O Porão que Não Quer Ser Aberto
As sombras começaram a descer a escada.
Primeiro lentamente.
Depois mais rápido.
Angelina sentiu o corpo inteiro congelar. Era como se o ar tivesse ficado pesado demais para respirar. A lanterna do celular de Miller tremia em sua mão, lançando feixes de luz trêmulos pelas paredes úmidas do porão.
— Miller… — sussurrou Angelina.
— Eu estou vendo… — respondeu Miller com a voz fraca.
As sombras não tinham forma definida.
Pareciam fumaça n***a se movendo contra o vento, torcendo-se umas sobre as outras enquanto deslizavam pelos degraus da escada.
E havia algo profundamente errado nelas.
Não eram apenas sombras.
Pareciam vivas.
Uma delas se esticou ao longo da parede, como um braço tentando alcançar o chão do porão.
Miller deu um passo para trás.
— Angie… acho que deveríamos ir embora.
Angelina não respondeu.
Seus olhos estavam fixos na porta de madeira que Odette havia indicado.
A porta secreta.
Algo dentro dela dizia que aquela porta era a chave para tudo.
Mas o medo estava crescendo rápido demais.
De repente, um estrondo ecoou no porão.
A porta no topo da escada se fechou violentamente.
BANG!
O som foi tão alto que as duas gritaram.
— AAAAAH!
Miller deixou o celular cair por um segundo, quase apagando a lanterna.
— O que foi isso?!
Angelina correu até a escada.
Ela tentou abrir a porta.
A maçaneta não se mexeu.
— Está trancada!
— Como assim trancada?! — gritou Miller.
Angelina puxou com força.
Nada.
— Ela não abre!
Miller correu até ela e também tentou.
— Vamos!
As duas puxaram juntas.
Mas a porta parecia presa por algo do outro lado.
Algo que não queria que saíssem.
Ou que entrassem.
Então o chão do porão tremeu.
Primeiro levemente.
Depois mais forte.
Caixas começaram a cair das prateleiras.
Livros antigos deslizaram pelo chão.
Uma cadeira velha tombou com um estrondo.
— Angie!
— Eu sei!
O vento começou a circular pelo porão.
Mas não havia janelas.
Era impossível haver vento.
Mesmo assim, papéis começaram a voar.
Fotografias antigas rodopiavam no ar como folhas mortas.
As sombras já estavam no meio da escada.
E estavam crescendo.
Mais escuras.
Mais densas.
Uma delas se arrastou pelo chão como um animal rastejante.
Miller começou a entrar em pânico.
— Isso não é possível!
Angelina recuou.
— Elas estão vindo!
De repente, a lanterna piscou.
Uma vez.
Duas.
Três.
E então a luz apagou.
A escuridão caiu sobre o porão como um manto.
Miller soltou um grito.
— ANGIE!
Angelina tateou no escuro.
— Estou aqui!
— Eu não consigo ver nada!
Então algo começou a se mover.
Um som de arrastar.
Pesado.
Lento.
Como móveis sendo empurrados no chão.
O som vinha de todos os lados.
Angelina sentiu algo tocar seu pé.
Ela gritou.
— AAAAAH!
— O que foi?!
— Algo me tocou!
A lanterna do celular voltou a acender por um segundo.
A luz fraca revelou algo horrível.
As sombras estavam se estendendo pelo chão.
Como raízes negras.
Uma delas estava enrolada no tornozelo de Angelina.
Ela tentou se soltar.
— Miller!
Miller puxou o braço dela.
— Sai daí!
A sombra se contraiu de repente, como se estivesse viva.
E então se soltou.
A lanterna apagou novamente.
O vento ficou mais forte.
Objetos começaram a se mover.
Uma caixa pesada deslizou pelo chão sozinha.
Um armário velho bateu contra a parede.
BANG!
BANG!
BANG!
Miller estava tremendo.
— Isso… isso não pode estar acontecendo!
Angelina segurou a mão dela.
— Fica comigo!
De repente…
Uma voz ecoou no porão.
Não era a voz de Odette.
Era diferente.
Mais profunda.
Mais antiga.
Mais assustadora.
A voz parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
Das paredes.
Do chão.
Da escuridão.
E então falou.
— SAIAM.
O grito ecoou como um trovão.
Angelina e Miller gritaram juntas.
— AAAAAH!
A voz continuou.
Mais furiosa.
— SAIAM DAQUI.
O vento aumentou.
As caixas começaram a voar.
Uma delas passou raspando pela cabeça de Miller.
— ANGIE!
— Eu estou aqui!
A voz falou novamente.
Mais forte.
Mais ameaçadora.
— VOCÊS NÃO DEVEM MEXER COM O PASSADO.
Angelina sentiu o coração disparar.
— Quem está aí?!
A voz respondeu imediatamente.
— O QUE FOI FEITO NÃO PODE SER MUDADO.
O chão tremeu novamente.
A porta secreta no fundo do porão começou a bater sozinha.
BANG!
BANG!
BANG!
Como se algo estivesse preso do outro lado tentando sair.
Miller começou a chorar.
— Angie… vamos embora!
Angelina puxou novamente a porta da escada.
— Ela não abre!
A voz rugiu novamente.
— VÃO EMBORA.
As sombras começaram a se mover mais rápido.
Subindo pelas paredes.
Deslizando pelo teto.
Uma delas passou pelo rosto de Miller.
Ela gritou.
— AAAAAH!
— FICA CALMA!
Mas Angelina também estava aterrorizada.
A voz voltou.
Mais fria.
Mais próxima.
— A CASA GUARDA O QUE PRECISA FICAR ESCONDIDO.
Angelina respondeu, tremendo.
— Nós só queremos ajudar Odette!
O silêncio caiu por um segundo.
E então a voz respondeu.
Mais furiosa.
— ODette não pode ser ajudada.
Angelina sentiu lágrimas nos olhos.
— Por quê?!
A resposta veio como um sussurro gelado.
— Porque ela nunca saiu daqui.
Miller agarrou o braço de Angelina.
— O que isso significa?!
Mas antes que pudessem reagir…
A porta da escada abriu violentamente.
CRAAACK!
A luz do corredor da casa invadiu o porão.
As sombras desapareceram instantaneamente.
O vento parou.
Os objetos caíram no chão.
Silêncio.
Total.
Angelina e Miller ficaram imóveis por alguns segundos.
Respirando com dificuldade.
— Vamos… — disse Miller com a voz fraca.
Angelina não discutiu.
As duas correram pela escada.
Saíram do porão.
E bateram a porta com força.
O corredor da casa parecia estranhamente normal agora.
Calmo.
Silencioso.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas quando olharam para trás…
A porta do porão se moveu sozinha.
Fechando lentamente.
CLACK.
Miller estava tremendo.
— Eu… eu nunca mais vou entrar naquele lugar.
Angelina encostou na parede.
O coração ainda batia descontrolado.
— Você ouviu o que a voz disse?
— Qual parte?!
— Que Odette nunca saiu daqui.
O silêncio tomou conta do corredor.
Porque naquele instante…
Angelina percebeu algo terrível.
Talvez Odette não estivesse apenas aparecendo para ela.
Talvez…
O espírito da menina ainda estivesse preso naquela casa.
E se isso fosse verdade…
Então a casa de Angelina não era apenas um lugar ligado ao passado.
Era uma prisão.
Uma prisão para algo que ainda estava esperando ser libertado.
Ou…
Algo que jamais deveria ser libertado.