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1256 Words
A Fotografia que Nunca Devia Existir A sala no segundo andar do prédio antigo parecia respirar um ar pesado, quase sufocante. Angelina ainda segurava a fotografia. As mãos tremiam levemente. Ela olhava para a imagem repetidamente, como se esperasse que aquilo fosse mudar… desaparecer… revelar que era apenas um engano. Mas não era. A casa na foto era inconfundível. O telhado inclinado. As janelas antigas. A varanda de madeira. A árvore grande no quintal. Era a casa onde ela tinha crescido. A casa de sua família. — Angie… — disse Miller baixinho. Angelina levantou os olhos. Miller estava olhando para ela com preocupação. — O que foi? Angelina mostrou a fotografia. Miller pegou o papel. Observou com atenção. — Essa casa… Angelina respondeu com a voz baixa. — É a casa dos meus pais. O silêncio que se seguiu foi pesado. Muito pesado. Miller olhou novamente para a foto. — Então isso… não é coincidência. Angelina sentiu um nó no estômago. — Não. Miller caminhou lentamente pela sala. Observando o círculo desenhado no chão. — Quem quer que tenha feito isso sabia exatamente o que estava fazendo. Angelina olhou novamente para o círculo. O sangue ainda parecia fresco. Aquilo tinha sido feito recentemente. Muito recentemente. — Daniel foi morto aqui. Miller assentiu. — E deixaram isso para você encontrar. Angelina sentiu um frio profundo. — Como se fosse uma mensagem. Miller levantou a fotografia novamente. — Ou um aviso. Angelina fechou os olhos por um momento. Sua mente estava cheia de perguntas. Demais perguntas. Por que a casa dela? Por que Odette? Por que aquele espírito queria impedir que ela descobrisse o passado? Miller quebrou o silêncio. — Você já viu essa foto antes? Angelina abriu os olhos. — Não. — Tem certeza? — Tenho. Miller virou a foto. Atrás havia algo escrito. Uma frase curta. Com tinta preta. Ela leu em voz baixa. — "Foi aqui que começou." Angelina sentiu o coração bater mais forte. — O que começou? Miller levantou os olhos. — Acho que precisamos voltar para sua casa. Angelina ficou em silêncio. Ela sabia que Miller estava certa. Mas também sabia que aquilo poderia significar enfrentar algo que sua família tinha escondido por anos. Mesmo assim… Ela assentiu. — Vamos. --- O Peso do Passado Elas voltaram para o carro. O campus estava cada vez mais agitado. A polícia ainda investigava o novo assassinato. Mas agora Angelina tinha certeza de algo. Aquele crime não era apenas mais um. Era uma mensagem. E a mensagem era para ela. Enquanto dirigia para fora do campus, Miller falava. — Vamos pensar nisso com calma. Angelina manteve os olhos na estrada. — Certo. — O espírito que me possuiu queria impedir você de descobrir algo. — Sim. — Odette quer exatamente o contrário. Angelina assentiu. — Ela quer que eu descubra a verdade. Miller olhou pela janela. — Então a pergunta é… Ela virou-se novamente para Angelina. — O que aconteceu naquela casa? Angelina sentiu um aperto no peito. — Eu não sei. E aquilo era verdade. Ela tinha vivido ali por anos. Mas nunca tinha visto nada estranho. Nada sobrenatural. Nada que sugerisse que aquele lugar escondia algo tão terrível. Miller falou novamente. — Você mencionou um quarto secreto. Angelina assentiu. — Sim. — Talvez não seja o único. Angelina pensou nisso por alguns segundos. — Você acha que existe mais? Miller deu de ombros. — Casas antigas costumam ter segredos. Angelina não respondeu. Porque naquele momento algo passou pela mente dela. Uma lembrança antiga. Muito antiga. Algo que ela tinha esquecido. Ou talvez algo que sua mente tinha tentado esquecer. — Miller… — Sim? — Quando eu era criança… Ela hesitou. — Eu lembro de ouvir barulhos na casa. Miller virou-se imediatamente. — Que tipo de barulhos? Angelina tentou organizar as lembranças. — Passos. — Passos? — Sim. — À