O silêncio no corredor do dormitório parecia mais pesado do que nunca.
Angelina ainda estava ajoelhada no chão frio, ao lado do corpo inconsciente de Miller. Seus pulmões trabalhavam com dificuldade, tentando recuperar o ar que a luta havia roubado. O coração batia tão forte que ela sentia cada pulsação ecoar dentro da cabeça.
A faca estava caída alguns metros adiante.
Angelina olhou para ela.
Depois voltou o olhar para Miller.
O rosto da amiga estava pálido, os olhos fechados, os cabelos espalhados pelo chão como fios escuros sobre o piso claro do corredor.
Por um instante, Angelina teve medo.
Medo de que Miller estivesse morta.
Com mãos trêmulas, aproximou-se e colocou os dedos no pescoço da amiga.
Sentiu o pulso.
Fraco.
Mas estava ali.
Angelina soltou um suspiro trêmulo.
— Graças a Deus…
Mas o alívio durou pouco.
Porque ela se lembrou daquilo que tinha acabado de acontecer.
Miller.
Com uma faca.
Aquela voz estranha.
A frase que ainda ecoava na mente de Angelina:
"Você não pode mudar o passado."
Angelina sentiu um frio profundo percorrer sua espinha.
Ela sabia.
Sabia no fundo da alma.
Aquilo não era apenas um ataque de sonambulismo.
Nem um surto psicológico.
Aquilo era algo muito pior.
Algo que ela já tinha visto antes.
Algo que vinha do mesmo lugar de onde vinha Odette.
Angelina levantou-se lentamente.
O corredor continuava vazio.
Mas o silêncio ali não era normal.
Era um silêncio tenso.
Como se o próprio prédio estivesse observando.
Ela precisava sair dali.
Agora.
Antes que algo pior acontecesse.
Angelina respirou fundo e tentou organizar os pensamentos.
— Pense… pense… pense…
Ela olhou novamente para Miller.
Não podia deixá-la ali.
Não podia chamar a polícia.
O que diria?
"Minha amiga tentou me matar porque está possuída por um espírito"?
Ninguém acreditaria.
Eles pensariam que Angelina tinha enlouquecido de novo.
Como anos atrás.
Como na clínica psiquiátrica.
Não.
Ela precisava resolver aquilo sozinha.
Angelina ajoelhou-se novamente.
— Miller… me perdoa…
Com esforço, colocou um dos braços da amiga sobre os próprios ombros.
Miller estava completamente inconsciente.
E era mais pesada do que Angelina esperava.
Arrastá-la pelo corredor foi difícil.
Cada passo parecia uma eternidade.
O medo fazia Angelina olhar constantemente para trás.
Com a sensação terrível de que algo poderia surgir das sombras a qualquer momento.
Finalmente chegaram às escadas.
Descer foi ainda pior.
Angelina quase perdeu o equilíbrio duas vezes.
Mas conseguiu.
Minuto após minuto.
Passo após passo.
Até chegar à saída do dormitório.
O ar frio da madrugada atingiu seu rosto.
O estacionamento estava quase vazio.
Alguns carros espalhados.
Luzes fracas iluminando o asfalto.
Angelina arrastou Miller até o carro.
Abriu a porta traseira com dificuldade.
Depois colocou a amiga no banco.
Seu corpo tremia de cansaço.
Mas ela ainda não tinha terminado.
Angelina abriu o porta-malas.
Pegou uma mochila.
Dentro dela havia algumas coisas básicas: roupas, um caderno, garrafas de água.
E uma corda.
Era uma corda fina que ela havia comprado semanas antes para um projeto de arte.
Agora parecia estranhamente útil.
Angelina voltou para o banco traseiro.
Com cuidado… e mãos trêmulas… amarrou os pulsos de Miller.
Depois amarrou também as pernas.
Não forte o suficiente para machucar.
Mas firme o suficiente para impedir que ela atacasse novamente.
