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1430 Words
O ar no parque Riverside estava carregado de tensão. O vento frio da madrugada parecia mais pesado, quase sufocante, e o cheiro de terra úmida misturado à água do lago fazia a respiração de Angelina e Miller se tornar lenta, quase ritualística. Ao redor deles, a cidade dormia, alheia ao perigo que se agitava à margem do lago, mas para as três — Angelina, Miller e Daniel — cada instante parecia eterno. A criatura de pedra e raízes se movia com uma lentidão calculada, observando Angelina com olhos que brilhavam como brasas verdes. A energia da guardiã, que ela havia aprendido a canalizar, piscava como um farol dentro dela, pulsando em sintonia com a criatura. Mas ela sabia que não seria fácil: a barreira construída pelos antepassados nunca fora testada fora do círculo original. Agora, a criatura não estava apenas livre; estava ciente, consciente, e algo na sua consciência primitiva reconhecia a presença de Angelina. — Eles estão cercando você — disse Daniel, apontando discretamente para os homens da Fundação Arken. Equipamentos de contenção brilhavam com uma luz azul intensa, disparando fios energéticos que visavam aprisionar a massa viva de raízes e pedra. — Mas você ainda é a única que pode controlar isso. Miller engoliu em seco. — E se você não conseguir? Angelina respirou fundo, sentindo a pulsação da energia em suas veias. Cada fio de sua linhagem ancestral se mexia dentro dela, e a lembrança de Odette surgia em sua mente. A pequena menina que havia sido enterrada separada da mãe, agora finalmente em paz, ainda deixava rastros de sua presença. Mas o que estava à frente não era Odette. Era algo mais antigo. Algo que só a descendente de sua linhagem podia enfrentar. — Fiquem atrás de mim — ordenou Angelina, com a voz firme. — Se eu falhar… pelo menos vocês terão uma chance de escapar. Ela fechou os olhos e começou a entoar palavras em uma língua antiga, quase esquecida. O vento começou a girar ao redor do lago, levantando pequenas ondas, fazendo com que a superfície da água refletisse raios de luz sobrenatural. As raízes da criatura se agitavam, levantando pequenas nuvens de lama e pedra, como se percebesse que a guardiã finalmente estava desperta. De repente, a criatura avançou em um ataque descontrolado. O chão tremeu sob seus passos, fazendo com que árvores próximas estalassem e galhos caíssem sobre o caminho. A força de seus braços gigantes derrubou bancos e postes próximos, espalhando água do lago e terra em todas as direções. — Miller! — gritou Angelina, enquanto desviava de uma raiz que se projetava como uma lança viva. — Estou atrás de você! — respondeu Miller, tentando manter a lanterna firme. Daniel, por sua vez, corria para ajudar, disparando pequenos pulsos de energia azul dos equipamentos da Fundação Arken. Mas cada tentativa parecia insuficiente. A criatura era resistente, antiga, e algo em sua essência não podia ser detido por tecnologia humana. Angelina estendeu as mãos para a criatura. A luz azul que emanava de seu corpo começou a envolver as raízes, aquecendo cada fibra, quase queimando a energia da própria terra. A criatura gritou, um som gutural que fez a água do lago vibrar em ondas concêntricas. Mas ainda não recuava. — Respirem! — gritou Angelina. — Concentrem-se na energia, sintam os espíritos comigo! Ela sentiu a presença das antepassadas. A força daquelas mulheres, bruxas respeitadas e temidas em sua vila, pulsava dentro dela. Cada palavra antiga que ela pronunciava fortalecia o vínculo com a criatura, mas também com o próprio mundo ao redor. Miller e Daniel observavam, cada vez mais conscientes de que o destino do parque, da cidade e possivelmente de todos ao redor estava nas mãos de Angelina. A criatura avançou de novo, mas dessa vez Angelina conseguiu canalizar a energia de forma mais intensa. Uma explosão de luz azul-dourada surgiu entre eles, e a criatura estacou, como se estivesse sendo repelida por algo maior do que sua própria força. — Isso está funcionando! — gritou Miller, mas a voz dela quase foi levada pelo rugido da massa viva. Angelina sentiu uma presença diferente, mais sombria, infiltrando-se na energia. Não era apenas a criatura; havia algo manipulando por trás, algo que queria ver a guardiã falhar. Ela franziu a testa, tentando localizar a fonte da presença. Então percebeu: não