A madrugada ainda dominava a cidade quando Angelina estacionou o carro perto do dormitório da universidade. O motor desligou com um clique seco, e por alguns segundos nenhuma das duas se moveu.
O silêncio dentro do carro era pesado.
Miller ainda olhava pelo retrovisor, como se esperasse ver as figuras encapuzadas surgirem da escuridão da estrada.
— Eles sabiam quem você era — disse ela finalmente.
Angelina manteve os olhos fixos no volante.
— Eu percebi.
— “A descendente” — repetiu Miller. — Eles falaram como se você fosse parte de alguma profecia ou algo assim.
Angelina suspirou.
— Eu não faço ideia do que eles estavam falando.
Mas no fundo, ela sabia que não era totalmente verdade.
A energia que havia sentido no porão… aquela força que surgia quando as sombras apareciam… não era algo normal.
Algo dentro dela reagia ao sobrenatural.
Algo antigo.
Algo herdado.
Miller abriu a porta do carro.
— Vamos entrar.
— Precisamos dormir algumas horas. Meu cérebro não está funcionando direito depois dessa noite.
Angelina assentiu.
As duas caminharam rapidamente pelo campus silencioso.
As luzes dos postes iluminavam os caminhos de pedra, e o vento frio da madrugada atravessava as árvores.
Mesmo ali, em um lugar cheio de estudantes e vida durante o dia, a noite transformava tudo em algo diferente.
Mais vazio.
Mais vulnerável.
Quando chegaram ao dormitório, subiram as escadas rapidamente e entraram no quarto.
Miller trancou a porta imediatamente.
— Ok — disse ela, respirando fundo — agora podemos pensar.
Angelina sentou-se na cama.
Seu corpo estava cansado, mas sua mente parecia mais desperta do que nunca.
— Eles disseram que o sacrifício era necessário — murmurou.
Miller se sentou na cadeira perto da mesa.
— Sacrifício para quê?
Angelina respondeu lentamente:
— Para algum tipo de ritual.
— Algo que começou há muito tempo.
Miller esfregou os olhos.
— E você acabou de destruir esse ritual libertando Odette.
Angelina assentiu.
— Sim.
— E agora eles querem você.
O silêncio voltou ao quarto.
Finalmente Miller disse:
— Então vamos descobrir exatamente o que eles queriam.
Angelina levantou o olhar.
— Como?
Miller apontou para a janela, onde os primeiros sinais de luz do amanhecer começavam a aparecer.
— Biblioteca.
Angelina sorriu levemente.
— Você realmente gosta de resolver mistérios com livros.
— Sempre funciona nos filmes.
Algumas horas depois, quando o sol já estava alto no céu, o campus estava novamente cheio de vida.
Estudantes caminhavam pelos jardins.
Alguns conversavam animadamente.
Outros carregavam pilhas de livros.
Ninguém ali parecia saber que, na noite anterior, um culto sombrio havia revelado sua existência em um cemitério.
Angelina e Miller caminharam rapidamente até o prédio antigo da biblioteca.
Era um dos edifícios mais antigos da universidade.
Grandes janelas.
Paredes de pedra.
E um interior silencioso que cheirava a papel antigo.
Miller abriu a porta.
— Ok.
— Se existe algum segredo antigo sobre essa cidade… provavelmente está aqui.
Angelina assentiu.
— Precisamos procurar registros históricos.
Elas caminharam entre as estantes altas.
A bibliotecária levantou os olhos por um instante, mas voltou a organizar papéis sem prestar muita atenção.
Miller encontrou a seção de história local.
— Aqui.
Ela começou a puxar livros grossos e empoeirados.
Angelina abriu um deles.
As páginas estavam amareladas pelo tempo.
Relatos antigos da fundação da vila.
Nomes de famílias importantes.
Eventos estranhos registrados ao longo dos anos.
— Espera — disse Angelina.
Ela encontrou algo.
Um capítulo sobre o século XIX.
Um período marcado por desaparecimentos e eventos inexplicáveis.
