No dia seguinte, o salão já estava cheio desde cedo.
Ula atendia um cliente quando viu a porta abrir.
Gracinha entrou devagar, olhando o movimento.
Assim que a viu, Ula abriu um sorriso.
— Mãe!
Gracinha sorriu de volta, ainda tímida.
— Filha... não quero te atrapalhar.
Ula fez sinal com a mão.
— Atrapalhar nada. Vem cá.
Ela puxou uma cadeira.
— Senta aqui. Hoje a cliente VIP é a senhora.
As funcionárias riram.
— Bom dia, dona Gracinha!
— Bom dia, meninas.
Ula colocou a capa nela e começou o atendimento.
Primeiro retocou o loiro.
Depois fez uma hidratação caprichada.
Enquanto enxaguava os fios, conversava com a mãe sobre coisas simples, tentando distraí-la.
Em seguida, pegou a tesoura.
— Confia em mim.
— Sempre confiei.
Alguns minutos depois, terminou um corte que valorizava ainda mais o rosto de Gracinha.
Ela virou a cadeira para o espelho.
— E aí?
Gracinha levou a mão aos cabelos.
— Nossa...
Os olhos encheram de lágrimas.
— Fazia tanto tempo que eu não me sentia bonita.
Ula segurou a mão dela.
— A senhora sempre foi bonita. Só tava esquecendo disso.
Depois seguiram para a sala de estética.
Jéssica recebeu a mãe com um abraço.
— Agora é minha vez.
Ela desenhou as sobrancelhas com cuidado, deixando o olhar mais leve.
Enquanto isso, Ula fez a depilação, sempre conversando para deixar a mãe à vontade.
Quando terminaram, Gracinha voltou para o salão principal.
As meninas fizeram as unhas dela, escolhendo um esmalte claro que ela sempre gostou.
No fim, Ula chamou novamente.
— Agora falta a melhor parte.
As duas entraram na sala de massagem.
Gracinha deitou na maca.
Assim que as mãos de Ula começaram a trabalhar os ombros dela, um suspiro escapou.
— Ai... minha filha...
Ula sorriu.
— Relaxa.
Os minutos foram passando, e toda a tensão parecia ir embora.
Gracinha fechou os olhos.
— Que mãos maravilhosas...
Ula continuou a massagem.
— A senhora tá falando isso agora?
— Tô.
— Engraçado... a senhora sempre dizia isso quando eu tava aprendendo.
Gracinha sorriu.
— E continuo dizendo. Tu tem um dom, filha. Não é só técnica. Tu coloca carinho no que faz.
Ula abaixou a cabeça, emocionada.
— Obrigada, mãe.
Depois de alguns minutos em silêncio, Gracinha voltou a falar.
— Eu tava querendo subir lá pra conversar com ele.
— Com o Dogão?
— É.
— Pra quê?
— Quero pedir autorização pra reabrir a pensão.
Ula deu um sorriso de canto.
— Mãe... a senhora sabe que nem precisa subir lá pra isso. Se eu falar com ele, ele autoriza na hora.
Gracinha balançou a cabeça.
— Eu sei. Mas eu quero agradecer pessoalmente. Quando teu pai morreu, ele nunca deixou faltar respeito com a gente. Nunca cobrou nada de nós além do que era justo. Quero olhar nos olhos dele e dizer que eu tô pronta pra recomeçar.
Ula ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu.
— Então tá bom.
Ela terminou os últimos movimentos da massagem e ajudou a mãe a levantar.
— Vou só terminar de atender meus clientes. Quando eu der uma pausa, nós duas subimos lá.
Gracinha segurou a mão da filha.
— Obrigada.
Ula beijou a testa dela.
— Bora levantar essa cabeça, mãe. Hoje é o primeiro dia da tua volta. E eu tenho certeza de que o morro inteiro vai ficar feliz quando souber que a tia Gracinha tá de volta.
Alguns minutos depois, Ula fechou a agenda por um instante.
— Meninas, vou dar uma saída rapidinho. Qualquer coisa, me chamem no rádio.
— Pode deixar, chefe.
Ela sorriu para a mãe.
— Bora?
Jéssica levantou também.
As três começaram a subir as vielas do morro.
Conforme passavam, os vapores e os soldados apenas faziam um sinal de cabeça, abrindo caminho.
— Boa tarde, Ula.
— Boa tarde, tia Gracinha.
— E aí, Jéssica.
Ninguém mexia com elas.
Todo mundo sabia que eram mulheres respeitadas no morro.
Quando chegaram à parte mais alta, Orelha avistou as três de longe.
Ele abriu um sorriso.
— Ô, dona Gracinha! Quanto tempo.
Ela sorriu.
— Oi, meu filho.
Ele abraçou a senhora com carinho.
— Tá bonita, hein? Mudou até o corte.
Gracinha riu.
— Mérito da minha filha.
Orelha olhou para Ula.
— Também... essa aí faz milagre.
Ula revirou os olhos.
— Para de graça.
