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1456 Words
No dia seguinte, o salão já estava cheio desde cedo. Ula atendia um cliente quando viu a porta abrir. Gracinha entrou devagar, olhando o movimento. Assim que a viu, Ula abriu um sorriso. — Mãe! Gracinha sorriu de volta, ainda tímida. — Filha... não quero te atrapalhar. Ula fez sinal com a mão. — Atrapalhar nada. Vem cá. Ela puxou uma cadeira. — Senta aqui. Hoje a cliente VIP é a senhora. As funcionárias riram. — Bom dia, dona Gracinha! — Bom dia, meninas. Ula colocou a capa nela e começou o atendimento. Primeiro retocou o loiro. Depois fez uma hidratação caprichada. Enquanto enxaguava os fios, conversava com a mãe sobre coisas simples, tentando distraí-la. Em seguida, pegou a tesoura. — Confia em mim. — Sempre confiei. Alguns minutos depois, terminou um corte que valorizava ainda mais o rosto de Gracinha. Ela virou a cadeira para o espelho. — E aí? Gracinha levou a mão aos cabelos. — Nossa... Os olhos encheram de lágrimas. — Fazia tanto tempo que eu não me sentia bonita. Ula segurou a mão dela. — A senhora sempre foi bonita. Só tava esquecendo disso. Depois seguiram para a sala de estética. Jéssica recebeu a mãe com um abraço. — Agora é minha vez. Ela desenhou as sobrancelhas com cuidado, deixando o olhar mais leve. Enquanto isso, Ula fez a depilação, sempre conversando para deixar a mãe à vontade. Quando terminaram, Gracinha voltou para o salão principal. As meninas fizeram as unhas dela, escolhendo um esmalte claro que ela sempre gostou. No fim, Ula chamou novamente. — Agora falta a melhor parte. As duas entraram na sala de massagem. Gracinha deitou na maca. Assim que as mãos de Ula começaram a trabalhar os ombros dela, um suspiro escapou. — Ai... minha filha... Ula sorriu. — Relaxa. Os minutos foram passando, e toda a tensão parecia ir embora. Gracinha fechou os olhos. — Que mãos maravilhosas... Ula continuou a massagem. — A senhora tá falando isso agora? — Tô. — Engraçado... a senhora sempre dizia isso quando eu tava aprendendo. Gracinha sorriu. — E continuo dizendo. Tu tem um dom, filha. Não é só técnica. Tu coloca carinho no que faz. Ula abaixou a cabeça, emocionada. — Obrigada, mãe. Depois de alguns minutos em silêncio, Gracinha voltou a falar. — Eu tava querendo subir lá pra conversar com ele. — Com o Dogão? — É. — Pra quê? — Quero pedir autorização pra reabrir a pensão. Ula deu um sorriso de canto. — Mãe... a senhora sabe que nem precisa subir lá pra isso. Se eu falar com ele, ele autoriza na hora. Gracinha balançou a cabeça. — Eu sei. Mas eu quero agradecer pessoalmente. Quando teu pai morreu, ele nunca deixou faltar respeito com a gente. Nunca cobrou nada de nós além do que era justo. Quero olhar nos olhos dele e dizer que eu tô pronta pra recomeçar. Ula ficou alguns segundos em silêncio. Depois sorriu. — Então tá bom. Ela terminou os últimos movimentos da massagem e ajudou a mãe a levantar. — Vou só terminar de atender meus clientes. Quando eu der uma pausa, nós duas subimos lá. Gracinha segurou a mão da filha. — Obrigada. Ula beijou a testa dela. — Bora levantar essa cabeça, mãe. Hoje é o primeiro dia da tua volta. E eu tenho certeza de que o morro inteiro vai ficar feliz quando souber que a tia Gracinha tá de volta. Alguns minutos depois, Ula fechou a agenda por um instante. — Meninas, vou dar uma saída rapidinho. Qualquer coisa, me chamem no rádio. — Pode deixar, chefe. Ela sorriu para a mãe. — Bora? Jéssica levantou também. As três começaram a subir as vielas do morro. Conforme passavam, os vapores e os soldados apenas faziam um sinal de cabeça, abrindo caminho. — Boa tarde, Ula. — Boa tarde, tia Gracinha. — E aí, Jéssica. Ninguém mexia com elas. Todo mundo sabia que eram mulheres respeitadas no morro. Quando chegaram à parte mais alta, Orelha avistou as três de longe. Ele abriu um sorriso. — Ô, dona Gracinha! Quanto tempo. Ela sorriu. — Oi, meu filho. Ele abraçou a senhora com carinho. — Tá bonita, hein? Mudou até o corte. Gracinha riu. — Mérito da minha filha. Orelha olhou para Ula. — Também... essa aí faz milagre. Ula revirou os olhos. — Para