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1077 Words
A Prisão da Mente A decisão foi tomada sem o consentimento de Angelina, sem que ela tivesse alguma palavra a dizer. Seus pais, angustiados e preocupados, ouviram os conselhos do psicólogo e acreditaram que a única solução era o hospital psiquiátrico. Angelina tentou protestar, mas as palavras não saíam. Ela estava sem forças. Quando o carro a levou até o hospital, seus olhos estavam fixos na janela, o reflexo das árvores e das ruas se misturando em uma mancha borrada enquanto o carro se afastava de sua casa. Ela não sabia o que estava mais assustador: o fato de estar indo para um hospital onde sua própria sanidade seria questionada, ou o fato de que as sombras a seguiam, que a menina fantasma não a deixava em paz, nem mesmo agora. A cada movimento, a presença de algo sobrenatural se tornava mais forte. Era como se a casa, a escola, o mundo inteiro fosse uma prisão, e agora, esse hospital parecia ser a última barreira entre ela e o que não queria mais enfrentar. Ao chegar, os enfermeiros estavam prontos para recebê-la. Eles eram gentis, mas seus olhares pareciam carregados de algo que Angelina não podia identificar. Ela não queria estar ali. Cada sala parecia um reflexo de sua própria mente, sufocante e fria, e cada olhar dos outros pacientes a fazia sentir-se mais sozinha, mais perdida. Todos pareciam absortos, sem energia, como se a vida tivesse sido retirada deles. Dentro de seu quarto, a pressão do lugar era insuportável. As paredes brancas, os lençóis imaculados, tudo parecia limpo, mas o ar estava impregnado de algo mais. O medo de ser isolada, de ser apagada da memória das pessoas ao seu redor, tomou conta de Angelina. Ela se sentou na cama e olhou para os corredores vazios, sentindo que, de alguma forma, esse lugar estava mais longe da salvação do que qualquer lugar em que já tivesse estado. No início, tudo parecia calmo. As enfermeiras traziam medicamentos para ela, e sempre com um sorriso suave, mas sem emoção. O remédio era forte, com um gosto amargo que ficava na boca por horas. A princípio, ela tomava o remédio sem questionar, seus olhos ficando pesados e seu corpo enrijecido. Mas logo, ela percebeu algo estranho. Seu mundo começou a desmoronar. As visões se tornaram mais distantes, mais difíceis de captar. Os reflexos da menina nos espelhos ficaram turvos, e a presença que a assombrava parecia desaparecer quando ela ficava sob o efeito dos medicamentos. Ela sentia a mente se apagar, a realidade tornando-se uma névoa distante. A menina fantasma, que antes a seguia a cada momento, parecia sumir quando ela tomava as pílulas. Ela não sabia se isso era um alívio ou um novo pesadelo, mas o que acontecia era que a dor da presença da menina estava se tornando mais suportável. E, de alguma forma, isso a aterrorizava ainda mais. Ela sabia que, se continuasse tomando os remédios, o que a fazia única, o que a fazia ver o mundo que ninguém mais via, começaria a desaparecer. Naquela noite, quando o efeito do remédio estava começando a tomar conta dela, a menina apareceu mais uma vez. Mas agora, ela não estava apenas em seu reflexo. A menina estava ali, ao pé de sua cama, com o rosto coberto de sangue, os olhos vazios encarando-a de perto, com uma intensidade que fez o corpo de Angelina tremer. O que a menina queria? O que ela esperava? "Não tome mais os remédios, Angelina..." a voz sussurrou, mais fraca que antes, mas cheia de urgência. "Eles te fazem desaparecer. Não me deixe sozinha." Angelina piscou, tentando afastar a visão, mas a menina não desapareceu. Ela estava lá, com o sangue escorrendo lentamente do rosto, mais pálida do que nunca. O cheiro metálico do sangue parecia se espalhar pelo quarto, como uma névoa. A menina estendeu a mão, seus dedos longos e finos apontando diretamente para o vidro do espelho, onde o reflexo de Angelina apareceu, distorcido e nebuloso. A figura da menina se tornou mais opaca, mais difícil de ver, mas a presença ainda estava ali. "Me ajude... Você não pode deixar que isso aconteça." Angelina não conseguiu resistir. A voz da menina parecia estar dentro de sua mente, cavando fundo em seus pensamentos. Ela sabia que os remédios estavam tirando sua sanidade, mas ao mesmo tempo, ela não sabia como sobreviver sem eles. Se ela parasse de tomar as pílulas, seria como se as sombras voltassem, mais fortes e implacáveis. A menina sabia disso. Ela sabia que os remédios eram a chave para o que estava acontecendo, mas também sabia que tomar os remédios a faria desaparecer completamente. Ela se levantou da cama, o corpo fraco e sonolento. O efeito das pílulas ainda estava presente, mas o medo de perder a capacidade de ver a verdade a fez abrir a gaveta da mesa de noite, onde as enfermeiras deixavam as pílulas. Ela as olhou, hesitante. As pílulas brilhavam sob a luz fraca da lâmpada. Ela sabia o que devia fazer, mas sabia que isso poderia ser a última coisa que a manteria na realidade. "Você vai deixar tudo ir embora?" A menina estava agora mais perto, seus olhos vazios a encarando com tristeza. "Se você tomar mais uma pílula, você não me verá mais. Você não me ajudará. Você nunca vai saber a verdade." Angelina sentiu o peso da decisão, o pânico a consumindo. O medo de desaparecer completamente, de perder o que restava de si mesma, a consumia. Ela olhou para as pílulas, então para o reflexo da menina no espelho. Algo dentro dela cedeu. Ela sabia o que fazer. Com as mãos trêmulas, ela pegou as pílulas e as jogou pela janela, deixando-as cair no chão lá fora. A menina a observava, seu olhar agora mais suave, como se a compreensão tivesse surgido. Ela não estava mais tentando impedi-la. Ela estava apenas esperando. "Agora você sabe o que precisa fazer." A presença da menina desapareceu lentamente, e o quarto se acalmou. Mas a sensação de urgência, de que algo grande estava prestes a acontecer, não desapareceu. O que a menina queria, e como isso se conectava ao que Angelina descobriu sobre sua família, estava apenas começando a se revelar. Angelina sabia que, a partir daquele momento, ela teria que enfrentar algo muito maior do que qualquer coisa que já tivesse imaginado. Ela havia feito sua escolha. E agora, a verdade estava mais próxima do que nunca. ---
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