O Espelho Não Esquece
A madrugada na residência universitária tinha um silêncio peculiar.
Não era um silêncio absoluto. De vez em quando, ouvia-se uma porta fechar em algum corredor distante, passos apressados de um estudante voltando tarde da biblioteca, ou o som abafado de risadas vindas de um quarto mais distante.
Mas naquele andar específico, o terceiro, onde Angelina e Miller dividiam o quarto 312, tudo parecia suspenso.
Angelina demorou muito para adormecer naquela noite.
A imagem rápida que havia visto no reflexo da janela continuava voltando à sua mente como um fragmento quebrado de memória. Ela tentou se convencer de que havia sido apenas um truque de luz.
Talvez uma sombra das árvores.
Talvez alguém passando no jardim.
Talvez apenas sua mente cansada depois de horas desenhando.
Sete anos.
Sete anos inteiros sem visões.
Sem vozes.
Sem aquela sensação constante de estar sendo observada.
Ela havia vencido aquilo.
Ou pelo menos acreditava que sim.
Quando finalmente adormeceu, o sono veio pesado, profundo.
E com ele, um sonho.
No sonho, Angelina estava caminhando por um corredor longo.
As paredes eram brancas demais, iluminadas por lâmpadas frias que piscavam de tempos em tempos. O chão refletia a luz como um espelho polido.
Ela reconheceu o lugar imediatamente.
Era o hospital psiquiátrico.
Mas estava vazio.
Nenhuma enfermeira.
Nenhum médico.
Nenhum paciente.
Apenas o som dos seus próprios passos ecoando.
Toc.
Toc.
Toc.
Ela caminhava sem saber para onde ia, como se algo invisível a puxasse para o final do corredor.
No fundo havia uma porta.
A porta do quarto onde ela havia ficado internada.
Angelina parou diante dela.
O coração batia forte.
Ela sabia que não queria abrir aquela porta.
Mas sua mão se moveu sozinha.
A maçaneta girou.
O quarto estava completamente escuro.
— Olá…? — sua voz ecoou no vazio.
Nenhuma resposta.
Ela deu um passo para dentro.
Então ouviu o som.
Um arranhar lento.
Como unhas raspando na parede.
Angelina virou a cabeça lentamente.
A parede branca estava coberta de marcas.
Linhas profundas.
Centenas delas.
Como se alguém tivesse tentado sair dali desesperadamente.
E no meio dessas marcas…
Uma palavra escrita com algo escuro.
AJUDE.
Angelina sentiu o estômago se revirar.
— Não… — murmurou.
Mas então ouviu o som de respiração.
Muito perto.
Atrás dela.
Ela virou-se.
E viu a menina.
Ela estava parada junto à porta.
O corpo pequeno.
O vestido antigo.
Os olhos completamente brancos.
Mas desta vez havia algo diferente.
O sangue.
Escorria de seu rosto.
Lento.
Silencioso.
Caindo no chão em pequenas gotas negras.
A menina não falava.
Apenas levantou o braço.
E apontou para o espelho do quarto.
Angelina virou-se.
E quando olhou para o espelho…
Não viu seu reflexo.
Viu apenas a menina.
Muito mais próxima.
O rosto encostado no vidro.
A boca aberta.
Como se estivesse gritando.
Angelina acordou com um sobressalto.
O quarto da residência universitária estava escuro.
Seu coração batia tão forte que parecia ecoar dentro do peito.
Ela respirou fundo.
Era apenas um sonho.
Um sonho r**m.
Ao lado, Miller dormia profundamente.
Angelina olhou para o relógio.
03:17 da manhã.
Ela tentou voltar a dormir.
Mas não conseguiu.
Uma sensação inquietante rastejava sob sua pele.
Depois de alguns minutos, decidiu levantar.
Talvez lavar o rosto ajudasse.
Pegou o casaco leve e saiu silenciosamente do quarto para não acordar Miller.
O corredor estava quase completamente escuro.
Apenas algumas luzes fracas permaneciam acesas.
O banheiro coletivo ficava no final do corredor.
Angelina caminhou até lá, sentindo o chão frio sob os pés.
Quando empurrou a porta, o banheiro estava vazio.
As lâmpadas fluorescentes iluminavam o espaço com uma luz branca intensa.
As pias estavam alinhadas diante de um grande espelho que ocupava quase toda a parede.
Angelina aproximou-se.
Abriu a torneira.
A água gelada correu sobre suas mãos.
Ela lavou o rosto lentamente.
Respirou fundo.
— Foi só um sonho — sussurrou para si mesma.
Levantou os olhos para o espelho.
Seu reflexo estava ali.
Os caracóis dourados um pouco bagunçados.
