O mapa parecia mais antigo do que o próprio livro.
O papel era áspero, quase quebradiço, e as linhas que formavam o desenho da floresta haviam sido feitas com tinta escura que o tempo não conseguiu apagar completamente.
Angelina segurava o mapa com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse destruí-lo.
Miller inclinou-se sobre a mesa.
— Isso definitivamente não é um mapa turístico.
Angelina observava cada detalhe.
Havia o contorno da cidade antiga.
A estrada principal.
O rio que atravessava o vale.
E depois… a floresta.
Uma massa escura de linhas densas, como se quem tivesse desenhado aquilo quisesse mostrar que aquele lugar era diferente de todo o resto.
No centro havia um círculo.
O mesmo símbolo.
Miller apontou.
— Aqui.
Angelina assentiu lentamente.
— O círculo de pedras.
— O lugar onde o ritual começou.
Miller cruzou os braços.
— E provavelmente o lugar onde eles querem terminá-lo.
Angelina dobrou o mapa com cuidado.
— Então precisamos chegar lá antes deles.
Miller ergueu uma sobrancelha.
— Você percebe que acabou de decidir explorar uma floresta possivelmente amaldiçoada, certo?
Angelina deu um pequeno sorriso.
— Você que sugeriu a biblioteca.
— E você que sugeriu investigar.
Miller suspirou.
— Justo.
Ela pegou o mapa novamente e analisou.
— A floresta fica a cerca de vinte quilômetros da cidade.
— Existe uma trilha antiga aqui.
Angelina inclinou-se.
— Essa linha?
— Sim.
Miller passou o dedo sobre o papel.
— Parece uma estrada antiga usada no século XIX.
Angelina pensou por um momento.
— Provavelmente abandonada.
— O que significa menos pessoas.
— E mais chances de encontrarmos o círculo sem sermos seguidas.
Miller respirou fundo.
— Ok.
— Vamos fazer isso.
Ela levantou-se da cadeira.
— Mas antes precisamos de algumas coisas.
Angelina franziu a testa.
— Tipo?
— Lanternas.
— Água.
— Comida.
— E algo para defesa.
Angelina levantou uma sobrancelha.
— Defesa contra o quê exatamente?
Miller respondeu sem hesitar:
— Cultistas malucos.
— Espíritos vingativos.
— E entidades antigas que aparentemente querem sair da terra.
Angelina não conseguiu evitar uma pequena risada.
— Quando você coloca dessa forma, parece bem assustador.
Miller inclinou a cabeça.
— Porque é.
As duas recolheram os livros e colocaram tudo de volta na estante.
A bibliotecária observou discretamente, mas não disse nada.
Quando saíram da biblioteca, o sol estava alto no céu.
O campus parecia completamente normal.
Estudantes caminhavam pelos corredores externos.
Alguns riam.
Outros discutiam trabalhos.
Angelina sentiu uma estranha desconexão.
Era como se estivesse vivendo em duas realidades ao mesmo tempo.
Uma normal.
Outra cheia de segredos antigos e rituais sombrios.
Miller percebeu o olhar dela.
— Ei.
Angelina virou-se.
— O quê?
— Você está pensando demais.
Angelina suspirou.
— Isso tudo parece irreal.
— Ontem eu era só uma estudante normal.
Miller sorriu.
— Hoje você é descendente de uma linhagem que protege o mundo de uma entidade ancestral.
Angelina riu.
— Isso não ajuda.
Miller deu de ombros.
— Estou tentando manter o humor.
Elas caminharam até o estacionamento.
O carro de Miller estava onde haviam deixado.
Ela abriu o porta-malas.
— Vamos fazer uma pequena expedição.
Angelina entrou no carro.
Enquanto o motor ligava, ela olhou novamente para o mapa.
Algo naquele desenho a incomodava.
Uma sensação estranha.
Como se o lugar estivesse… chamando.
—
A floresta parecia muito diferente vista de perto.
As árvores eram mais altas.
Mais antigas.
Os troncos grossos formavam uma espécie de muralha natural que bloqueava parte da luz do sol.
Miller estacionou o carro perto do início da trilha abandonada.
— Esse é o ponto mais próximo que conseguimos chegar de carro.
Angelina saiu do veículo.
O ar ali era mais frio.
E silencioso.
Muito silencioso.
Miller pegou duas mochilas.
— Pronta?
Angelina assentiu.
— Vamos.
A trilha era estreita e coberta por folhas secas.
Algumas partes estavam quase desaparecendo sob a vegetação.
Claramente poucas pessoas passavam por ali.
Enquanto caminhavam, Angelina sentia algo estranho.
Uma vibração.
Uma energia leve no ar.
— Você sente isso? — perguntou ela.
Miller olhou em volta.
— O quê?
— Como se…
Angelina hesitou.
— Como se a floresta estivesse viva.
Miller ficou em silêncio por alguns segundos.
— Honestamente?
— Eu também sinto algo estranho.
O vento atravessou as árvores.
As folhas sussurraram.
Por um instante, Angelina teve a sensação de ouvir algo.