Ele riu e voltou a olhar para Gracinha.
— O que manda, dona Gracinha?
Ela respondeu educadamente.
— Meu filho, eu queria dar uma palavrinha com o Dogão. Será que tem como?
— Claro que tem. Só aguarda um minutinho que eu vou avisar o chefe.
— Obrigada.
Orelha entrou na casa.
No escritório, Dogão estava sentado atrás da mesa, tragando um cigarro enquanto conferia alguns relatórios do movimento.
Sem levantar os olhos, perguntou:
— Fala.
— Chefe...
Dogão continuou folheando os papéis.
— Hã?
Orelha deu um sorriso de canto.
— Tua musa tá aí fora.
Dogão levantou os olhos na mesma hora.
— A Ula?
Ele apagou o cigarro no cinzeiro e já ficou de pé.
— Aconteceu alguma coisa?
— Acho que não. Ela tá com a mãe e a irmã.
Por um instante, Dogão pensou em alguma emergência.
— Elas tão bem?
— Tão. Vieram conversar contigo.
Dogão respirou aliviado.
— Então deixa elas entrarem.
Orelha abriu um sorriso malicioso.
— Tá nervoso à toa, hein, chefe?
Dogão pegou um maço de relatórios e jogou na direção dele.
— Vai tomar no teu cu e traz elas logo.
Orelha caiu na risada.
— Já vou, p***a.
Ele saiu do escritório ainda rindo.
Ao abrir a porta, fez um gesto com a mão.
— Dona Gracinha, Ula... Jéssica... podem entrar. O chefe tá esperando vocês.
As três entraram no escritório.
Dogão saiu de trás da mesa por educação.
— Boa tarde.
Gracinha sorriu.
— Boa tarde, meu filho.
Ele cumprimentou primeiro a senhora com um aperto de mão respeitoso.
— Como a senhora tá?
— Melhorando... um dia de cada vez.
Depois olhou para Jéssica.
— E aí, pequena.
— Boa tarde, Dogão.
Por último, os olhos dele encontraram os de Ula.
Ela sorriu de leve.
— Oi.
— Oi.
Orelha, que ainda estava na porta, olhou aquela cena e balançou a cabeça, segurando o riso.
Dogão percebeu.
— Tá fazendo o quê aí ainda?
— Nada não, chefe.
— Então some.
— Já fui.
Ele fechou a porta atrás de si.
O escritório ficou em silêncio por alguns segundos.
Dogão fez um gesto para as cadeiras.
— Sentem, por favor.
As três se sentaram.
Ele permaneceu em pé.
— Me disseram que vocês queriam falar comigo. Aconteceu alguma coisa?
Gracinha respirou fundo.
— Não... graças a Deus.
Ela olhou para Ula e Jéssica antes de continuar.
— Na verdade, eu vim agradecer.
Dogão franziu a testa.
— Agradecer?
— Sim.
Ela sorriu.
— Quando meu marido morreu... eu achei que minha vida tinha acabado.
A voz embargou.
— Mas o senhor nunca deixou faltar respeito com a minha família.
Dogão abaixou a cabeça, ouvindo em silêncio.
— A Ula sempre falou que o senhor nunca cobrou um centavo do salão dela... mesmo podendo.
Ele respondeu com simplicidade.
— Ela conquistou aquilo trabalhando. Nunca pedi favor pra ninguém, nem ela me pediu. Só vi uma menina querendo vencer.
Ula permaneceu calada, apenas observando.
Gracinha continuou.
— Hoje minhas filhas praticamente me arrastaram pro salão.
Jéssica riu.
— Arrastaram mesmo.
Gracinha passou a mão no cabelo recém-feito.
— E me fizeram lembrar da mulher que eu era.
Dogão sorriu discretamente.
— Ficou bonito o corte.
Ula cruzou os braços.
— Eu que fiz.
— Dá pra ver.
Ela sorriu de canto.
Gracinha respirou fundo outra vez.
— Então... eu tomei uma decisão.
Dogão prestou atenção.
— Quero reabrir minha pensão.
Ele não respondeu de imediato.
Apenas olhou para ela por alguns segundos.
Depois abriu um sorriso raro.
— Já tava mais do que na hora.
Os olhos de Gracinha se encheram de lágrimas.
— O senhor acha?
— Acho, não. Tenho certeza.
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— O morro sente falta da tua comida. Até os caras daqui vivem falando disso.
Jéssica sorriu.
— Eu falei pra ela.
Dogão assentiu.
— Pode reabrir. E se precisar de alguma ajuda pra colocar as coisas no lugar de novo, fala comigo.
Gracinha levou a mão ao peito, emocionada.
— Muito obrigada.
Dogão fez um gesto simples com a cabeça.
— Não precisa agradecer. Quem ganha com isso é o morro inteiro.
Ula olhou para a mãe, vendo um brilho nos olhos que não aparecia havia muito tempo.
Naquele momento, ela percebeu que, pela primeira vez desde a morte do pai, Gracinha parecia realmente pronta para recomeçar.