noite? Angelina assentiu. — Eu sempre pensei que fosse meu pai andando pela casa. Miller ficou pensativa. — E você nunca investigou? Angelina balançou a cabeça. — Eu era criança. Miller cruzou os braços. — E seus pais? — Eles sempre diziam que era minha imaginação. O carro continuava avançando pela estrada. Mas agora o silêncio era diferente. Mais carregado. Mais inquietante. Miller finalmente disse: — Talvez sua imaginação estivesse certa. Angelina sentiu um arrepio. --- A Casa Algumas horas depois… Elas chegaram à cidade onde Angelina tinha crescido. Era uma cidade pequena. Tranquila. Daquelas onde todo mundo se conhece. As ruas pareciam exatamente como Angelina lembrava. Lojas antigas. Casas simples. Árvores nas calçadas. Mas agora tudo parecia diferente. Como se houvesse algo escondido sob aquela normalidade. Angelina virou na rua onde ficava sua antiga casa. Seu coração começou a bater mais rápido. A casa ainda estava lá. Exatamente como na fotografia. Mesma varanda. Mesmas janelas. Mesma árvore no quintal. Angelina estacionou o carro. Por alguns segundos, nenhuma das duas saiu. — Está pronta? — perguntou Miller. Angelina não respondeu imediatamente. Ela olhava para a casa. Sentindo algo estranho. Algo familiar. Algo que parecia observá-la. — Não — disse finalmente. — Eu também não — respondeu Miller. Mesmo assim… Elas saíram do carro. Angelina caminhou até a porta. Pegou a chave na bolsa. Ela ainda tinha uma cópia. Seus pais estavam viajando. A casa estava vazia. Ela abriu a porta lentamente. O cheiro familiar da casa a atingiu imediatamente. Madeira. Poeira. E algo mais. Algo difícil de identificar. Elas entraram. O interior parecia exatamente como Angelina lembrava. Sala. Sofá. Mesa de jantar. Fotos de família nas paredes. Mas agora tudo parecia diferente. Como se aquele lugar escondesse algo. Miller olhava ao redor. — Estranho. — O quê? — Parece uma casa normal. Angelina deu um pequeno sorriso nervoso. — Porque é. Miller respondeu baixinho. — Talvez não seja. Elas começaram a explorar. Primeiro a sala. Depois a cozinha. Tudo parecia normal. Até que… Angelina parou no corredor. — O que foi? — perguntou Miller. Angelina apontou. — Meu quarto era ali. Miller olhou para a porta. — Vamos ver. Angelina abriu a porta lentamente. O quarto estava quase igual. A cama. A escrivaninha. Alguns livros antigos. Mas algo chamou a atenção de Miller imediatamente. A parede. Havia marcas nela. Riscos. Como arranhões. Angelina se aproximou. Seu coração começou a bater mais rápido. — Eu nunca vi isso antes. Miller passou os dedos sobre os arranhões. — Isso não parece antigo. Angelina franziu a testa. — O que você quer dizer? — Parece recente. Angelina sentiu um frio no estômago. — Recente? Miller assentiu. — Alguém esteve aqui. Um barulho ecoou no andar de baixo. As duas congelaram. Silêncio. Depois… Outro barulho. Como uma porta se movendo. Miller sussurrou: — Estamos sozinhas aqui? Angelina respondeu baixinho: — Eu achei que sim. O barulho veio novamente. Mais forte. As duas se olharam. E então ouviram algo que fez o sangue delas gelar. Passos. Lentos. Subindo as escadas. Alguém… Ou algo… Estava subindo. O coração de Angelina batia tão forte que parecia ecoar no quarto. Miller deu um passo para trás. — Angie… Os passos continuaram. Lentos. Pesados. Degrau por degrau. Até que pararam no corredor. Bem diante da porta. O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Angelina respirava com dificuldade. Miller estava imóvel. Então… A maçaneta começou a se mover. Lentamente. Muito lentamente. Como se alguém estivesse tentando abrir a porta. Angelina sentiu o terror tomar conta do corpo. E naquele momento ela percebeu algo. Algo que fez o medo crescer ainda mais. A porta… estava trancada por dentro. Mesmo assim… a maçaneta continuava girando.
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