Prólogo — A Profecia de Sangue

652 Words
            O único barulho no quarto eram os sussurros dos criados, panos arrastando de um lado para o outro, as decorações festivas sendo removidas das paredes e mesas. A mulher encapuzada se aproximou do berço, seu manto n***o sugando toda a luz dos candelabros, como uma sombra viva andante. A luz da lua brilhava pela névoa pela primeira vez em décadas, deixando o quarto de bebê em tons azuis e prata.             Os dedos enrugados percorreram a madeira lisa do berço, o anel vermelho oscilando. Ela desceu sua mão para sentir os raros cabelos morenos da pequena criatura que ali se encontrava, as pequenas orelhas pontudas e finas eram o único sinal evidente da falta da humanidade da bebê.             Os cabelos ruivos desbotados caindo pelos ombros curvados da mulher recuperaram sua cor. As pontas quebradas se uniram, e a pele pálida da bruxa voltou a ser lisa. Os dentes afiados dela oscilaram ao sorrir, sentindo a juventude correndo pelas suas veias mais uma vez. O anel vermelho tornou-se mais escuro, o sangue que ali estava preso dentro do cristal transparente virou n***o como a noite, como se uma fumaça n***a cobrisse todo o cristal, assim como aconteceu no Reino de Nyamie. Ela desceu seus olhos âmbar para o anel, seu coração acelerando ao perceber a cor do sangue.             — Seria uma boa ideia deixá-la dormir, Alethea — a voz macia como veludo ecoou da porta.             A bruxa virou-se para a Rainha Eliope, os cabelos loiros perfeitamente cacheados fluindo pelas suas costas como fios de ouro, a pele rosada e as orelhas pontudas sobressaindo por baixo da coroa. Somente um não humano poderia se recuperar tão rápido de um parto tão doloroso.             — Sim, Majestade. Seria — respondeu Alethea, virando a cabeça para a bebê mais uma vez. — A senhora já escolheu um nome?             Alethea apertou os dedos contra o berço, a sua atenção oscilando entre o anel ainda escuro e a herdeira.             — Sim, já escolhemos.             Eliope se aproxima, a saia creme com detalhes dourados arrastando pelo chão. Um sorriso ganancioso surgiu nos lábios da rainha quando ela especificou:             — Elinor. Princesa Elinor de Nyamie.             As montanhas estremeceram, um vento súbito batendo contra as paredes do castelo, espalhando ainda mais as toxinas da magia de um dragão que um dia habitava estas terras.             — Ela nos trará a salvação, como a profecia disse.             Alethea permaneceu silenciosa ao lado da Rainha, sem conseguir prestar atenção em suas palavras.             — E nosso reino será próspero mais uma vez. Minha filha fará tudo isso, eu confio nas estrelas. Não é, Alethea?             A bruxa virou o rosto para a rainha, finalmente, como se apenas naquele momento tivesse conseguido se reunir para encarar Eliope.             — Sim. Confie nas estrelas, Rainha Eliope… Elas sempre estarão de olho.             Alethea se afastou do berço, caminhando até as portas de mogno. Os guardas não a permitiriam passar enquanto a rainha não desse o sinal. Eliope olhou por cima do ombro para Alethea.             — Claro que se houvesse qualquer razão para não confiar nas estrelas… Você, como nossa leal súdita, nos diria.             Agora o quarto não tinha barulho algum além da voz imponente de Eliope. Os criados pararam de trabalhar para ouvir, tão curiosos sobre o futuro do reino quanto a rainha.             — Claro, majestade.             A rainha virou seus olhos azuis para o guarda e assentiu. As portas se abriram, e Alethea continuou caminhando como se passeasse, sem pressas para sair, mesmo que um nó se formasse em sua garganta a cada segundo.             Já do lado de fora do castelo, a névoa cobria todo o horizonte, e os guardas tapavam seus rostos com tecidos e máscaras para não se afetarem pelo veneno no ar. Alethea puxou sua máscara para cima e virou-se para a janela fechada e selada do quarto da recém-nascida, sendo abençoada pelo brilho da lua cheia.             — Mas te esqueces, Rainha Eliope. Eu não sou sua serva. Muito pelo contrário.
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