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1107 Words
Ecos no Escuro Nos dias que se seguiram à última visão da menina, Angelina se sentiu mais isolada do que nunca. O peso do que acontecia não a deixava em paz, e a sensação de estar sendo observada nunca a abandonava. Cada vez que fechava os olhos, era como se a menina estivesse ali, esperando. Mas o mais angustiante era a sensação de que o mundo ao seu redor começava a mudar. Não apenas o medo, mas a própria realidade parecia se distorcer. Na escola, a situação piorava. Seus colegas a olhavam com uma mistura de curiosidade e desconforto. Ela tentava conversar com eles, mas sempre havia esse silêncio desconcertante que a separava. Era como se ela estivesse falando em outra língua, vivendo em uma realidade paralela. Cada sussurro atrás das portas, cada risada abafada nos corredores parecia ser um reflexo de sua própria loucura. Mas ela sabia que não estava louca. Não completamente. Ela tentava focar nas aulas, tentando manter a aparência de normalidade. Mas a mente de Angelina estava distante. Ela se distraía facilmente, seus olhos fixos nas sombras do ambiente, tentando ver além delas. Ela sentia a presença da menina o tempo todo. Às vezes, via um reflexo fugaz nas janelas ou ouvia o som de passos atrás dela. Mas quando se virava, não havia nada. O medo começou a invadir não apenas suas noites, mas seus dias. Em casa, a situação não era muito melhor. Quando estava no quarto, o ar parecia pesado, como se as paredes estivessem se aproximando dela. A menina, que antes aparecia esporadicamente, agora estava sempre presente, em cada canto, em cada espelho, em cada reflexo. O sangue continuava a escorrer de seu rosto, a cada vez mais vívido, mais grotesco. Angelina não sabia como agir. A presença da menina era cada vez mais forte, e ela sentia que havia algo mais, algo que ainda não conseguia compreender. Mas uma coisa era clara: a menina não estava apenas pedindo ajuda. Ela estava exigindo. E, de alguma forma, aquilo estava ligado a algo muito maior. Uma noite, depois de um dia particularmente difícil na escola, quando as aparições se tornaram quase insuportáveis, Angelina decidiu que não podia mais ignorar. Ela precisava entender o que estava acontecendo, precisava descobrir o motivo pelo qual a menina a assombrava. Mas como? Onde começar? Era tarde demais para procurar respostas nos livros da escola, e os fantasmas não se revelam em livros didáticos. Ela pegou o diário que sua avó lhe dera quando era pequena. Não era um diário comum, mas uma espécie de caderno antigo com páginas gastas, cobertas de palavras escritas à mão, algumas em tinta desbotada. Ela sempre o usara para escrever seus pensamentos, mas agora ele parecia mais importante do que nunca. Algo dentro de si dizia que as respostas poderiam estar ali. Com mãos trêmulas, ela abriu as páginas e começou a folhear. O cheiro de papel envelhecido preencheu o ar enquanto ela examinava os escritos. A maioria eram registros sobre eventos familiares, coisas aparentemente banais. Mas então, ela encontrou algo que fez seu coração parar. Uma entrada estava escrita em letras desordenadas, quase como se fosse uma anotação apressada: "A criança dos olhos vazios. Ela retornou. O sangue a acompanha, como antes. Se alguém se atrever a olhar, a maldição se alinha." A página estava amassada e rasgada, como se tivesse sido arrancada de pressa. Mas o que isso significava? A criança dos olhos vazios? O sangue? E a maldição? Uma sensação gélida percorreu a espinha de Angelina. Ela sabia que aquilo não era apenas um conto ou uma história inventada. Havia algo muito real por trás disso. Angelina fechou o diário e o olhou, pensativa. A conexão parecia clara. A menina que a assombrava, a figura pálida com os olhos vazios e o sangue escorrendo, não era apenas uma invenção de sua mente. Ela era real, e a história de sua família estava entrelaçada com o que ela estava vivenciando. Algo havia sido deixado para trás, algo inacabado. E agora, essa "maldição" estava de volta. Mas o que ela deveria fazer? Como poderia enfrentar algo tão sombrio, algo que sua própria família parecia ter enterrado no passado? Naquela noite, Angelina não conseguiu dormir. O medo a mantinha acordada, as sombras dançando em seu quarto, como se estivessem esperando algo. Ela olhava para o espelho, mas não havia mais reflexos, apenas o vazio. O silêncio parecia encher cada canto, até que um som leve, como um sussurro, a fez virar rapidamente. — Me ajude… A voz da menina ecoou em sua mente. O pedido de ajuda estava se tornando uma exigência, uma força incontrolável. E, de repente, algo em Angelina cedeu. Ela sabia o que tinha que fazer, sabia que não poderia mais fugir. Mas antes que pudesse se mover, as sombras ao redor do quarto começaram a se agitar. Algo estava se aproximando. O ar ficou frio, quase gelado, e a temperatura na sala caiu drasticamente. Angelina sentiu a presença da menina antes de vê-la. A figura estava lá, mais uma vez, parada no canto do quarto, com os olhos vazios, o sangue escorrendo de seu rosto. Mas dessa vez, ela não estava sozinha. Atrás da menina, outras figuras começaram a se formar. Sombras indistintas, mas que carregavam a mesma sensação de desespero e violência. Como se a sala estivesse se enchendo com os espíritos de algo que ainda não tinha sido resolvido. A menina levantou a mão, e o sangue parecia escorrer até o chão, formando círculos ao redor delas. Angelina deu um passo para trás, mas não podia mais ignorar. Ela sabia o que precisava fazer. Não sabia como, mas sabia que tinha que confrontar o que estava acontecendo, encarar a verdade. De alguma forma, ela estava ligada a isso — àquela menina, ao sangue, à maldição. A sala parecia se distorcer à sua volta, as sombras tomando forma, tornando-se mais intensas. E foi nesse momento, no ápice do medo, que ela entendeu. O que ela temia não era o que estava à sua frente, mas o que ela tinha que enfrentar dentro de si mesma. Algo no passado de sua família tinha despertado esses espíritos, e somente ela tinha o poder de lidar com as consequências. Mas o que era essa maldição? E o que ela precisava fazer para libertar os espíritos que estavam tentando alcançá-la? Com um suspiro pesado e o coração acelerado, Angelina sabia que não poderia mais fugir. A menina não a deixaria em paz. E o único caminho agora era seguir adiante, enfrentando o que estava à sua frente, mesmo que isso significasse desvendar segredos sombrios demais para serem compreendidos.
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