A lua estava alta no céu, espalhando uma luz fria pelas janelas da casa de Angelina. O vento soprava nas árvores do quintal, fazendo sombras dançarem pelas paredes do quarto. O ar estava pesado, carregado de uma energia antiga, quase palpável, e Angelina sentia cada fibra do seu corpo vibrar com o chamado de sua linhagem.
Miller estava sentada em silêncio, observando a amiga preparar o espaço. Velas foram acesas, formando um círculo quase perfeito no chão de madeira. Runas antigas foram desenhadas com giz branco, absorvendo a luz fraca da lua e refletindo tons azuis e dourados nas paredes.
— Angie… você tem certeza de que isso vai funcionar? — perguntou Miller, a voz tremendo.
Angelina respirou fundo, segurando o colar que pertencera à tetravó. Um pingente de prata, com símbolos gravados que ela não compreendia completamente, mas que sentia pulsar com sua energia.
— Tenho que funcionar… — disse Angelina. — Eu sinto os espíritos. Eles estão perto. Eles estão esperando.
Miller assentiu, embora visivelmente assustada. Ela sabia que não havia mais volta. O mundo de Angelina havia se tornado sombrio, perigoso, e todas as respostas passavam por aquilo que ela estava prestes a fazer.
Angelina fechou os olhos e começou a entoar palavras em uma língua antiga, a mesma que ouvira na igreja durante a batalha com o culto. As vozes de suas ancestrais começaram a responder, suaves no início, depois mais fortes. Cada palavra era acompanhada de uma sensação de calor, de poder, de proteção. O círculo de velas começou a pulsar, como se estivesse vivo, refletindo a intensidade da energia de Angelina.
— Respire… — sussurrou a voz de sua tetravó em sua mente. — Concentre-se. Não tenha medo.
O coração de Angelina batia acelerado. Ela podia sentir cada espírito se aproximando, formando uma aura de proteção ao redor dela e de Miller. Algo dentro dela começou a despertar, uma força antiga que corria em seu sangue há gerações.
De repente, uma rajada de vento percorreu o quarto, apagando algumas velas. O frio intenso fez Angelina tremer, mas também trouxe uma clareza: alguma coisa ou alguém estava tentando interromper o ritual. Ela abriu os olhos e viu sombras se contorcendo nas paredes, formas humanas e grotescas, sussurrando palavras de ódio e frustração.
— Miller… fique atrás de mim! — gritou Angelina.
Miller obedeceu imediatamente, segurando a mão da amiga com força.
— Vocês não podem nos tocar! — gritou Angelina, sentindo a força da linhagem crescendo. — Eu sou herdeira dos antigos! Eu sou protegida!
As sombras se contorciam ainda mais violentamente. Um estalo seco ecoou pelo quarto e, de repente, a porta se fechou com força, batendo contra a parede. Objetos começaram a se mover sozinhos: livros, cadeiras, e até o colar da tetravó flutuou no ar por alguns segundos antes de cair no chão.
— Eu… eu não consigo controlar isso! — gritou Angelina, mas dentro dela uma força desconhecida começou a guiá-la.
Ela respirou fundo e se concentrou. A voz de sua tetravó dentro da mente começou a sussurrar novamente, desta vez instruindo-a com mais clareza:
— Toque os símbolos… trace os círculos… invoque nossa proteção…
Angelina começou a mover as mãos em gestos precisos, seguindo o instinto e a memória que não era completamente sua. As velas começaram a brilhar intensamente, iluminando o quarto com uma luz dourada e azulada. A energia se expandiu, formando um escudo protetor que impedia que as sombras se aproximassem.
— Eu estou fazendo isso… — disse Angelina, quase sem fôlego. — Estou chamando vocês!
E então, algo inesperado aconteceu. Uma figura começou a se formar no centro do círculo: a silhueta etérea de sua tetravó, alta, imponente, com olhos que brilhavam como cristais e uma presença tão poderosa que fez Miller recuar alguns passos.
— Angelina… — disse a voz, agora audível, mas não apenas em sua mente. — Você está pronta. Mas ainda há perigos que você não compreende.
— Estou… tentando — murmurou Angelina. — Mas… e o culto? E Odette? E todos os mortos?
— Tudo isso está conectado — respondeu a figura. — A sua família, a vila, os espíritos… e Odette. Ela não descansa porque algo foi feito de errado. Seu corpo nunca foi enterrado corretamente. E alguém na sua casa guarda um segredo que impede a verdade de ser revelada.
