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1043 Words
O Eco do Passado O silêncio dentro da pequena igreja parecia mais pesado do que qualquer grito. As velas ainda tremiam sobre o altar, espalhando sombras irregulares pelas paredes de pedra. O cheiro de cera derretida e incenso pairava no ar, misturado com o frio da madrugada. Angelina estava sentada em um dos bancos de madeira, olhando para o chão. As palavras de Miller ainda ecoavam em sua cabeça. "Isso aconteceu por sua causa." Ela sabia que a amiga estava magoada. Assustada. Confusa. Mas mesmo assim, ouvir aquilo doía mais do que qualquer outra coisa. Do outro lado da igreja, Miller estava encostada perto de uma das janelas estreitas. Os primeiros sinais do amanhecer começavam a clarear o céu lá fora, tingindo o horizonte com um cinza pálido. Ela não olhava para Angelina. O padre caminhava lentamente entre elas, pensativo. Depois de alguns minutos, ele finalmente falou. — Aquilo que possuía sua amiga… não era um espírito comum. Angelina levantou o olhar. — O que era então? O padre suspirou. — Algo antigo. Ele aproximou-se do altar e apoiou as mãos sobre a madeira envelhecida. — Espíritos humanos costumam ter motivações claras. Dor. Vingança. Culpa. Mas aquilo que vi dentro dela… parecia algo diferente. Miller virou lentamente a cabeça. — Diferente como? O padre olhou para ela. — Parecia estar protegendo algo. Angelina franziu a testa. — Protegendo? — Sim. Ele fez uma pausa. — Aquela entidade repetiu várias vezes que vocês não deveriam mexer no passado. Angelina sentiu um arrepio. Era verdade. — Você não pode mudar o passado. Ela lembrava claramente. A voz. O tom frio. O padre continuou. — Isso significa que existe algo escondido naquela história. Algo que alguém… ou alguma coisa… não quer que seja descoberto. Miller cruzou os braços. — Ou seja, estamos lidando com algo que não devia ter sido mexido. Angelina percebeu o peso na voz da amiga. Ainda havia raiva ali. E talvez medo. O padre observou as duas por alguns segundos. — Conte-me mais sobre essa menina… Odette. Angelina respirou fundo. — Ela aparece para mim desde que comecei a investigar o desaparecimento dela. — Como ela se comporta? — Triste. Perdida. Angelina hesitou. — Mas também… desesperada. O padre assentiu lentamente. — Então ela quer algo. Miller murmurou: — Talvez ela queira vingança. Angelina balançou a cabeça. — Não. Ela levantou-se. — Odette não é como aquele espírito. O padre perguntou: — Como você sabe? Angelina ficou em silêncio por um momento. Então respondeu: — Porque ela me salvou. Miller olhou para ela. Angelina contou o que tinha acontecido no carro. Quando Odette apareceu. Quando enfrentou a entidade. Quando a expulsou temporariamente. O padre escutou tudo com atenção. Quando ela terminou, ele ficou pensativo. — Então temos duas forças atuando. — O que quer dizer? — perguntou Miller. — Uma que quer revelar a verdade. — Odette — disse Angelina. O padre assentiu. — E outra que quer impedir. Um silêncio pesado tomou conta da igreja. Miller passou a mão pelos cabelos. — Isso só piora as coisas. Angelina perguntou: — Por quê? Miller respondeu com amargura: — Porque significa que aquela coisa pode voltar. Angelina sentiu um frio no estômago. — Você acha que ainda está por perto? O padre respondeu calmamente: — Não foi destruída. — Então o que aconteceu? — Foi afastada. Ele caminhou até uma estante antiga e pegou um pequeno livro. — Mas entidades assim raramente desistem. Angelina apertou as mãos. — Então o que devemos fazer? O padre fechou o livro. — Descobrir a verdade. Miller soltou um suspiro cansado. — Tudo volta para isso. O padre continuou: — Enquanto o mistério de Odette não for resolvido… esse conflito espiritual provavelmente continuará. Angelina sentiu um peso enorme sobre os ombros. — Então tudo isso… só vai parar quando descobrirmos o que aconteceu com ela. — Exatamente. O sol começava a nascer lá fora. A luz fraca entrava pelas janelas da igreja. Mas a sensação dentro do prédio ainda era pesada. Como se algo invisível estivesse observando. Miller caminhou lentamente até Angelina. As duas ficaram frente a frente. Por alguns segundos, nenhuma falou. Então Miller disse: — Eu ainda estou com raiva de você. Angelina assentiu. — Eu sei. — E com medo. — Eu também. Miller suspirou. — Mas… Ela hesitou. — Eu não posso simplesmente fingir que nada disso aconteceu. Angelina sentiu uma pequena esperança surgir. — Então…? Miller olhou para ela. — Eu vou continuar ajudando você. Angelina quase não acreditou. — Mesmo depois de tudo? Miller deu um sorriso fraco. — Alguém precisa impedir você de fazer algo ainda mais e******o. Angelina riu pela primeira vez em horas. Um riso fraco. Mas sincero. O padre observava as duas com atenção. — Vocês vão precisar de coragem. Angelina respondeu: — Já percebemos isso. O padre caminhou até uma pequena caixa de madeira. De dentro dela, tirou um objeto. Um pequeno crucifixo antigo. Ele entregou a Angelina. — Leve isso. Angelina segurou o objeto. O metal estava frio. — Isso vai ajudar? O padre respondeu: — Às vezes a fé não afasta os perigos… mas fortalece quem enfrenta eles. Miller olhou para o crucifixo. — Espero que funcione. Angelina guardou o objeto no bolso. Depois olhou para o padre. — Obrigada. Ele apenas assentiu. — Tenham cuidado. As duas caminharam até a porta da igreja. O sol já iluminava o campo ao redor. Mas mesmo com a luz da manhã… Angelina ainda sentia que algo sombrio continuava próximo. Elas chegaram ao carro. Miller parou antes de entrar. — Angie. — Sim? Miller olhou diretamente nos olhos dela. — Se mais alguém morrer… Angelina já sabia o que ela iria dizer. — Eu sei. — Então vamos descobrir a verdade antes que isso aconteça. Angelina assentiu. As duas entraram no carro. Angelina ligou o motor. A estrada de volta parecia longa. Mas agora havia algo diferente. Uma nova determinação. Elas estavam mais perto da verdade. Mesmo que essa verdade fosse algo terrível. E enquanto o carro se afastava da igreja… Lá dentro… O padre ainda estava parado diante do altar. Rezando. Porque algo em seu coração dizia que aquela história… Estava apenas começando. E que forças muito mais antigas… ainda estavam envolvidas no destino de Angelina.
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