou. Seus movimentos eram lentos, hipnóticos, como os de alguém caminhando para a beira de um precipício. Chegou à porta do seu quarto e girou a chave. O clique metálico do trinco soou como o estalo de uma algema se abrindo, absurdamente alto na quietude da noite. Ela não estava mais se trancando para se proteger do mundo. Estava se libertando para ir ao encontro dele. Ela abriu a porta e pisou no corredor escuro. Seus olhos levaram um segundo para se ajustar, e então ela viu. No fim do corredor, a porta do quarto da sua mãe. Uma fresta de luz escapava por baixo dela, um risco dourado na escuridão. E a porta, exatamente como Leo prometera no café da manhã, não estava fechada. Estava entreaberta. Um convite mudo, uma armadilha pacientemente montada. Os sons agora eram mais claros. Um suspiro longo e satisfeito da sua mãe, seguido pela voz grave e baixa dele, dizendo algo que ela não conseguiu entender. Débora parou no meio do corredor, o coração batendo na garganta, o corpo inteiro um feixe de nervos. Estava a poucos passos de distância. Ninguém a pegou, ninguém a forçou. Ela estava ali por vontade própria, atraída pela promessa de um espetáculo proibido. A porta aberta a encarava, pulsando com a luz e os sons lá de dentro. O próximo passo era dela. E só dela.
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