O chão da igreja tremeu com intensidade, fazendo a poeira subir e as velas dançarem em torres instáveis de luz. Angelina sentiu um formigamento subir da planta dos pés até a nuca. Não era apenas medo — era algo antigo, primordial. Algo que pulsava dentro dela, como se sua própria linhagem estivesse acordando depois de séculos de silêncio.
Miller agarrou o braço de Angelina com força, quase arrancando-lhe um grito.
— Angie… o que está acontecendo com você?! — perguntou, a voz tremendo.
Angelina m*l conseguia falar. Sua visão estava turva, mas uma clareza estranha começava a surgir no centro de sua mente. Ela podia sentir os sussurros dos antepassados, a presença de mulheres poderosas que tinham vivido e morrido há muito tempo, bruxas respeitadas e temidas na vila, mas cuja magia havia passado de geração em geração. Agora, despertava dentro dela, despertava para proteger, para lutar.
— Não sei… mas sinto… algo… dentro de mim — murmurou Angelina, tentando controlar o tremor da voz.
As portas da igreja balançaram violentamente. O grupo de sobreviventes do culto estava forçando a entrada, mas a madeira parecia sólida como pedra. A força invisível que mantinha a porta fechada parecia responder à presença de Angelina, como se reconhecesse sua linhagem e estivesse determinada a defendê-la a todo custo.
— Pai… — disse ela, olhando para Thomas Hale. — Eu sinto… eles querem me usar.
Thomas engoliu em seco.
— Sim, eles querem você para o ritual. Mas há algo em você que eles não conseguem tocar.
Angelina olhou para ele, confusa.
— O que significa isso?
Thomas respirou fundo.
— Sua tetravó… ela deixou algo dentro de você. Uma força antiga. Uma proteção. Você carrega a essência dela. É por isso que você ainda está viva. É por isso que eles não podem fazer nada com você — pelo menos, não completamente.
Miller olhou para Angelina, os olhos arregalados.
— Você está dizendo que… você tem magia?
Angelina balançou a cabeça lentamente.
— Eu… não sei. Nunca senti nada assim antes.
Mas ela sentiu. E era assustador.
O chão tremeu novamente, mais forte. As sombras da igreja começaram a se mover, dançando nas paredes com formas estranhas e quase humanas. O vento cortava o ar, trazendo sussurros que pareciam palavras. Palavras antigas, em uma língua que Angelina não entendia, mas de alguma forma reconhecia. Era a voz de sua tetravó, chamando-a.
— Angelina… desperte…
O corpo dela estremeceu, e de repente, as velas começaram a girar ao seu redor em um movimento circular. Era hipnotizante, aterrorizante e maravilhoso ao mesmo tempo. Angelina sentiu um calor subir do peito, espalhando-se pelos braços e pernas, e em instantes, uma força invisível começou a formar uma barreira ao redor dela e de Miller, repelindo o culto que estava tentando entrar.
— Miller, segure minha mão! — gritou Angelina.
Miller obedeceu imediatamente. No instante em que suas mãos se tocaram, a energia ao redor delas explodiu em uma onda de luz fraca, mas poderosa, como se a própria igreja estivesse viva e lutando para proteger Angelina.
O líder do culto, Elias, recuou com um grito de frustração.
— Isso não pode estar acontecendo! — bradou, a voz cheia de desespero. — Ela não deveria ter despertado!
Angelina sentiu o pânico e a raiva do homem como se fossem tangíveis. Ela não sabia exatamente o que fazer, mas algo dentro dela sabia como lutar. A sensação de conexão com sua tetravó, com as bruxas da sua linhagem, tornou-se tão intensa que ela podia ouvir cada uma delas, como vozes em coro.
— Escutem-me! — disse Angelina, quase sem acreditar na própria voz, mas cheia de autoridade. — Vocês não podem me tocar!
As vozes na sua cabeça responderam como um coro.
— Use o que está dentro de você, Angelina…
— Chame-nos…
— Proteja-se…
De repente, o chão da igreja rachou. Um facho de luz azulada surgiu do solo, formando símbolos antigos e arcanos que brilharam como fósforos acesos. A força invisível que protegia Angelina intensificou-se. O culto foi empurrado para trás, involuntariamente. Elias gritou com os seguidores.
— Força de bruxa… ela despertou!
Angelina sentiu o poder pulsando em suas veias. Mas não era um poder que podia controlar completamente. Ela ainda era humana, ainda estava assustada, mas sabia que não estava sozinha. Algo maior estava com ela.
— Eu não posso — murmurou para si mesma — não posso falhar…
Miller olhou para ela, desesperada.
— Angie… o que está acontecendo com você?!