era mais só o monstro do lago. Havia sombras se movendo rapidamente entre as árvores ao redor do parque, figuras encapuzadas que a observavam, preparando-se para intervir. — É o culto! — disse Daniel, enquanto recuava alguns passos. — Eles vieram para capturar você! Angelina respirou fundo. — Então teremos que impedir que eles consigam isso. Ela começou a entoar novamente palavras de proteção, e a energia em torno dela começou a formar barreiras visíveis, como um campo azul-dourado que se expandia a cada pulsar de seu coração. A criatura rugiu, e suas raízes começaram a se contorcer violentamente, como se quisesse devorar a própria luz que a mantinha presa. — Miller, Daniel — disse ela — fiquem atrás de mim. Não toquem a energia, apenas sintam-na. Eu preciso da força de vocês. Eles assentiram, colocando as mãos no ar, como se pudessem sentir a vibração da energia ao redor. Cada pensamento deles se conectava à força de Angelina, e a sensação era quase física: um calor intenso percorria seus corpos, misturado a um frio sobrenatural que os fazia tremer. A criatura tentou atacar novamente, e dessa vez foi mais violenta. Raízes se esticaram como serpentes, atingindo o chão, arremessando pedras e água em todas as direções. Mas Angelina manteve a concentração. Cada palavra pronunciada reverberava com força, cada símbolo traçado no ar criava barreiras invisíveis que defendiam não apenas a si mesma, mas também Miller, Daniel e qualquer pessoa que estivesse próxima. — Eu… eu não sei se consigo — murmurou Miller, os olhos arregalados. — Você já consegue — respondeu Angelina, sem tirar os olhos da criatura. — Acredite na nossa linhagem. Acredite em mim. A criatura, agora totalmente fora do lago, começou a se levantar, ganhando altura e imponência. Cada movimento fazia a terra tremer. Mas então, uma luz mais intensa começou a surgir. Não era apenas a energia de Angelina. Eram os espíritos das antepassadas, invisíveis para Miller e Daniel, mas presentes, como uma legião de mulheres antigas que guiavam a jovem guardiã. Angelina sentiu cada uma delas tocando sua mente, fortalecendo sua conexão. Ela ergueu os braços e, com um último grito, concentrou toda a energia em um ponto específico do monstro: o coração da massa viva. Uma explosão de luz azul-dourada envolveu toda a criatura, que gritou, rugindo em agonia. — Agora! — gritou Daniel. Miller começou a correr em direção à margem do lago, segurando o dispositivo que disparava fios de contenção. Angelina concentrou toda a força na criatura. Raízes começaram a se encolher, pedra se desintegrando, e a massa viva começou a perder sua forma, derretendo lentamente em uma mistura de água, terra e energia descontrolada. A luz azul-dourada cresceu até preencher todo o parque. O vento se intensificou, levantando folhas, detritos, pequenas pedras. Os homens da Fundação Arken recuaram, tentando manter o controle de seus dispositivos, mas eram impotentes diante da força concentrada da guardiã. E então, com um último rugido, a criatura se desfez. Não restava nada além de água calma, terra quieta e algumas pedras quebradas. O silêncio caiu abruptamente, pesado, quase sufocante. Miller respirou fundo. — Conseguimos…? Angelina, ainda em posição defensiva, abaixou os braços lentamente. — Por enquanto… sim. Mas ainda há sombras por aí. Daniel franziu a testa. — Isso não terminou. O culto vai querer revanche, e eles sabem exatamente quem você é. Angelina assentiu. — Eu sei. Mas agora… pelo menos, temos alguma vantagem. Ela olhou para o lago, agora calmo. — E talvez tenha chegado a hora de descobrir toda a verdade sobre a nossa linhagem. Não apenas a parte que protege, mas a que nos conecta ao sobrenatural, aos rituais, e às forças que alguns tentaram controlar por séculos. Miller se aproximou, ainda tremendo, mas determinada. — Então vamos fazer isso juntas. Angelina sorriu, mas com uma determinação feroz nos olhos. — Sim. Juntas. E enquanto a luz da manhã começava a tocar o parque Riverside, um último eco distante pôde ser ouvido: uma risada baixa, quase inaudível, mas carregada de ameaça. As sombras recuaram, mas estavam apenas esperando. Esperando o momento certo para agir novamente. — O jogo está apenas começando — murmurou Angelina, mais para si mesma do que para qualquer um. — E desta vez… não há escapatória.
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