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O cemitério parecia diferente quando Angelina voltou. Durante o dia, o lugar parecia apenas antigo. As árvores altas projetavam sombras longas sobre o chão de terra, e as lápides desgastadas pelo tempo davam ao lugar um ar melancólico, mas não exatamente assustador. Mas naquele final de tarde, quando o sol já começava a desaparecer atrás das nuvens cinzentas, tudo parecia mais pesado. Mais silencioso. Mais… vivo. Angelina caminhava lentamente entre as lápides, sentindo o vento frio atravessar seu casaco. Ao lado dela, Miller carregava uma pequena lanterna e um caderno de anotações. — Ainda acho estranho voltarmos aqui — disse Miller, olhando ao redor. — Principalmente quase ao anoitecer. Angelina não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fixos em uma direção específica. — Ela quer que eu esteja aqui — murmurou. Miller suspirou. — Angie… você fala disso com muita certeza para alguém que está lidando com… bem… um fantasma. Angelina finalmente parou diante de uma lápide simples, feita de pedra cinzenta. As letras estavam gastas, mas ainda podiam ser lidas. ANA MOREAU 1925 — 1963 Angelina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. — É aqui. Miller aproximou-se. — Então essa é a mãe da menina. Angelina assentiu lentamente. — Sim. Miller olhou ao redor. — Mas se a mãe está enterrada aqui… Ela virou-se para Angelina. — Onde está a filha? Angelina permaneceu em silêncio por alguns segundos. O vento soprou mais forte naquele momento, fazendo as árvores rangerem. — O corpo dela nunca foi encontrado — disse Angelina finalmente. Miller piscou. — Como você sabe disso? Angelina hesitou. — Eu… não sei exatamente. Miller cruzou os braços. — Isso não é uma resposta muito científica. Angelina passou a mão pelo cabelo. — Eu sinto isso. Miller abriu a boca para responder… Mas parou. Algo havia mudado no ar. O vento que soprava entre as árvores diminuiu de repente. O silêncio tornou-se profundo. Pesado. Angelina sentiu o mesmo frio que havia sentido na noite em que viu a menina pela primeira vez no espelho. Ela virou-se lentamente. E então viu. A pequena figura estava parada entre duas lápides antigas. O vestido branco estava sujo. Os cabelos escuros caíam sobre o rosto pálido. E os olhos… Os olhos estavam fixos em Angelina. — Miller… — sussurrou Angelina. — O quê? — Não se assuste. Miller franziu a testa. — Isso não me tranquiliza. Angelina respirou fundo. — Ela está aqui. Miller ficou imóvel. — Angie… — Eu estou falando sério. Miller olhou ao redor. — Eu não estou vendo nada. Angelina deu um passo à frente. A menina também se moveu. Devagar. Como se o tempo ao redor dela fosse diferente. Angelina sentiu o coração bater mais rápido. — Odette — disse ela suavemente. A menina parou. Miller virou-se rapidamente. — Odette? Angelina assentiu. — Esse é o nome dela. Miller esfregou a nuca. — Ok… oficialmente isso está ficando muito estranho. Odette levantou lentamente o braço. Apontando para algo atrás de Angelina. Angelina virou-se. Havia apenas a lápide de Ana. — O que ela quer? — perguntou Miller. Angelina observou a menina novamente. Odette apontou para o chão. Bem diante da lápide da mãe. Angelina aproximou-se. — Aqui? A menina assentiu lentamente. Angelina ajoelhou-se e começou a afastar as folhas secas que cobriam o chão. Miller pegou a lanterna. — Está procurando o quê? — Não sei. Depois de alguns segundos, os dedos de Angelina tocaram algo duro. Ela puxou. Era uma pequena caixa de metal. Antiga. Coberta de ferrugem. Miller arregalou os olhos. — Isso estava enterrado aqui? Angelina assentiu. — Parece que sim. Ela limpou a tampa da caixa. Havia um pequeno fecho enferrujado. Miller aproximou-se. — Abre. Angelina respirou fundo. E abriu. Dentro havia apenas duas coisas. Uma fotografia antiga. E um pedaço de papel dobrado. Angelina pegou a fotografia primeiro. Era uma mulher jovem sorrindo. Ao lado dela estava uma menina pequena de cabelos escuros. Angelina sentiu um arrepio. — Ana… e Odette. Miller inclinou-se para olhar melhor. — Deve ser. A menina na foto tinha o mesmo vestido branco. Os mesmos olhos grandes. Angelina abriu lentamente o papel dobrado. A letra era irregular. Provavelmente escrita por uma criança. Ela leu em voz alta: — “Se alguém encontrar isso… por favor… ajude minha filha.” Miller ficou imóvel. Angelina continuou lendo. — “Eles levaram Odette.” O vento soprou entre as árvores naquele momento. As folhas se agitaram no chão. Angelina sentiu um frio profundo atravessar seu corpo. — Quem levou? — perguntou Miller. Angelina virou o papel. Havia apenas mais uma frase. “Eles disseram que ninguém acreditaria.” Miller passou a mão pelo rosto. — Ok… isso definitivamente virou uma investigação de verdade. Angelina olhou novamente para Odette. A menina ainda estava ali. Observando. — Ela quer que descubramos o que aconteceu — disse Angelina. Miller respirou fundo. — Então vamos descobrir. Angelina levantou-se. — Primeiro precisamos saber quem eram Ana e Odette. Miller assentiu. — Registros da cidade. — Jornais antigos. — Arquivos da igreja. Angelina olhou novamente para a menina. — Vamos encontrar a verdade. Odette não sorriu. Mas por um breve instante… Seus olhos pareceram menos tristes. E então ela desapareceu. O ar voltou a se mover. O som do vento retornou. Miller piscou. — Ela ainda está aqui? Angelina olhou ao redor. — Não. Miller fechou o caderno de anotações. — Então temos uma garota desaparecida… — Um pedido de ajuda enterrado no túmulo da mãe… — E um possível crime antigo. Angelina segurou a fotografia. — E uma promessa. Miller levantou uma sobrancelha. — Promessa? Angelina assentiu. — Nós vamos descobrir o que aconteceu com Odette. Miller respirou fundo. — Ok. Ela colocou as mãos nos bolsos. — Então vamos começar amanhã. Angelina olhou novamente para o cemitério silencioso. Algo dentro dela dizia que aquilo era apenas o começo. Porque se alguém havia levado Odette… E escondido a verdade por todos aqueles anos… Talvez ainda houvesse pessoas vivas… Que sabiam exatamente o que aconteceu naquela noite. E talvez… essas pessoas não quisessem que o segredo fosse revelado.
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