Quando terminou, ficou alguns segundos olhando para o rosto da amiga.
— Eu sinto muito… — sussurrou.
Então fechou a porta.
Sentou-se no banco do motorista.
Suas mãos ainda tremiam.
Ela precisava de ajuda.
Ajuda de alguém que entendesse aquilo.
Alguém que soubesse lidar com espíritos.
Angelina pegou o telefone.
A tela iluminou o interior escuro do carro.
Ela abriu o navegador.
Seus dedos estavam frios.
Digitou lentamente:
"padre exorcismo perto de mim"
Vários resultados apareceram.
A maioria era apenas páginas religiosas.
Ou notícias antigas.
Mas então…
Um resultado chamou sua atenção.
Uma pequena igreja.
Localizada em uma vila distante.
Cerca de cem quilômetros dali.
A página dizia que o padre responsável havia participado de rituais de libertação espiritual.
Exorcismos.
Angelina sentiu o coração acelerar.
— É isso…
Ela abriu o mapa.
Colocou o endereço no GPS.
A voz eletrônica começou a falar:
"Tempo estimado de viagem: uma hora e quarenta minutos."
Angelina olhou pelo espelho retrovisor.
Miller continuava imóvel.
Mas por algum motivo…
Angelina tinha a sensação de que aquilo não duraria muito.
Ela ligou o carro.
O motor quebrou o silêncio da madrugada.
E então começou a dirigir.
Saindo do campus.
Saindo da cidade.
Entrando na estrada escura que levava ao interior.
A estrada estava quase vazia.
Apenas o farol do carro iluminava o caminho.
Árvores densas cercavam a estrada de ambos os lados.
Como paredes negras.
Angelina segurava o volante com força.
A mente girava com pensamentos.
Imagens.
Culpa.
Muita culpa.
— Eu devia ter percebido… — murmurou.
As mortes.
Os estudantes assassinados.
Os acontecimentos estranhos.
As mensagens de Odette.
Tudo estava conectado.
E ela tinha demorado demais para entender.
Angelina sentiu lágrimas começarem a escorrer.
— Se eu tivesse descoberto antes…
Talvez aqueles estudantes ainda estivessem vivos.
Talvez aquele espírito não tivesse encontrado uma forma de agir.
Talvez Miller não estivesse agora amarrada no banco traseiro.
Possuída.
Angelina apertou o volante.
— Foi culpa minha…
O GPS indicava o caminho.
A estrada parecia interminável.
O vento soprava forte.
As árvores se moviam como sombras gigantescas.
Angelina olhou novamente pelo retrovisor.
Miller ainda estava imóvel.
Mas algo…
Algo estava errado.
Muito devagar…
Miller começou a se mexer.
Angelina sentiu o estômago gelar.
— Não…
A cabeça de Miller inclinou para o lado.
Seus olhos abriram.
Mas não eram os olhos dela.
Eram frios.
Escuros.
Sem reconhecimento.
Ela começou a rir.
Um riso baixo.
Desumano.
Angelina quase perdeu o controle do volante.
— Miller…?
A voz que respondeu…
Não era a dela.
— Você acha… que pode fugir…?
Angelina sentiu o terror subir pela garganta.
— Quem é você?!
Miller puxou as cordas.
Com força.
Mas elas resistiram.
O sorriso se alargou.
— Tarde demais…
Angelina acelerou o carro.
— Cala a boca!
Miller começou a rir novamente.
Um riso horrível.
Que encheu o carro inteiro.
— Você abriu a porta…
Angelina sentiu o coração disparar.
— Eu só quero ajudar Odette!
A risada parou.
Silêncio.
Então a voz respondeu:
— Odette… não pode ser salva.
Angelina apertou os dentes.
— Eu vou tentar.
Os olhos de Miller brilharam no reflexo do espelho.
— Então todos vão morrer.
O carro continuou avançando pela estrada escura.
E a igreja…
Ainda estava muito longe.