O riso que saiu da boca de Miller ecoou dentro do carro como algo vivo.
Não era apenas um som.
Era algo pesado.
Algo que parecia encher o ar.
Angelina apertou o volante com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
A estrada continuava escura à sua frente, iluminada apenas pelos faróis do carro. As árvores dos dois lados formavam sombras alongadas que se moviam lentamente com o vento da madrugada.
Mas o que realmente a aterrorizava estava atrás dela.
No banco traseiro.
Amarrada.
Rindo.
Ou melhor… algo rindo através de Miller.
Angelina respirou fundo, tentando manter o controle do carro.
— Cala a boca… — murmurou, mais para si mesma do que para a coisa que falava.
Por alguns segundos, o silêncio voltou.
Mas então…
A voz voltou.
— Você está com medo.
Angelina não respondeu.
— Eu consigo sentir.
Angelina apertou os dentes.
— Você não é Miller.
A resposta veio imediatamente.
— Não.
A palavra saiu arrastada.
Como se a boca que a pronunciava não estivesse acostumada a falar.
Angelina olhou rapidamente pelo retrovisor.
Miller estava sentada no banco traseiro, presa pelas cordas.
A cabeça inclinada de forma estranha.
Os olhos fixos nela.
Sem piscar.
Os olhos sem vida alguma.
Angelina voltou o olhar para a estrada.
— Quem é você?
Silêncio.
Então o corpo de Miller começou a se contorcer.
As cordas rangiam.
— Você não devia ter entrado naquele lugar
Angelina sentiu um arrepio atravessar sua coluna.
A casa.
O quarto secreto.
— O que aconteceu com Odette?
A resposta demorou alguns segundos.
— O passado… deve permanecer enterrado.
Angelina bateu com a mão no volante.
— Não!
O grito ecoou dentro do carro.
— Pessoas morreram!
O rosto de Miller se contorceu em um sorriso.
— Sim.
Angelina sentiu o coração afundar.
— Foi você.
— Foram sacrifícios.
Angelina freou bruscamente.
O carro deslizou um pouco no asfalto.
Ela virou-se completamente para trás.
— Você matou aquelas pessoas?!
O sorriso ficou ainda mais largo.
— Eles abriram a porta.
Angelina sentiu uma onda de náusea.
— Eles eram inocentes!
A voz respondeu calmamente.
— Ninguém é inocente.
O carro estava parado no meio da estrada agora.
A noite parecia ainda mais escura.
Angelina respirava rápido.
Tentando entender.
Tentando juntar as peças.
— Você quer impedir que eu descubra a verdade.
A entidade dentro de Miller ficou em silêncio.
Mas o sorriso desapareceu.
— Você já sabe demais.
Angelina ligou o carro novamente.
— Então eu estou no caminho certo.
Ela acelerou.
A estrada voltou a correr sob os faróis.
O GPS indicava:
63 km restantes.
Mas o clima dentro do carro parecia cada vez mais pesado.
Miller começou a se mexer novamente.
As cordas rangiam.
— Você acha que aquele padre pode te salvar?
Angelina não respondeu.
— Ele não pode.
Angelina manteve os olhos na estrada.
— Vamos descobrir.
Miller riu novamente.
Mas desta vez o riso era mais baixo.
Mais frio.
— Você não entende…
A cabeça dela virou lentamente para o lado.
Como se estivesse ouvindo algo que Angelina não podia ouvir.
Então falou algo que fez o sangue de Angelina gelar.
— Ela está aqui.
Angelina franziu a testa.
— Quem?
Os olhos de Miller se moveram.
Olhando para o banco ao lado de Angelina.
Angelina sentiu um arrepio imediato.
Ela não queria olhar.
Mas algo dentro dela a fez virar lentamente a cabeça.
O banco do passageiro estava vazio.
Mas o ar ali parecia diferente.
Mais frio.
Então…
Muito devagar…
Uma pequena mão apareceu.
Como se estivesse saindo da escuridão.
Angelina sentiu o coração parar.
A mão era pequena.
Pálida.
Manchada de algo escuro.
Sangue.
Então o resto da figura apareceu.
Sentada no banco do passageiro.
Uma menina.
Vestido antigo.
Cabelos longos.
Rosto manchado de sangue.
Odette.
Angelina perdeu o fôlego.
— Meu Deus…
A menina não falava.
Apenas olhava para frente.
Para a estrada.
Os olhos estavam tristes.
Mas havia algo mais ali.
Medo.
Angelina sussurrou:
— Odette…
No banco traseiro, Miller começou a rir novamente.
— Ela não pode te ajudar.
Odette virou lentamente a cabeça.
Olhou para trás.
Para Miller.
E algo mudou.
A expressão triste desapareceu.
Substituída por algo que Angelina nunca tinha visto.
Raiva.
As luzes do carro começaram a piscar.
O rádio ligou sozinho.
Um chiado estranho encheu o veículo.
Angelina tentou manter o controle do volante.
— O que está acontecendo?!
Miller começou a gritar.
Um grito horrível.
Como se estivesse sendo machucada.
As cordas começaram a se mexer sozinhas.
Como se algo invisível as estivesse puxando.
Odette levantou lentamente uma das mãos.
O ar dentro do carro ficou congelante.
A temperatura parecia ter despencado.
Angelina via o próprio vapor da respiração.
— Odette… para!
Mas Odette continuava olhando para Miller.
E então falou.
Pela primeira vez.
A voz era fraca.
Como um eco distante.
— Sai… dela!…
O corpo de Miller se contorceu violentamente.
A entidade respondeu através dela.
— Ela é minha agora.
Angelina sentiu lágrimas escorrerem.
— Por favor… não machuquem ela!
O carro começou a tremer.
O volante vibrava nas mãos de Angelina.
Odette fechou os olhos.
E gritou.
Um grito agudo.
Sobrenatural.
A luz do carro apagou por um segundo.
Quando voltou…
Miller estava caída novamente.
Inconsciente.
Odette também havia desaparecido.
O carro ficou em silêncio.
Apenas o som do motor.
E da respiração pesada de Angelina.
Ela olhou rapidamente pelo retrovisor.
Miller estava imóvel.
Sem sinal da entidade.
Sem sinal de Odette.
Angelina olhou para o GPS.
28 km restantes.
Ela limpou as lágrimas.
— Aguenta, Miller…
Então acelerou novamente.
A igreja estava perto.
E ela precisava chegar antes que aquela coisa voltasse.
Porque no fundo do coração…
Angelina sabia de algo terrível.
Aquilo que possuía Miller…
não tinha medo de igrejas.
E talvez…
nem mesmo de Deus.
Mas acreditava que o padre , que encontrou na internet conseguiria tirar aquilo da amiga , tinha de ser alguém que já lidou com espíritos malignos antes.
Angelina, se odiava por ter colocado Miller naquela situação toda .