Angelina sentiu um calafrio percorrer a espinha. Ela olhou para Miller, que parecia congelada, assustada e maravilhada ao mesmo tempo.
— O quê? — perguntou Miller. — Minha nossa… alguém na sua casa?
— Não necessariamente meus pais — respondeu Angelina, a voz firme — mas a casa guarda algo… algo que se conecta ao desaparecimento de Odette e à linhagem da minha família.
A tetravó assentiu, confirmando.
— Sim… e você precisará descobrir antes que seja tarde demais. Eles — a voz indicou o espaço do culto — estão se aproximando, tentando corromper sua força.
Angelina respirou fundo. Sabia que não podia hesitar. A proteção de sua linhagem não seria eterna. Ela precisava encontrar os ossos de Odette, enterrá-los junto da mãe, e finalmente pôr fim ao tormento que assolava os vivos e os mortos.
Mas antes disso, uma nova onda de terror atingiu o quarto. O chão tremeu novamente, as sombras se agitaram como serpentes, e a voz de um dos sobreviventes do culto ecoou em sua mente, profunda, carregada de ódio:
— Você não pode escapar! — gritaram, de forma sobrenatural, como se a presença deles invadisse o espaço físico do círculo. — Você será usada!
Angelina sentiu medo, mas algo dentro dela respondeu com fúria e força. As sombras se aproximavam, tentando atacar, mas a energia de sua linhagem começou a repelí-las. Ela estendeu as mãos e, desta vez, algo novo aconteceu: os espíritos de antepassados começaram a materializar-se como figuras etéreas ao redor dela, bloqueando o avanço dos invasores.
— Vocês não podem tocar minha amiga! — gritou Angelina. — Vocês não podem tocar ninguém!
Miller segurou sua mão com força, agora confiando plenamente na força da amiga.
— Eu acredito em você, Angie! — disse, quase chorando de medo.
A figura da tetravó se aproximou mais, pairando no ar, olhando diretamente para Angelina.
— Lembre-se… Angelina, sua força não é apenas sua. É a de todas as que vieram antes de você. Invocar-nos é essencial. Mas você ainda não conhece todo o poder que corre em seu sangue.
Angelina respirou fundo e, pela primeira vez, sentiu uma clareza absoluta. Ela conseguia ouvir os sussurros, ver os símbolos e manipular a energia. As sombras começaram a recuar lentamente, e o culto, percebendo que sua investida fracassava, recuou para o lado de fora, gritando palavras de ódio e ameaças que se perderam no vento.
— Estamos a salvo, por enquanto — disse Angelina, ainda tremendo, mas mais confiante. — Mas precisamos agir rápido. Odette não vai esperar por nós para sempre.
— E se eles voltarem mais fortes? — perguntou Miller, a voz cheia de apreensão.
— Então estaremos prontas — respondeu Angelina, fechando os olhos e sentindo os espíritos ao seu redor. — Não só eu… nós.
O silêncio voltou, pesado e profundo. A casa parecia respirar junto com Angelina. Cada sombra parecia imóvel, mas carregada de energia, como se estivesse esperando o próximo movimento. Ela sabia que a batalha estava apenas começando, mas agora tinha uma arma que ninguém poderia tocar: a força da linhagem, e o poder dos antepassados que protegiam sua vida e de quem ela amava.
Enquanto observava a lua refletida nas paredes, Angelina percebeu algo mais. Havia um antigo quarto secreto na casa, trancado há décadas, cheio de poeira e de mistérios. Algo ligado ao desaparecimento de Odette. Algo que precisaria ser descoberto antes que mais mortes acontecessem e antes que o culto pudesse usar a magia contra ela.
— Miller… amanhã… nós investigamos o quarto secreto — disse Angelina, com determinação. — Descobriremos o que está escondido lá e por que Odette nunca encontrou descanso.
Miller apenas assentiu, sentindo o peso da noite, mas confiando plenamente na amiga que agora se tornava mais do que humana: uma guardiã dos vivos e dos mortos, uma bruxa da linhagem ancestral com poder suficiente para enfrentar qualquer horror.
E enquanto o vento soprava nas árvores e sombras se contorciam no quintal, Angelina sentiu uma certeza absoluta: a guerra entre os vivos e os mortos havia apenas começado, e sua família tinha mais segredos do que ela jamais imaginara.