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1388 Words
Depois de semanas de tensão, segredos e acontecimentos inexplicáveis, Angelina precisava de algo que lembrasse normalidade. Algo que não envolvesse fantasmas, cemitérios ou quartos secretos escondidos em sua própria casa. Foi Miller quem insistiu. — Angie, você precisa sair — disse ela naquela tarde, sentada na cama do dormitório universitário enquanto mexia no telefone. — Hoje vai ter a maior festa do semestre. Todo mundo vai estar lá. Angelina levantou os olhos do livro que fingia ler. — Festa? — perguntou, desconfiada. — Sim. Festa de estudantes. Música, gente, bebidas, dança… coisas normais que pessoas normais fazem. Angelina soltou um pequeno sorriso cansado. — Você está insinuando que eu não sou normal? Miller deu de ombros. — Depois de tudo que vimos naquele quarto secreto da sua casa… depois da porta se fechando sozinha… das sombras se mexendo… e daquela voz mandando a gente ir embora… Ela fez uma pausa. — Acho que nenhuma de nós duas é normal. Angelina sentiu um arrepio leve subir por sua espinha. As lembranças daquela noite ainda estavam muito vivas. O quarto escondido. Os objetos antigos. O nome Odette escrito em um caderno velho. E depois… As sombras. As portas batendo. Os gritos. Aquela voz profunda ecoando: "Vocês não podem mudar o passado." Angelina fechou o livro. — Talvez seja bom sair um pouco — admitiu. Miller abriu um sorriso enorme. — Finalmente! --- Preparativos A festa aconteceria em uma antiga casa próxima à universidade. Um lugar conhecido entre os estudantes por festas grandes e descontroladas. Quando a noite chegou, o campus estava cheio de movimento. Música podia ser ouvida de longe. Risadas ecoavam pelas ruas. Grupos de estudantes caminhavam juntos, vestidos de forma elegante ou simplesmente extravagante. Angelina vestiu um vestido preto simples, mas elegante. Seu cabelo escuro caía solto pelos ombros. Miller, ao contrário, estava usando algo chamativo: um vestido vermelho e botas altas. — Você parece pronta para causar problemas — comentou Angelina. — Não problemas — respondeu Miller. — Memórias. Elas saíram do dormitório rindo. Por alguns minutos, Angelina quase esqueceu de tudo. Esqueceu do fantasma. Esqueceu do cemitério onde Ana, a mãe de Odette, estava enterrada. Esqueceu da sensação constante de que algo antigo observava sua família. --- A Festa A casa estava iluminada com luzes coloridas. A música era alta. Estudantes dançavam na sala principal enquanto outros conversavam nos corredores, na cozinha ou no jardim. O ar tinha cheiro de bebida, perfume e fumaça leve. — Uau — disse Miller. — Isso sim é uma festa. Angelina olhou em volta. Por um momento, sentiu-se deslocada. Como se tivesse passado tanto tempo lidando com coisas sobrenaturais que já não se lembrasse completamente de como era estar entre pessoas comuns. Um grupo de colegas as reconheceu. — Angelina! Miller! — gritou uma garota chamada Clara. Elas se aproximaram. Conversas começaram. Risos. Música. Durante quase uma hora, tudo foi normal. Angelina chegou até a dançar com Miller no meio da multidão. Mas algo dentro dela começou a se agitar. Uma sensação estranha. Como se… algo estivesse errado. Ela olhou ao redor. As luzes piscavam. A música vibrava nas paredes. Mas no meio da multidão, por um segundo… Ela teve a impressão de ver uma figura pequena parada no corredor escuro. Uma menina. Vestido antigo. Cabelos claros. Olhos tristes. Angelina piscou. A figura desapareceu. Seu coração acelerou. — Angie? — perguntou Miller. — O que foi? Angelina respirou fundo. — Nada… acho que estou cansada. Mas ela sabia. Ela tinha visto. Odette. --- O Pressentimento Angelina tentou ignorar. Voltou para a sala. Conversou. Bebeu um pouco de refrigerante. Mas a sensação de inquietação não desaparecia. Era como um sussurro invisível em sua mente. Algo estava prestes a acontecer. Ela saiu da sala principal e foi para a cozinha pegar água. O corredor estava mais silencioso. As luzes eram mais fracas. E foi então que ela ouviu algo. Um som estranho. Como… um arrastar. Angelina parou. — Alguém aí? Nenhuma resposta. O som veio novamente. Arrastar. Vindo do andar de cima. Ela franziu a testa. Talvez alguém estivesse bêbado e caído. Ou talvez