A noite estava silenciosa demais.
Angelina não sabia exatamente o que a acordou. Talvez tivesse sido um sonho r**m, ou talvez tivesse sido apenas aquele estranho pressentimento que às vezes surgia sem explicação.
Ela abriu os olhos devagar.
O quarto da residência universitária estava mergulhado em uma penumbra azulada, iluminado apenas pela fraca luz que vinha do poste do lado de fora da janela.
Por alguns segundos, Angelina ficou imóvel, ouvindo.
Nada.
Apenas o som distante do vento passando entre os prédios do campus.
Ela virou o rosto em direção à outra cama.
Miller estava lá.
Ou pelo menos… deveria estar.
Angelina franziu levemente a testa.
Algo estava errado.
Miller estava sentada na beira da cama.
Mas havia algo estranho na forma como ela se movia.
Muito devagar.
Muito rígida.
Como se cada gesto fosse calculado… ou controlado por algo invisível.
Angelina ergueu um pouco o corpo.
— Miller…?
Nenhuma resposta.
A amiga levantou-se lentamente.
Os pés tocaram o chão com um movimento mecânico.
Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha.
Miller caminhou em direção à porta.
Sem fazer barulho.
Sem olhar para trás.
Sem dizer uma única palavra.
Angelina sentou-se completamente na cama agora.
— Miller…?
Nada.
A porta abriu.
E Miller saiu para o corredor.
Angelina permaneceu alguns segundos olhando para a porta entreaberta.
Algo dentro dela gritava que aquilo não era normal.
Não era apenas alguém indo ao banheiro.
Não era alguém com insônia.
Era outra coisa.
Algo errado.
Muito errado.
Ela levantou-se da cama.
O chão frio fez seus pés estremecerem.
Angelina caminhou devagar até a porta.
Abriu um pouco mais.
O corredor estava vazio.
Mas no final dele…
Ela viu Miller.
Caminhando.
Da mesma forma estranha.
Passos lentos.
Movimentos rígidos.
Quase robóticos.
Angelina engoliu seco.
— Miller… espera.
Mas Miller continuou andando.
Como se não tivesse ouvido.
Angelina começou a segui-la.
O silêncio do dormitório era quase opressor.
Todas as portas estavam fechadas.
Os outros estudantes dormiam.
Ou pelo menos deveriam estar dormindo.
Miller virou à direita no corredor.
Angelina apressou o passo.
Quando virou a esquina…
Viu algo que fez seu coração disparar.
Miller não estava indo para o banheiro.
Nem para a cozinha comum.
Ela estava indo para as escadas.
As escadas que levavam para o outro lado do prédio.
Para o dormitório masculino.
— Miller… — sussurrou Angelina, confusa.
Miller desceu as escadas lentamente.
Angelina hesitou.
Depois começou a descer também.
Seu coração batia cada vez mais rápido.
Havia algo profundamente errado naquela situação.
Quando chegaram ao piso inferior, Miller atravessou o corredor e empurrou uma porta.
Angelina parou abruptamente.
A placa na parede dizia claramente:
Dormitório Masculino.
— Miller… o que você está fazendo…?
Mas Miller continuou andando.
Angelina entrou também.
O corredor estava escuro.
Algumas luzes fracas iluminavam o caminho.
Portas fechadas.
Silêncio absoluto.
Miller caminhava como se soubesse exatamente para onde estava indo.
Então ela parou.
No meio do corredor.
Angelina estava a poucos metros atrás.
— Miller?
Miller virou-se.
E naquele momento…
Angelina sentiu o sangue gelar.
Porque aquilo…
Não parecia Miller.
Os olhos estavam estranhos.
Vazios.
Sem expressão.
O rosto estava imóvel.
Sem emoção.
Sem reconhecimento.
E na mão dela…
Havia uma faca.
Angelina deu um passo para trás.
— Miller…?
A amiga inclinou ligeiramente a cabeça.
Como se estivesse estudando Angelina.
Como se estivesse olhando para algo que não reconhecia.
Então deu um passo em direção a ela.
Angelina sentiu o coração disparar.
— Miller, sou eu!
Nenhuma resposta.
Outro passo.
A faca brilhou sob a luz fraca do corredor.
