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1134 Words
A estrada de terra terminou alguns minutos depois. O carro de Miller entrou na rodovia que levava de volta à cidade, e pela primeira vez desde que haviam deixado a floresta, a paisagem começou a parecer normal novamente. Casas isoladas surgiam ao longo da estrada. Pequenas cercas de madeira. Campos verdes que balançavam suavemente com o vento da tarde. Mas mesmo com o cenário tranquilo, Angelina não conseguia relaxar. Ela mantinha os olhos fixos na estrada, enquanto uma sensação incômoda permanecia no fundo de sua mente. Era como um eco. Uma vibração fraca. Algo que ela não conseguia explicar. Miller percebeu o silêncio. — Você está sentindo também, não está? Angelina virou-se lentamente. — O quê? — Essa coisa estranha no ar. Angelina hesitou. — Talvez. Daniel inclinou-se levemente para frente no banco de trás. — A conexão. Angelina olhou para ele pelo espelho retrovisor. — Conexão? Daniel assentiu. — Você selou a criatura. — Isso cria um vínculo. Miller soltou um pequeno suspiro. — Claro. — Mais vínculos sobrenaturais. Angelina cruzou os braços. — Que tipo de vínculo? Daniel respondeu calmamente: — Algo antigo. — A criatura sente quem a selou. — E quem pertence à linhagem da guardiã pode sentir quando ela se move. Angelina ficou em silêncio por alguns segundos. — Então esse… eco… Daniel completou: — É ela. Miller bateu levemente no volante. — Ótimo. — Então agora temos um radar interno para monstros. Angelina tentou sorrir, mas a preocupação ainda estava ali. Ela olhou novamente para a estrada. A cidade estava cada vez mais próxima. Os prédios da universidade já podiam ser vistos ao longe. — Precisamos descobrir mais sobre a minha família — disse ela. Daniel concordou imediatamente. — Sim. — A história da sua linhagem pode explicar muita coisa. Miller levantou uma sobrancelha. — Biblioteca de novo? Angelina pensou por um momento. — Talvez não. — Minha avó. Miller olhou surpresa. — Você nunca mencionou sua avó. Angelina respirou fundo. — Porque ela sempre foi… estranha. Daniel inclinou a cabeça. — Estranha como? — Ela sempre falava de coisas que ninguém acreditava. Angelina olhou pela janela enquanto lembranças surgiam. — Histórias sobre espíritos. — Sobre segredos antigos da cidade. — Sobre proteger algo. Miller riu. — E você só está pensando nisso agora? Angelina deu de ombros. — Eu achava que ela estava apenas sendo dramática. Daniel falou com calma: — Muitas vezes as pessoas mais velhas sabem mais do que imaginamos. O carro entrou na cidade. As ruas estavam movimentadas. Pessoas caminhavam pelas calçadas. Cafés cheios. Estudantes atravessando a rua com mochilas. Tudo parecia perfeitamente normal. Angelina sentiu uma estranha sensação de contraste. Enquanto todos ali viviam suas vidas comuns… Algo antigo estava despertando sob a terra. Miller estacionou perto do dormitório da universidade. Ela desligou o motor. — Então. Ela olhou para os dois. — Próximo passo: visitar sua avó? Angelina assentiu. — Sim. Daniel perguntou: — Ela mora aqui na cidade? — Na verdade… não. Angelina respondeu. — Ela vive numa casa antiga fora da cidade. Miller suspirou. — Claro que vive. — Nada nessa história pode ser simples. Angelina abriu a porta do carro. — Vamos precisar de respostas. Daniel também saiu do veículo. Ele observou a universidade por um momento. — E precisamos nos mover rápido. Miller trancou o carro. — Por quê? Daniel respondeu: — Porque Arthur não vai desistir. Como se tivesse sido invocado pelo nome… Muito longe dali. Em uma casa antiga escondida entre árvores secas. Arthur Valen estava sentado diante de uma mesa coberta de papéis antigos. Mapas. Livros. Símbolos desenhados à mão. Uma vela n***a iluminava o quarto com uma luz fraca e tremulante. Uma mulher encapuzada entrou. — Mestre. Arthur levantou os olhos lentamente. — Sim? — A guardiã selou o círculo. Arthur sorriu levemente. — Eu esperava isso. A mulher parecia confusa. — Então… o ritual falhou? Arthur levantou-se da cadeira. — Não. Ele caminhou até a janela. Lá fora, a noite começava a cair sobre a floresta. — O ritual apenas mudou. A mulher hesitou. — Não entendo. Arthur virou-se. Seus olhos brilhavam com uma convicção quase fanática. — O selo foi reforçado. — Mas também foi despertado. Ele abriu um livro antigo sobre a mesa. Uma ilustração mostrava uma criatura enorme emergindo da terra. Uma figura colossal feita de pedra, raízes e terra. — Criaturas antigas não despertam de uma só vez. — Elas despertam… em partes. A mulher arregalou os olhos. — Então algo já está livre? Arthur assentiu lentamente. — Sim. Ele apontou para o desenho. — O primeiro fragmento. — O guardião da terra. A mulher deu um passo para trás. — Isso pode destruir a cidade. Arthur sorriu. — Exatamente. Ele fechou o livro. — E quando o caos começar… — A guardiã será forçada a voltar ao círculo. A mulher sussurrou: — E então? Arthur respondeu com calma absoluta. — Então terminaremos o ritual. De volta à universidade. Angelina, Miller e Daniel caminhavam pelo campus. As luzes dos postes começavam a acender. O céu estava ficando alaranjado. Estudantes conversavam animadamente nos jardins. Era difícil acreditar que, poucas horas antes, uma criatura ancestral havia tentado emergir da terra. Miller falou enquanto caminhavam. — Então vamos até a casa da sua avó amanhã. Angelina assentiu. — Sim. Daniel parecia pensativo. — Existe algo mais que precisamos considerar. Angelina perguntou: — O quê? Daniel respondeu: — Se parte da criatura realmente escapou… — Ela vai procurar algo. Miller franziu a testa. — Tipo o quê? Daniel respondeu: — Energia. — Vida. — Lugares onde a terra é mais forte. Angelina sentiu um arrepio. — Como a floresta. Daniel assentiu. — Ou… Ele olhou ao redor do campus. — Lugares antigos. Angelina parou de andar. — A universidade. Miller também percebeu. — Este lugar foi construído há mais de cem anos. Daniel assentiu lentamente. — Exatamente. No mesmo momento… Em algum lugar nos limites da cidade. O chão de um parque antigo começou a rachar. Primeiro uma pequena fissura. Depois outra. A terra se moveu lentamente. Raízes antigas começaram a emergir. Mas não eram raízes comuns. Elas se moviam. Como dedos gigantes feitos de madeira e pedra. Algo estava tentando subir. Algo que havia dormido por muito tempo. E agora… Estava finalmente encontrando seu caminho até a superfície. Muito longe dali… Angelina sentiu o eco novamente. Mais forte desta vez. Ela parou abruptamente no meio do campus. Miller olhou para ela. — O que foi? Angelina respondeu em voz baixa. — Ele está se movendo. Daniel perguntou imediatamente: — Onde? Angelina fechou os olhos por um segundo. Tentando sentir a direção. Quando abriu novamente… Seu rosto estava pálido. — Na cidade. O vento soprou entre os prédios da universidade. E pela primeira vez… A verdadeira batalha pela cidade parecia estar apenas começando.
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