de graça. Ele riu e voltou a olhar para Gracinha. — O que manda, dona Gracinha? Ela respondeu educadamente. — Meu filho, eu queria dar uma palavrinha com o Dogão. Será que tem como? — Claro que tem. Só aguarda um minutinho que eu vou avisar o chefe. — Obrigada. Orelha entrou na casa. No escritório, Dogão estava sentado atrás da mesa, tragando um cigarro enquanto conferia alguns relatórios do movimento. Sem levantar os olhos, perguntou: — Fala. — Chefe... Dogão continuou folheando os papéis. — Hã? Orelha deu um sorriso de canto. — Tua musa tá aí fora. Dogão levantou os olhos na mesma hora. — A Ula? Ele apagou o cigarro no cinzeiro e já ficou de pé. — Aconteceu alguma coisa? — Acho que não. Ela tá com a mãe e a irmã. Por um instante, Dogão pensou em alguma emergência. — Elas tão bem? — Tão. Vieram conversar contigo. Dogão respirou aliviado. — Então deixa elas entrarem. Orelha abriu um sorriso malicioso. — Tá nervoso à toa, hein, chefe? Dogão pegou um maço de relatórios e jogou na direção dele. — Vai tomar no teu cu e traz elas logo. Orelha caiu na risada. — Já vou, p***a. Ele saiu do escritório ainda rindo. Ao abrir a porta, fez um gesto com a mão. — Dona Gracinha, Ula... Jéssica... podem entrar. O chefe tá esperando vocês. As três entraram no escritório. Dogão saiu de trás da mesa por educação. — Boa tarde. Gracinha sorriu. — Boa tarde, meu filho. Ele cumprimentou primeiro a senhora com um aperto de mão respeitoso. — Como a senhora tá? — Melhorando... um dia de cada vez. Depois olhou para Jéssica. — E aí, pequena. — Boa tarde, Dogão. Por último, os olhos dele encontraram os de Ula. Ela sorriu de leve. — Oi. — Oi. Orelha, que ainda estava na porta, olhou aquela cena e balançou a cabeça, segurando o riso. Dogão percebeu. — Tá fazendo o quê aí ainda? — Nada não, chefe. — Então some. — Já fui. Ele fechou a porta atrás de si. O escritório ficou em silêncio por alguns segundos. Dogão fez um gesto para as cadeiras. — Sentem, por favor. As três se sentaram. Ele permaneceu em pé. — Me disseram que vocês queriam falar comigo. Aconteceu alguma coisa? Gracinha respirou fundo. — Não... graças a Deus. Ela olhou para Ula e Jéssica antes de continuar. — Na verdade, eu vim agradecer. Dogão franziu a testa. — Agradecer? — Sim. Ela sorriu. — Quando meu marido morreu... eu achei que minha vida tinha acabado. A voz embargou. — Mas o senhor nunca deixou faltar respeito com a minha família. Dogão abaixou a cabeça, ouvindo em silêncio. — A Ula sempre falou que o senhor nunca cobrou um centavo do salão dela... mesmo podendo. Ele respondeu com simplicidade. — Ela conquistou aquilo trabalhando. Nunca pedi favor pra ninguém, nem ela me pediu. Só vi uma menina querendo vencer. Ula permaneceu calada, apenas observando. Gracinha continuou. — Hoje minhas filhas praticamente me arrastaram pro salão. Jéssica riu. — Arrastaram mesmo. Gracinha passou a mão no cabelo recém-feito. — E me fizeram lembrar da mulher que eu era. Dogão sorriu discretamente. — Ficou bonito o corte. Ula cruzou os braços. — Eu que fiz. — Dá pra ver. Ela sorriu de canto. Gracinha respirou fundo outra vez. — Então... eu tomei uma decisão. Dogão prestou atenção. — Quero reabrir minha pensão. Ele não respondeu de imediato. Apenas olhou para ela por alguns segundos. Depois abriu um sorriso raro. — Já tava mais do que na hora. Os olhos de Gracinha se encheram de lágrimas. — O senhor acha? — Acho, não. Tenho certeza. Ele apoiou as mãos sobre a mesa. — O morro sente falta da tua comida. Até os caras daqui vivem falando disso. Jéssica sorriu. — Eu falei pra ela. Dogão assentiu. — Pode reabrir. E se precisar de alguma ajuda pra colocar as coisas no lugar de novo, fala comigo. Gracinha levou a mão ao peito, emocionada. — Muito obrigada. Dogão fez um gesto simples com a cabeça. — Não precisa agradecer. Quem ganha com isso é o morro inteiro. Ula olhou para a mãe, vendo um brilho nos olhos que não aparecia havia muito tempo. Naquele momento, ela percebeu que, pela primeira vez desde a morte do pai, Gracinha parecia realmente pronta para recomeçar.
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