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1389 Words
O silêncio que ficou na cozinha depois que Odette desapareceu foi pior do que qualquer grito. Angelina permaneceu parada no meio do cômodo, segurando o saco com os ossos da menina. Suas mãos tremiam. Miller ainda estava encostada na mesa, respirando com dificuldade. — Eu… — ela tentou falar, mas a voz falhou. — Eu preciso de um minuto. Angelina também precisava. Mas havia algo dentro dela que não deixava. Algo urgente. Algo que dizia que o tempo estava acabando. Ela colocou o saco cuidadosamente sobre a mesa. — Precisamos levá-la até o cemitério. Miller ergueu os olhos lentamente. — Agora? Angelina assentiu. — Antes que aquelas coisas voltem. Miller olhou para a porta do porão. O silêncio ali era pesado. Mas havia um detalhe que ambas perceberam. A porta… estava vibrando. Levemente. Como se algo estivesse empurrando do outro lado. Miller ficou pálida. — Eles ainda estão lá. Angelina não respondeu. Pegou um pano limpo da cozinha e começou a envolver cuidadosamente os ossos. Pequenos. Frágeis. Cada um parecia contar uma história terrível. — Ela tinha… o quê? — murmurou Miller. — Dez anos? — Onze. Miller fechou os olhos. — Isso é monstruoso. Angelina terminou de amarrar o pano. — Quem fez isso achou que o segredo ficaria enterrado para sempre. Ela pegou o pacote. — Estavam errados. Outro som veio do porão. Um arranhão longo. Como unhas rasgando madeira. Miller deu um passo para trás. — Vamos sair daqui. Angelina concordou. As duas caminharam rapidamente até a porta da frente. Quando Angelina abriu… O vento da noite invadiu a casa. Frio. Úmido. A lua estava escondida atrás de nuvens pesadas. A vila parecia completamente deserta. — Perfeito — murmurou Miller. — Um passeio noturno com ossos e fantasmas. Angelina trancou a porta atrás delas. Por um momento, ela olhou para a casa. A velha casa da infância. A casa onde seu pai viveu. A casa onde Odette morreu. Algo dentro dela mudou naquele instante. Ela não via mais aquele lugar como lar. Via como um túmulo. — Vamos. Elas começaram a caminhar pela estrada estreita da vila. A única luz vinha de alguns postes antigos. A maioria deles piscava. Ou estava apagada. O vento fazia as árvores balançarem lentamente. Galhos secos raspavam uns contra os outros. Miller abraçou o próprio corpo. — Isso parece cenário de filme de terror. Angelina não respondeu. Ela estava ouvindo. Algo. Passos. — Miller… você está ouvindo? — Não diga isso… Angelina parou. Os passos também pararam. Silêncio. Ela virou lentamente a cabeça. A estrada atrás delas estava vazia. Mas o instinto de Angelina gritava que algo estava ali. Observando. Miller sussurrou: — Vamos continuar andando. Elas voltaram a caminhar. Mais rápido agora. A vila parecia estranhamente diferente à noite. As casas estavam escuras. As janelas pareciam olhos vazios. Então Miller disse algo que fez Angelina parar novamente. — A gente nunca perguntou uma coisa. — O quê? — Por que Odette estava aqui. Angelina franziu a testa. — Como assim? — Quero dizer… ela desapareceu há vinte anos. Angelina assentiu. — Sim. — Então por que o corpo dela está na sua casa? Angelina ficou em silêncio. A pergunta era óbvia. E terrível. — Porque quem fez isso morava aqui. Miller engoliu seco. — Seu pai. Angelina sentiu um peso no peito. — Talvez. O vento aumentou. As nuvens começaram a cobrir completamente a lua. O caminho até o cemitério passava por uma pequena floresta. Angelina sempre odiou aquele lugar quando era criança. Agora ela entendia por quê. As árvores eram muito densas. Muito antigas. Os galhos formavam uma espécie de túnel escuro sobre a estrada. Quando elas entraram na trilha… A escuridão pareceu engolir o mundo. Miller acendeu a lanterna do celular. — Eu não gosto disso. Angelina segurou o pacote com mais força. — Estamos quase lá. Então algo se moveu entre as árvores. Miller apontou a luz rapidamente. Nada. Mas ambas tinham visto. Algo. — Você viu isso? — Vi. Angelina começou a andar mais rápido. — Continue andando. Miller virou a lanterna novamente para a floresta. As sombras entre as árvores pareciam… erradas. Como se estivessem se movendo lentamente. Observando. Então