Uma voz distante.
Ela parou.
— Espera.
Miller virou-se.
— O que foi?
Angelina olhava para dentro da floresta.
— Você ouviu isso?
— Ouvir o quê?
Angelina franziu a testa.
— Parecia… uma criança.
Miller ficou imóvel.
— Uma criança?
Angelina assentiu lentamente.
— Um sussurro.
Miller olhou ao redor.
— Não tem ninguém aqui.
Angelina respirou fundo.
— Talvez tenha sido só o vento.
Mas no fundo ela sabia que não era.
Algo estava ali.
Observando.
—
Mais profundamente na floresta.
Muito longe da trilha.
As figuras encapuzadas observavam.
Uma mulher segurava um binóculo antigo.
— Elas entraram na floresta.
O homem velho permaneceu em silêncio.
O fogo das velas negras iluminava seu rosto enrugado.
— Era esperado — disse ele.
Outro m****o perguntou:
— Devemos detê-las?
O velho balançou a cabeça.
— Não.
— A descendente precisa chegar ao círculo por vontade própria.
A mulher franziu a testa.
— Por quê?
O homem respondeu calmamente:
— Porque o ritual exige escolha.
Ele olhou para o céu.
— E a lua cheia está próxima.
—
A caminhada continuou por quase uma hora.
A floresta parecia cada vez mais densa.
As árvores estavam mais próximas umas das outras.
A luz diminuía.
Miller verificou o mapa novamente.
— Estamos perto.
Angelina sentiu um arrepio.
O mesmo tipo de energia que havia sentido no porão do cemitério estava ali.
Mais forte.
Muito mais forte.
O vento parou.
De repente, o silêncio tomou conta da floresta.
Nenhum pássaro.
Nenhum inseto.
Nada.
Miller falou em voz baixa.
— Isso não parece natural.
Angelina concordou.
— Não é.
Elas deram mais alguns passos.
E então viram.
O círculo de pedras.
Era maior do que imaginavam.
Doze pedras enormes formavam um anel perfeito no meio da clareira.
Cada uma tinha marcas antigas esculpidas na superfície.
Símbolos.
Runas.
No centro havia uma depressão no chão.
Como se algo tivesse sido enterrado ali há muito tempo.
Miller sussurrou:
— Meu Deus.
Angelina aproximou-se lentamente.
O ar parecia vibrar.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Ela sentia uma conexão inexplicável com aquele lugar.
Como se já tivesse estado ali antes.
Mesmo sabendo que era impossível.
Quando chegou ao centro do círculo, algo aconteceu.
O chão vibrou levemente.
Miller deu um passo para trás.
— Você sentiu isso?
Angelina assentiu.
— Sim.
De repente…
Um sussurro atravessou o vento.
Mais claro desta vez.
— Angelina…
Ela congelou.
Miller olhou para ela.
— O que foi?
Angelina virou-se lentamente.
— Ela está aqui.
— Quem?
Angelina respondeu em voz baixa.
— Odette.
Um brilho suave apareceu perto das pedras.
Uma forma pequena.
Translúcida.
A figura de uma menina começou a surgir.
Vestido antigo.
Cabelos claros.
Olhos tristes.
Miller ficou paralisada.
— Isso… isso é impossível.
Mas a menina estava ali.
Olhou diretamente para Angelina.
— Você voltou.
Angelina respirou fundo.
— Eu não sabia que viria.
A menina apontou para o chão.
— Ele está acordando.
Angelina sentiu o sangue gelar.
— Quem?
A menina respondeu com uma única palavra.
— Aquele que foi preso.
O chão vibrou novamente.
Mais forte.
Uma rachadura fina apareceu na terra no centro do círculo.
Miller sussurrou:
— Isso não é bom.
Odette olhou para Angelina.
— Você precisa escolher.
Angelina franziu a testa.
— Escolher o quê?
A menina respondeu:
— Libertar.
— Ou selar para sempre.
O vento explodiu entre as árvores.
As velas negras do culto acenderam sozinhas nas bordas da clareira.
E das sombras da floresta…
As figuras encapuzadas começaram a surgir.
Cercando o círculo.
O homem velho caminhou até a frente.
— Finalmente.
Ele sorriu.
— A descendente chegou.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— O que vocês querem?
O homem respondeu calmamente:
— Apenas terminar o que seus ancestrais começaram.
A terra tremeu novamente.
Mais forte.
A rachadura no centro do círculo se abriu um pouco mais.
E de dentro dela…
Um som profundo emergiu.
Como a respiração de algo gigantesco.
Antigo.
Esperando há séculos.
Miller sussurrou:
— Acho que acabamos de encontrar o verdadeiro pesadelo desta cidade.
Angelina olhou para a rachadura.
Sentindo a energia dentro dela despertar novamente.
E pela primeira vez…
Ela percebeu que talvez o destino de todos ali estivesse realmente ligado ao sangue que corria em suas veias.
E à escolha que ela teria que fazer.
Ali.
Naquele círculo antigo.
Antes que fosse tarde demais.