Os olhos ainda pesados de sono.
Normal.
Tudo parecia normal.
Ela estava prestes a sair quando algo chamou sua atenção.
Uma mancha no espelho.
Como se alguém tivesse respirado contra o vidro.
Angelina franziu a testa.
Aproximou-se.
A mancha começou a se espalhar lentamente.
O vidro embaçou.
E então…
Algo apareceu dentro da névoa.
Um contorno.
Pequeno.
Delicado.
O contorno de um rosto infantil.
Angelina congelou.
— Não… — murmurou.
A forma começou a se definir.
Primeiro os olhos.
Brancos.
Depois a pele.
Pálida demais.
E por fim…
O sangue.
Escorrendo lentamente pela testa.
Descendo pelo nariz.
Pingando do queixo.
A menina estava no espelho.
Muito perto.
Observando.
Angelina não conseguia respirar.
Seu corpo inteiro estava rígido.
A menina levantou a mão lentamente.
E pressionou a palma contra o vidro.
Do outro lado.
Como se estivesse tentando atravessar.
Angelina recuou um passo.
— Isso não é real…
A menina inclinou a cabeça.
E então escreveu algo no espelho.
As letras surgiram lentamente na superfície embaçada.
A…
J…
U…
D…
E…
AJUDE.
Angelina sentiu o pânico subir pela garganta.
— Pare!
Ela virou-se bruscamente.
Mas quando olhou novamente para o espelho…
A menina ainda estava lá.
Agora mais próxima.
O rosto quase colado ao vidro.
A boca começou a se mover.
Mas nenhum som saiu.
Angelina sabia o que ela dizia.
Me ajude.
O coração dela disparou.
Sete anos.
Sete anos de silêncio.
E agora aquilo estava de volta.
— Eu não posso! — sussurrou desesperada.
De repente, as luzes do banheiro piscaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
Quando se estabilizaram novamente…
O espelho estava vazio.
A névoa havia desaparecido.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma menina.
Apenas seu próprio reflexo tremendo.
Angelina saiu do banheiro quase correndo.
O corredor parecia mais longo do que antes.
Mais escuro.
Mais frio.
Quando entrou no quarto, fechou a porta com força.
O barulho acordou Miller.
— Angie? — murmurou ela, ainda sonolenta. — O que foi?
Angelina estava pálida.
Respirando rápido.
Miller sentou-se na cama.
— Ei… o que aconteceu?
Angelina tentou falar.
Mas as palavras não saíam.
— Eu… eu vi…
Miller levantou-se imediatamente.
— Você viu o quê?
Angelina hesitou.
Durante sete anos ela havia evitado contar aquela história para qualquer pessoa.
Mas agora…
Ela estava com medo.
Medo de verdade.
— Uma menina — disse finalmente.
Miller franziu a testa.
— Uma menina?
Angelina assentiu lentamente.
— No espelho.
O quarto ficou em silêncio por alguns segundos.
Miller não riu.
Não zombou.
Apenas observou a amiga com atenção.
— Você está falando sério?
Angelina assentiu.
— Ela estava coberta de sangue.
Miller respirou fundo.
— Ok… vamos com calma.
Ela puxou uma cadeira e sentou-se diante de Angelina.
— Você já viu essa menina antes?
Angelina fechou os olhos por um momento.
— Quando eu tinha quatorze anos.
Miller ficou imóvel.
— Angie… isso é importante?
Angelina hesitou.
Depois sussurrou:
— Foi por isso que me internaram.
O silêncio que seguiu foi pesado.
Mas Miller não parecia assustada.
Apenas pensativa.
— Você acha que pode ter sido… um sonho?
Angelina balançou a cabeça.
— Eu estava acordada.
Miller levantou-se.
— Então vamos fazer o seguinte.
Angelina olhou para ela confusa.
— O quê?
Miller pegou uma lanterna na mesa.
— Vamos ver esse espelho.
Angelina arregalou os olhos.
— Agora?
Miller deu de ombros.
— Se tem uma menina fantasma no banheiro da residência universitária, eu definitivamente quero conhecer.
Angelina quase riu.
Mas o medo ainda estava ali.
As duas saíram juntas do quarto.
Caminharam pelo corredor silencioso.
Quando chegaram ao banheiro…
Miller empurrou a porta.
A luz estava acesa.
O espelho estava limpo.
Nada fora do normal.
Miller olhou para Angelina.
— Viu?
Angelina aproximou-se lentamente.
Observou o espelho.
Seu reflexo.
O de Miller atrás dela.
Nada mais.
Mas no fundo do coração…
Ela sabia.
Aquilo não tinha terminado.
Aquilo tinha apenas começado.