um som surgiu atrás delas. Um estalo. Como um galho quebrando. As duas se viraram ao mesmo tempo. A lanterna iluminou o caminho vazio. Mas havia pegadas na terra. Pegadas frescas. Miller sussurrou: — Isso não estava aí antes. Angelina olhou para o chão. As pegadas eram grandes. De adulto. E seguiam… na direção delas. — Alguém está nos seguindo. O coração de Miller disparou. — Talvez seja alguém da vila. Angelina balançou a cabeça. — Não. Ela apontou para o chão. — Veja o formato. As pegadas estavam… erradas. Longas demais. Os dedos marcavam profundamente a terra. Como garras. Miller soltou um pequeno gemido. — Não. Angelina pegou o braço dela. — Corre. As duas começaram a correr pela trilha. O vento parecia sussurrar entre as árvores. Então os passos começaram novamente. Atrás delas. Mais rápidos agora. Mais pesados. Algo grande estava correndo na floresta. Galhos quebravam. Folhas se agitavam. Miller gritou: — O QUE É ISSO?! Angelina não respondeu. Ela não queria saber. De repente… Uma figura surgiu entre as árvores. Alta. Muito alta. A lanterna iluminou apenas por um segundo. Mas foi suficiente. A pele parecia cinza. O corpo era magro demais. Os braços longos quase tocavam o chão. E os olhos… Eram completamente brancos. Miller quase deixou o celular cair. — MEU DEUS! A criatura saiu das árvores. Movendo-se rápido. Muito rápido. Angelina puxou Miller. — O CEMITÉRIO! A cerca de ferro do cemitério apareceu à frente. As duas correram até o portão enferrujado. Angelina o empurrou com força. O metal rangeu. Elas entraram. E fecharam o portão atrás delas. A criatura parou do lado de fora. Observando. A lanterna iluminou seu rosto. Ou o que restava dele. A boca era grande demais. Cheia de dentes irregulares. E quando falou… A voz parecia vir de muitos lugares ao mesmo tempo. — Devolvam. Miller começou a chorar. — Angie… Angelina levantou o pacote. — Ela vai descansar. A criatura deu um passo para frente. Mas então… Algo aconteceu. O ar no cemitério ficou frio. Muito frio. Uma brisa atravessou as lápides. E uma pequena luz apareceu. Perto de uma das sepulturas. Uma figura surgiu lentamente. Odette. Mas desta vez… Ela parecia diferente. Sem sangue. Sem olhos negros. Apenas uma menina. Triste. Cansada. Ela olhou para a criatura. — Você mentiu. A criatura rosnou. — Você pertence a mim. Odette balançou a cabeça. — Não mais. Ela virou para Angelina. — A sepultura da minha mãe… é ali. Angelina olhou na direção indicada. Uma lápide simples. Coberta de musgo. Ela caminhou até lá. Miller veio atrás. A inscrição ainda era legível. Ana Laurent 1898 — 1934 Mãe amorosa Angelina ajoelhou-se. Começou a cavar a terra macia ao lado da lápide. Com as próprias mãos. A criatura começou a bater contra o portão do cemitério. O ferro tremia. — PAREM! Angelina continuou cavando. Miller ajudou. A terra voava para os lados. O buraco ficou fundo o suficiente. Angelina colocou cuidadosamente os ossos ali. O vento parou. O mundo ficou silencioso. Odette aproximou-se. Ela ajoelhou-se ao lado do pequeno túmulo. E pela primeira vez… Sorriu. Uma lágrima transparente caiu de seu rosto. — Mamãe… A terra começou a se mover sozinha. Cobriu os ossos. Como se mãos invisíveis estivessem enterrando a menina. A criatura do outro lado do portão soltou um grito horrível. O ferro começou a entortar. Mas já era tarde. Uma luz suave surgiu da sepultura. Odette levantou-se. Seu corpo começou a brilhar lentamente. Ela olhou para Angelina. — Obrigada. Angelina sentiu lágrimas descerem. — Você está livre agora. Odette assentiu. Mas antes de desaparecer… Ela disse uma última coisa. Uma coisa que mudou tudo. — Mas ele ainda está aqui. Angelina congelou. — Quem? Odette apontou para a vila. — Meu assassino. Miller sussurrou: — O pai dela… Mas Odette balançou a cabeça. — Não. A menina olhou diretamente para Angelina. Seus olhos estavam cheios de tristeza. — Seu pai não estava sozinho. O vento soprou novamente. A luz começou a desaparecer. — Há outro. Angelina sentiu o sangue gelar. — Quem? Mas Odette já estava desaparecendo. Suas últimas palavras ecoaram pelo cemitério. — E ele está esperando você voltar para casa.
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