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1079 Words
A noite caiu com um silêncio quase absoluto. A casa de Angelina parecia maior do que nunca, e cada passo ecoava pelos corredores antigos, carregados de histórias e segredos que ninguém mais poderia compreender. Angelina segurava firmemente a mão de Miller. Suas mãos tremiam levemente, não apenas por medo, mas pela intensidade da energia que podia sentir se acumulando ao redor do porão. — Tem certeza de que quer mesmo fazer isso agora? — perguntou Miller em um sussurro, os olhos arregalados. — Sim — respondeu Angelina com firmeza. — Não podemos esperar mais. Odette está presa a algo… e se não descobrirmos o que é, nada do que fizermos vai salvá-la. O corredor que levava ao porão estava frio e úmido. Cada passo fazia o chão ranger, e uma sensação estranha de presença parecia segui-las. Angelina podia sentir a energia dos espíritos, mas também algo mais pesado… mais maligno. Como se o culto estivesse ciente de que algo aconteceria ali. Quando chegaram à porta do porão, Angelina parou. A madeira antiga estava marcada por símbolos estranhos. Alguns gravados profundamente, outros riscados de forma apressada, como se tivessem sido feitos com urgência. Uma aura de poder emanava da porta, misturando-se ao cheiro de mofo e terra úmida. — Isso não parece seguro — disse Miller, observando os símbolos. — Não é para ser seguro — murmurou Angelina. — Mas é necessário. Ela colocou a mão sobre a madeira. Um frio percorreu seu braço. Então empurrou a porta. Ela se abriu com um rangido longo e pesado. Uma escada estreita descia para a escuridão. O ar gelado subiu imediatamente, fazendo Miller estremecer. — Eu sinto… — disse Angelina, respirando fundo — a presença dela. Odette está aqui. Miller apertou a lanterna. — Então vamos acabar com isso. Elas começaram a descer. Cada degrau rangia. As sombras nas paredes pareciam se mover com vida própria. Quando chegaram ao final da escada, a lanterna iluminou um espaço amplo e antigo. Caixas empilhadas. Livros cobertos de poeira. Objetos esquecidos pelo tempo. E no centro… Um círculo de velas apagadas. Dentro dele, uma arca pesada de madeira escura. Símbolos antigos estavam gravados em sua superfície. Angelina se aproximou lentamente. — É aqui. Ela podia sentir. A energia espiritual era forte demais. — Odette… — murmurou — você está aqui. Quando tocou na arca… Uma rajada de vento percorreu o porão. A lanterna de Miller quase caiu de sua mão. O ar ficou gelado. A respiração das duas se tornou visível. Angelina sentiu o poder ancestral de sua linhagem despertar dentro de si. Uma proteção invisível parecia envolver seu corpo. Então veio o som. Um murmúrio baixo. Quase como vozes sussurrando ao mesmo tempo. As sombras começaram a se mover nas paredes. — Angie… — disse Miller, nervosa — o que é isso? — Não é humano — respondeu Angelina. Ela respirou fundo. — Mas nós podemos enfrentar. Angelina ergueu as mãos e começou a traçar símbolos no ar. As sombras hesitaram. Recuaram alguns centímetros. Foi então que uma forma translúcida apareceu diante delas. Odette. A pequena menina fantasma parecia pálida, frágil, com olhos cheios de tristeza. Ela estendeu as mãos em direção a Angelina. Uma voz ecoou na mente da jovem. — Eles me fizeram m*l… ninguém me encontrou… não posso descansar… Angelina sentiu lágrimas nos olhos. — Eu sei. Ela respirou fundo. — Nós vamos corrigir isso. — Mas precisamos abrir a arca. Angelina levantou lentamente a tampa. Um cheiro forte de terra molhada tomou o porão. Dentro estavam ossos pequenos e frágeis. Alguns quebrados pelo tempo. Ao lado deles, objetos infantis. Um sapatinho pequeno. Um colar simples. Um ursinho de pano gasto. Miller levou a mão à boca. — Meu Deus… Angelina sentiu a dor no peito. — É ela. — Eles esconderam o corpo dela aqui… Miller sussurrou: — Quem faria uma coisa dessas? Angelina fechou os olhos por um instante. — O culto. — Ou alguém que queria esconder o crime. Ela respirou fundo. — Mas isso acaba agora. Angelina começou a recolher cuidadosamente os ossos de Odette. Enquanto fazia isso, o ar mudou novamente. O porão ficou pesado. Frio. As sombras começaram a se agitar violentamente. Objetos caíram das prateleiras. A lanterna piscou. — Miller… segura minha mão! — gritou Angelina. As sombras se contorceram. Tomaram forma. Figuras quase humanas surgiram no escuro. Olhos vermelhos se abriram. Uma voz horrenda ecoou pelo porão: — NÃO PODEM MUDAR O PASSADO! Angelina sentiu o poder de sua linhagem pulsar dentro dela. Ela fechou os olhos. Começou a entoar palavras antigas. Invocando os espíritos de suas antepassadas. Uma luz azul-dourada surgiu ao redor delas. Formando um escudo poderoso. As sombras avançaram. Mas foram repelidas. Como se atingissem uma parede invisível. Angelina abriu os olhos. — Eu não vou permitir que machuquem Odette. A voz dela ecoou firme. — Eu sou protegida por aqueles que vieram antes de mim. As sombras gritaram. Mas começaram a recuar. Odette aproximou-se dos próprios ossos. Uma luz suave começou a envolvê-la. Angelina segurou a pequena caixa improvisada com os restos mortais. — Precisamos levá-la até o cemitério. Miller assentiu. — Até o túmulo da mãe dela. Sem perder tempo, as duas subiram as escadas. O porão ficou silencioso atrás delas. Mas a sensação de vigilância ainda permanecia. Elas entraram no carro rapidamente. O cemitério ficava a alguns quilômetros da casa. A estrada parecia interminável naquela noite. O silêncio dentro do carro era pesado. Mas Odette estava ali. Sentada no banco de trás. Observando em silêncio. Quando finalmente chegaram ao cemitério, a lua iluminava as lápides antigas. O vento soprava suavemente. Angelina encontrou o túmulo de Ana. Mãe de Odette. Elas cavaram a terra com cuidado ao lado da lápide. Cada movimento parecia carregado de respeito. Quando terminaram, Angelina colocou os ossos de Odette dentro da cova. — Agora você está com sua mãe — murmurou. A terra foi colocada de volta. O vento soprou mais forte. Uma luz suave surgiu atrás delas. Odette apareceu novamente. Mas desta vez ela parecia diferente. Mais tranquila. Mais leve. Ela sorriu. Um sorriso pequeno… mas cheio de paz. — Obrigada… A voz ecoou suavemente. A luz ao redor dela cresceu. E lentamente… A menina desapareceu. Livre. Miller deixou escapar um suspiro tremido. — Ela conseguiu descansar… Angelina olhou para o céu. Sentindo algo mudar no ar. — Sim. Mas dentro de seu coração ela sabia uma coisa. A história de Odette havia terminado. Mas a batalha contra o culto… Apenas começava.
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