apenas um casal procurando privacidade. Mesmo assim… Algo não parecia certo. Angelina começou a subir as escadas. Cada passo fazia a madeira ranger. A música da festa ficava mais distante. O corredor do segundo andar estava quase escuro. Algumas portas estavam abertas. Outras fechadas. Então ela viu. Uma porta no final do corredor estava entreaberta. E uma luz fraca saía de dentro. Angelina caminhou lentamente. Seu coração batia mais rápido. — Olá? Silêncio. Ela empurrou a porta. E entrou. --- A Descoberta Por um segundo, Angelina não entendeu o que estava vendo. Depois entendeu. E o mundo pareceu parar. Havia alguém no chão. Um estudante. Deitado de costas. Os olhos abertos. O rosto congelado em uma expressão de horror absoluto. E havia sangue. Muito sangue. Espalhado pelo chão de madeira. Angelina sentiu o ar desaparecer de seus pulmões. Ela deu um passo para trás. O corpo estava… destruído. Ferimentos profundos rasgavam o peito e o pescoço do rapaz, como se algo extremamente violento o tivesse atacado. Mas não parecia ataque de animal. Parecia… Crueldade humana. Os móveis do quarto estavam revirados. Uma cadeira quebrada. O espelho rachado. Como se tivesse havido uma luta. Angelina levou a mão à boca. Seu corpo começou a tremer. — Meu Deus… Ela sussurrou. Então percebeu algo ainda pior. O sangue no chão formava marcas. Não era apenas respingo. Alguém… ou algo… tinha desenhado algo com o sangue. Angelina aproximou-se lentamente. E viu. Um símbolo. Um círculo irregular. Com linhas cruzadas no centro. Seu coração gelou. Ela já tinha visto aquilo antes. No quarto secreto de sua casa. No caderno antigo. Relacionado ao desaparecimento de Odette. Angelina deu um passo para trás. Sua mente começou a girar. — Não… não pode ser… Então ela ouviu passos no corredor. Miller apareceu na porta. — Angie? Você sumiu, eu pensei que… Ela parou. E viu o corpo. Um grito horrorizado escapou de sua garganta. — MEU DEUS! Angelina correu até ela. — Miller, calma! — Ele… ele está morto! — Eu sei! Miller começou a tremer. — Quem fez isso?! Angelina olhou novamente para o símbolo no chão. Seu estômago se revirou. — Não sei… Mas dentro dela… Uma certeza começava a crescer. Isso não era um assassinato comum. --- O Caos O grito de Miller chamou atenção. Logo estudantes começaram a subir as escadas. Quando viram o corpo… O pânico começou. Alguém gritou. Outro começou a chorar. Alguém correu para chamar a polícia. A música foi desligada. A festa terminou em caos. Angelina e Miller foram levadas para fora da casa. Ambas estavam pálidas. Tremendo. Sirenas começaram a ecoar pela rua. Carros de polícia chegaram. Ambulâncias. Luzes azuis iluminavam a multidão. Um policial começou a fazer perguntas. — Quem encontrou o corpo? Angelina levantou a mão lentamente. — Fui eu. — Pode nos contar o que aconteceu? Ela respirou fundo. — Eu estava na festa… fui pegar água… ouvi um barulho no andar de cima… e… Sua voz falhou. Miller segurou sua mão. — E ela encontrou o corpo — completou Miller. O policial anotou. — Vocês tocaram em algo? — Não — disse Angelina rapidamente. Ele assentiu. — Precisaremos que vocês fiquem por aqui. Enquanto isso, médicos levavam o corpo em uma maca coberta. Angelina tentou não olhar. Mas não conseguiu evitar. E quando o corpo passou perto… Ela viu algo que fez seu sangue gelar novamente. No braço do rapaz morto… Havia um arranhão profundo. Como se alguém tivesse tentado escrever algo. Uma única palavra. Quase apagada pelo sangue. Mas ainda legível. OD… Angelina sentiu o mundo girar. Od… Odette. Ela segurou o braço de Miller. — Miller… — O que foi? Angelina falou em um sussurro quase inaudível. — Isso… está ligado a ela. Miller empalideceu. — Você está dizendo que… Angelina olhou para a casa onde o assassinato aconteceu. Uma janela do segundo andar estava aberta. E por um segundo… Ela teve a sensação de ver uma pequena figura parada lá dentro. Observando. A menina fantasma. Odette. Mas não parecia apenas triste. Pela primeira vez… Ela parecia assustada. E isso foi o que mais aterrorizou Angelina. Porque se até o fantasma tinha medo… Então algo muito pior estava envolvido naquela história. E a tragédia daquela noite era apenas o começo.
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