Miller se aproximou.
— O que foi?
Angelina leu em voz baixa.
— “Entre os anos de 1887 e 1892, vários moradores da vila relataram fenômenos estranhos na floresta ao norte. Animais mortos eram encontrados sem sinais de ataque. Crianças afirmavam ouvir vozes vindas entre as árvores durante a noite.”
Miller engoliu em seco.
— Isso parece familiar.
Angelina continuou lendo.
— “Os anciãos da vila reuniram-se para lidar com o problema. Algumas famílias antigas participaram de rituais destinados a proteger a comunidade de uma presença descrita como antiga e hostil.”
Miller apontou para a página.
— Famílias antigas.
Angelina virou a página.
E encontrou uma lista.
Nomes.
Famílias que participaram desses rituais.
Ela começou a ler em silêncio.
Então parou.
Seu coração acelerou.
— Miller…
— O quê?
Angelina apontou para um nome na lista.
A família dela.
O sobrenome de seus antepassados.
Miller arregalou os olhos.
— Então é verdade.
Angelina respirou fundo.
— Minha família estava envolvida nisso.
Miller cruzou os braços.
— Isso explica porque o culto sabe quem você é.
Angelina virou outra página.
Havia uma ilustração.
Um símbolo desenhado à mão.
Um círculo com linhas curvas dentro.
O mesmo símbolo.
O símbolo que haviam visto:
No porão.
Nos corpos das vítimas.
E nas marcas deixadas pelo culto.
Miller sussurrou:
— É o mesmo símbolo.
Angelina continuou lendo.
Seu rosto ficou cada vez mais pálido.
— “Para conter a entidade, foi realizado um ritual de selamento. O ritual exigia sangue inocente para fortalecer a barreira.”
Miller ficou imóvel.
— Sangue inocente…
Angelina fechou o livro lentamente.
— Odette.
O silêncio entre elas foi pesado.
Miller falou primeiro.
— Então eles sacrificaram uma criança para manter alguma coisa presa.
Angelina assentiu.
— Sim.
Miller apoiou as mãos na mesa.
— Mas agora o espírito dela está livre.
Angelina completou:
— E talvez o selo também.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.
Então Miller disse:
— Isso significa que aquela coisa… o que quer que seja… pode voltar.
Angelina olhou novamente para o livro.
Havia um último trecho.
Ela leu em voz baixa.
— “A linhagem da guardiã foi estabelecida para garantir que o selo jamais fosse quebrado.”
Miller franziu a testa.
— Guardiã?
Angelina levantou os olhos lentamente.
— Acho que estão falando de mim.
Miller soltou uma risada nervosa.
— Claro que estão.
— Você é oficialmente a protagonista de um pesadelo ancestral.
Angelina fechou o livro.
Mas algo caiu de dentro dele.
Um papel antigo.
Amarelado.
Miller pegou.
— Parece um mapa.
Angelina observou.
Era um desenho da floresta.
E no centro havia um símbolo.
Miller olhou para Angelina.
— Acho que sabemos para onde precisamos ir.
Angelina sentiu um arrepio.
— A floresta.
Miller assentiu.
— O lugar onde tudo começou.
No mesmo momento…
Muito longe dali.
No interior da floresta.
Um círculo de pedras antigas estava iluminado por velas negras.
As figuras encapuzadas estavam reunidas.
O homem velho levantou as mãos.
— A barreira está enfraquecendo.
Uma das mulheres perguntou:
— Por causa da menina?
— Sim.
Ele olhou para o céu.
— Mas ainda temos uma chance.
— Quando a lua cheia chegar…
— A descendente completará o ritual.
A mulher hesitou.
— E se ela não quiser?
O homem sorriu.
— Então nós a forçaremos.
O vento atravessou as árvores.
E das profundezas da floresta…
Um som respondeu.
Um rugido baixo.
Antigo.
Como algo gigantesco se movendo sob a terra.
Esperando.
Esperando para ser libetado novamente.