— Não sei… mas eu vou protegê-la! — gritou Angelina, segurando a mão da amiga com força.
O culto tentou se aproximar novamente, mas cada passo que davam era bloqueado por uma força invisível, quase tangível. Elias avançou, apontando os dedos para Angelina, como se tentasse invocar algum tipo de magia n***a. Mas algo estranho aconteceu: as sombras do altar começaram a se contorcer, formando figuras humanas que se interpunham entre ele e Angelina.
— São… espíritos? — murmurou Miller.
— Sim… meus antepassados — respondeu Angelina, ainda sem entender totalmente, mas reconhecendo a presença. — Eles estão aqui para me proteger…
As figuras etéreas ergueram os braços, e o chão da igreja começou a brilhar com runas antigas. Um barulho profundo ecoou por toda a estrutura, e os sobreviventes do culto recuaram, sentindo a força que não podiam compreender. Elias gritou:
— Isso é impossível! Ela não deveria ter esse poder!
Angelina sentiu algo dentro dela despertar ainda mais. Uma memória antiga, que não era dela, mas que agora fazia parte dela: o poder da sua tetravó, que se espalhou pelas gerações. Era assustador, mas também empoderador. Ela sabia, intuitivamente, que só com o apoio dos espíritos de seus antepassados bruxos poderia sobreviver àquilo e proteger Miller e a si mesma.
O líder do culto gritou novamente, tentando reunir seus seguidores, mas a força que emanava de Angelina e da igreja era esmagadora. Elias avançou sozinho, com raiva e desespero, mas foi parado por uma corrente de vento sobrenatural, que o jogou para trás contra o chão. O impacto ecoou pelo espaço, e ele não se levantou imediatamente.
Angelina, mesmo assustada, sentiu uma calma estranha. Ela fechou os olhos e concentrou-se nas vozes que ainda falavam dentro de sua cabeça. Cada uma delas guiava-a, mostrando símbolos, gestos e palavras em uma língua antiga que, de alguma forma, ela entendia. Não era apenas proteção; era um ensinamento que atravessava séculos.
— Respire… concentre-se… — sussurrou a voz da tetravó dentro dela.
— Eu não sei como… — murmurou Angelina.
— Confie — respondeu a voz, firme e ancestral.
Então, Angelina estendeu as mãos para frente. Um feixe de luz azul começou a irradiar de suas palmas. Ele se espalhou pelo altar e, como se estivesse vivo, tomou toda a igreja. O culto foi empurrado violentamente para trás. Alguns gritaram de dor, outros caíram no chão. Elias tentou resistir, mas o feixe o atingiu, e ele gritou novamente.
— VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!
— Posso! — gritou Angelina, sentindo o poder crescer a cada palavra, a cada respiração.
Miller, ainda segurando sua mão, percebeu que a amiga havia mudado. Não era apenas a mesma Angelina de antes. Ela era agora a herdeira de algo antigo, algo poderoso, algo que nem o culto ousaria enfrentar.
A luz azul continuava a se expandir, envolvendo a igreja, os símbolos e os espíritos. O culto finalmente começou a recuar, assustado e incapaz de compreender a magnitude do que estavam enfrentando.
— Pai… — disse Angelina, ainda respirando com dificuldade — Eles… eles não vão nos alcançar?
Thomas Hale olhou para ela, os olhos cheios de respeito e medo.
— Por enquanto… mas você precisa aprender a controlar isso. — Ele respirou fundo — Você é a chave, Angelina. E o mundo deles ainda não acabou.
Lá fora, o silêncio começou a voltar. A névoa recuou lentamente. As sombras desapareceram. Mas Angelina sabia que isso não era o fim. Ela não entendia completamente o poder que acabara de despertar, nem o quão longe isso poderia levá-la.
Miller olhou para ela, os olhos cheios de preocupação, mas também de admiração.
— Eu nunca vi nada igual… — disse a amiga.
Angelina respirou fundo.
— Eu também não… mas algo me diz que isso é apenas o começo.
Porque Odette ainda precisava de justiça, os sobreviventes ainda estavam à espreita, e algo no sangue da família de Angelina dizia que nem tudo estava perdido, nem para os vivos, nem para os mortos.
E naquele momento, enquanto as vozes dos antepassados ainda sussurravam em sua mente, Angelina soube que estava pronta para o que viesse a seguir. Mas também sabia que o preço para proteger aqueles que amava seria mais alto do que jamais imaginara.
O silêncio da igreja era agora profundo, carregado de tensão. O ar parecia elétrico, como se cada pedra, cada sombra, estivesse esperando pelo próximo movimento. E algo dentro de Angelina sabia, com absoluta certeza, que a guerra entre os vivos e os mortos estava apenas começando.