Angelina começou a tremer.
— Miller… você está me assustando.
Então Miller falou.
Mas a voz…
Não parecia a dela.
Era baixa.
Rouca.
Arrastada.
— Você… não devia ter voltado…
Angelina congelou.
— O quê?
Miller avançou.
Rapidamente.
Angelina recuou.
— Miller, pare!
Mas ela não parou.
A faca cortou o ar.
Angelina conseguiu desviar por pouco.
Seu coração batia descontroladamente.
— Miller! Acorda!
Mas Miller parecia não ouvir.
Ela atacou novamente.
Angelina tropeçou contra a parede.
A faca passou perigosamente perto de seu braço.
— Meu Deus!
Ela empurrou Miller com força.
Mas Miller parecia estranhamente forte.
Como se algo estivesse controlando seu corpo.
Seus movimentos eram rápidos.
Brutais.
Sem hesitação.
Outro golpe.
Angelina conseguiu agarrar o braço dela.
As duas lutaram.
A faca caiu no chão com um barulho metálico.
Mas Miller empurrou Angelina contra a parede.
Angelina sentiu o ar sair de seus pulmões.
Os olhos de Miller estavam fixos nela.
Friamente.
Sem humanidade.
— Você… não pode mudar o passado…
Angelina sentiu um arrepio profundo.
A mesma frase.
A voz que tinham ouvido naquela noite na casa.
— Quem está falando através de você?! — gritou Angelina.
Miller tentou agarrar o pescoço dela.
Angelina reagiu instintivamente.
Empurrou com toda a força.
As duas caíram no chão.
Angelina rolou para longe.
A faca estava a poucos metros.
Mas Miller foi mais rápida.
Pegou a faca novamente.
Levantou-se.
E avançou.
Angelina sentiu o pânico tomar conta.
— Miller, por favor!
Mas Miller levantou a faca.
Pronta para atacar.
E então…
Algo aconteceu.
As luzes do corredor começaram a piscar.
Um vento gelado atravessou o lugar.
Angelina sentiu o ar ficar pesado.
Estranho.
Miller também parou por um segundo.
Como se algo a tivesse distraído.
Uma sombra moveu-se na parede atrás dela.
Angelina viu.
Claramente.
A silhueta de uma menina.
Pequena.
Imóvel.
Os cabelos longos.
O vestido antigo.
Odette.
Miller virou a cabeça bruscamente.
Como se tivesse sentido algo.
Mas naquele instante…
Seu corpo estremeceu violentamente.
A faca caiu de sua mão.
Ela levou as mãos à cabeça.
E soltou um grito.
Um grito que não parecia humano.
— NÃO!
Angelina ficou paralisada.
Miller caiu de joelhos.
Seu corpo tremia.
— NÃO! NÃO! NÃO!
A voz ecoava pelo corredor.
Mas parecia vir de duas vozes diferentes.
Uma era de Miller.
A outra…
Não.
Era mais profunda.
Mais antiga.
Mais sombria.
Angelina levantou-se lentamente.
— Odette…? — sussurrou.
A sombra da menina continuava na parede.
Imóvel.
Observando.
Miller gritou novamente.
Então seu corpo simplesmente caiu.
Inerte.
Inconsciente.
O silêncio voltou ao corredor.
Angelina correu até ela.
— Miller!
Ela sacudiu a amiga.
— Miller, acorda!
Nada.
Ela ainda respirava.
Mas estava completamente desacordada.
Angelina sentiu as mãos tremerem.
Olhou ao redor.
O corredor estava vazio novamente.
A sombra de Odette havia desaparecido.
Como se nunca tivesse estado ali.
Angelina sentou-se no chão ao lado da amiga.
Tentando recuperar o fôlego.
Seu coração ainda batia descontroladamente.
Algo tinha possuído Miller.
Algo que não queria que Angelina continuasse investigando.
Algo que sabia sobre o passado.
Sobre Odette.
Sobre sua família.
E agora…
Aquilo tinha tentado matá-la.
Angelina olhou para o rosto inconsciente de Miller.
— O que está acontecendo…?
Mas no fundo de sua mente…
Ela já sabia.
O passado estava se levantando.
E ele estava disposto a matar…
para continuar enterrado.